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No diálogo O Banquete (Symposium), Platão estabelece a diferença entre palerma e mendigo, tratando sobre o Amor.
Lá pelas tantas, após todos os convidados à festa de Agatão, e este próprio, discorrerem sobre o tema do Amor, eis que chega a vez de Sócrates [1].
Em sua vez, Sócrates começa por elogiar o discurso de Agatão para introduzir um aspecto novo em relação aos demais discursos dos convidados; deixa claro que ficará embaraçado, “tanto é assim, que a ideia de não ser capaz de dizer nada de beleza sequer aproximada quase me faria escapulir de vergonha, se houvesse um jeito.”
Há uma cena semelhante a esta, no diálogo Fedro, quando o mesmo Sócrates pretendia cobrir a cabeça para proferir seu discurso. Em (234d), após referir-se a Baco, que representa um transporte para a sexualidade orgástica, após ser estimulado por Fedro, Sócrates resiste e diz:
PLATÃO, Fedro, (236e)
[...] Eu devo nunca, nunca outra vez, recitar um discurso para ti (I shall never, never again recite another speech for you)
O elogio de Sócrates ao discurso de Agatão é apenas uma grande ironia, em nosso modo de ver, acerca do mais belo discurso proferido entre os demais discursos efêmeros; Agatão havia tratado o amor que deseja algo que não tem, e nisso vai, necessariamente, que o amor que não tem há que ser feio (no sentido de oposto ao belo), e também carece das coisas boas (no sentido de oposto ao bem).
Mas, se como queria Agatão, se o amor foge do feio e do mau, então das duas, uma: ou o feio e/ou o mau não têm amor para dar, ou o feio e/ou o mau não podem ser preenchidos pelo amor enquanto este seja um deus. Assim, se apenas as criaturas belas e/ou boas, de uma forma ou de outra, podem amar seus iguais, o Amor não é universal. Mas, ao não ser universal, o Amor perde sua força e sua ascendência sobre todos os deuses - como quis Agatão - ou sobre todos os demais sentimentos que possam conduzir ao bem.
Sócrates não podia pretender outra coisa, senão tentar escapulir disso; e sua vergonha vem do fato de que, a aceitar a tese de Agatão, ele, Sócrates, não faria parte de nenhuma análise sintática. Um ser feio e mau, coisificado.
Então, Sócrates faz o trocadilho entre Górgias e as Górgonas, para deixar fica implícita a questão:
PLATO, Symposium, (198c)
For his speech so reminded me of Gorgias that I was exactly in the plight described by Homer:1 I feared that Agathon in his final phrases would confront me with the eloquent Gorgias’ head, and by opposing his speech to mine would turn me thus dumbfounded into stone.
Górgias e sua cabeça jogada ao colo de Sócrates o deixaria petrificado. A referência a Homero é relativa à cena em que Odisseu deve enfrentar a deusa.
Aquelas senhoras demoníacas que, pelos olhares terríveis, petrificavam quem as mirasse nos olhos. Entre Medusa, Ésteno e Euríale, talvez Medusa fosse a mais cruel, por ser a única mortal; as duas últimas eram símbolos dos inimigos que devem ser combatidos, a perversão social e a sexual, nesta ordem; ao passo que Medusa representa, em boa medida, a culpabilidade, mediante a necessidade de evolução espiritual contraposta a uma estagnação insustentável.
A ideia, aqui, é a de escapar das forças de atração que fazem os indivíduos gravitarem em torno de uma vida social e sexual que impede os avanços espirituais.
Entendemos por espírito, neste contexto, exatamente aquela força de coesão cuja origem e fim gravita na vida comunitária, mas que, no entanto, faz transcender os sentidos no rumo do belo e do bom.
Portanto, enquanto Agatão propunha um laisser-aller, desleixado, negligente, ou um laisser-faire, um fazer-se nada; Sócrates, avesso a tal ideia, visa um agir.
Ao confessar-se ridículo, ou ignorante (198d) por haver dito, anteriormente, que era entendido nas coisas do amor, Sócrates não faz, propriamente, um mea culpa; antes, diz que conhecia a arte de se fazer qualquer tipo de elogio, seja sobre que assunto fosse, inclusive o Amor. Sócrates pensava estar preparado para desmoronar todos os discursos ali proferidos, naquele banquete. Mas… via, nitidamente, e confessa que via, que a questão tornara-se outra.
O problema já não é mais o discurso em si, ou a arte de fazer elogios. Aliás, sobre isso Hobbes bem atesta, nos capítulos décimo a décimo-quinto da obra Leviatã; a arte dos elogios, das honrarias, para o poder e pelo poder. O problema já não é mais a corrupção que daí surge, maquiada pela ambição, pela vaidade e por outras górgonas e outros górgias. Tratam-se, agora, dos efeitos - e das causas - disso tudo que se poderia chamar como crise de valores (ver a relação da expressão crise de valores com a simbologia das Górgonas), a saber: que deus é esse que cria a atmosfera, o pano de fundo, para que homens sejam, de tal forma, influenciados? Ou, se não é um deus - como quase todos pensavam ser, o deus do Amor -, o que seria, no caráter de cada um, capaz de tanto prostrar?
Possivelmente, uns responderão que, sob os efeitos do vinho, todos caem no laissez-faire. A embriagues passageira ou permanente, contudo, seria a responsável pela crise de valores? Baco seria, nesse sentido, um deus tão perverso? Platão haverá de mostrar que não. Alcibíades chegará à festança, embriagado; e nem por isso, deixará de proferir um discurso que espelha, de fato, seus mais profundos sentimentos de amizade e consideração para com Sócrates.
A seguir um tipo de raciocínio plano, em linha reta, então seria obrigatória a dedução de que, se não é o vinho o causador das perturbações, logo será a razão - o logos -, quem haverá de evidenciar o bem e o belo, de um lado, e a desrazão de outro. Numa demonstração plana, ou isso ou aquilo.
Mas, também não é isso. O logos não é apenas o logo, isto é, a razão não é apenas a lógica. Numa metáfora, quem passa por uma cidade, não pode dizer que a conhece, da mesma forma que um entregador de mensagens não pode afirmar que captou o “espírito” reinante entre os convivas, numa sala de visitas.
Sócrates percebe que aquilo que vê não consiste apenas no louvor, correto ou incorreto, sobre o Amor, e declara:
PLATÃO, O Banquete, (198e)
Bem, assim sendo, eu não sabia como se faz o elogio e, por não o saber, comprometi-me a também eu pronunciar um, na minha vez. Juram os meus lábios, não minh’alma! Adeus! Já não farei o elogio, se é assim; eu não seria capaz.
Jaime Bruna, em sua tradução, chama-nos para o fato de o verso, em itálico, ser uma referência ao Hipólito, de Eurípides. A trilogia de Eurípides - Electra, Alceste e Hipólito - apresenta, entre outros personagens, a figura de Fedra, filha de Minos e de Pasífae, irmã de Medéia.
Fedra, portanto como irmã de Minotauro, Ariadne e Deucalião.
Fedra foi obrigada a casar-se com Teseu. Por uma peleja entre deusas, Afrodite fez com que Fedra concebesse uma paixão desarrazoada por Hipólito, seu enteado. Como não foi correspondida, simulou uma tentativa de estupro, de tal sorte que Teseu castigou o próprio filho.
Na peça específica, citada por Sócrates, conforme lembra Jaime Bruna, Fedra declara-se perdidamente apaixonada pelo enteado e, repelida, calunia-o perante Teseu; pela vergonha de seu próprio gesto, Fedra enforca-se, mas não sem antes deixar o bilhete calunioso para Teseu. O rei de Atenas, por sua vez, desfere uma imprudente maldição que acaba por arruinar o próprio filho.
Vemos, desta maneira, que a passagem é muito eloqüente e forte.
Aquela vergonha a que Sócrates se referira, linhas antes, agora se mostra completamente desnuda. Se ele não sair dali, daquele ambiente de traições e volúpia, acabará por agir tal qual Fedra, coberta de vergonha; para, em seguida, ser caluniado tal qual Hipólito e, finalmente, receber uma maldição vinda, nada menos, de alguém como o herói Teseu.
Ao dirigir-se a Fedro, em especial, cremos que Sócrates faz um trocadilho entre Fedro e Fedra:
PLATÃO, O Banquete, (199b)
Vê, pois, Fedro, se vos interessa escutar semelhante discurso, uma dissertação verídica sobre o Amor, com vocabulário e arranjo de frases ao sabor do acaso.
Ao iniciar seu diálogo, contudo, Sócrates antes pergunta a Fedro se pode dirigir-se a Agatão, para acertar alguns pontos. Fedro permite…
Teseu é o herói ateniense por excelência, orgulho da cidade; Hipólito teria sido seu sucessor, seguramente, não fosse sua desdita. Lembremo-nos que Agatão vinha de ser consagrado diante de mais de dois mil atenienses, recentemente. Seria Agatão uma espécie de Hipólito para Fedro?
As perguntas que Sócrates faz a Agatão, aplicando a maiêutica, visam dirimir aquela dúvida posta sobre se o Amor é algo que está ou não está no homem; porque se o amor é “amor de nada” (199d), cai-se na coisificação daqueles que não podem amar, entre eles os feios (velhos) e os maus.
Como Agatão admite a ideia essencial - “pai é pai de alguém” -, deverá admitir que o Amor é amor de alguma coisa, pois não poderá ser amor de nada. Noutras palavras, contrariando Agatão, ao mesmo tempo que asseverando a gramática, amor é verbo transitivo.
O passo seguinte é mostrar que, por destinar-se a algum fim, o amor vem do desejo; porque “o amor deseja aquilo de que ele é amor” (200a). Mas tal desejar é fruto de carência, porque não é possível desejar algo que se possui.
Mas, como é possível sentir falta (carência, desejo) de algo que não se sabe o que é? Isto, porque Sócrates leva Agatão a admitir que “se o Amor carece do que é belo e as coisas boas são belas, ele carecerá das coisas boas” (201a).
Assim, Sócrates prepara a introdução daquilo que prenuncia a causa do ser, ser!
Seja por programação genética, seja pela constituição física e espiritual, seja pelo sentido da essência para a existência, que o ser marcha da ego-vacuidade para a cosmo-plenitude, reside nisso, em nosso modo de ver, um pouco da concepção de que o ser é um vazio, um nada, em busca de sua plenitude no mundo.
Qualquer semelhança com Sartre (O ser e o nada) é mera conjectura.
O fato é que, após afirmar saber tudo sobre o Amor, Sócrates nega, naqueles moldes postos anteriormente. Porém, agora, em definitivo, desdiz o dito desdito; sobre Diotima, e diz (!):
PLATÃO, O Banquete, (201d)
Foi ela quem me instruiu em matéria de amor…
As reticências falam mais que a própria frase, na versão para o Português, de Jaime Bruna; a versão inglesa traduz a passagem como “I also had my lesson from her in love-matters”, do grego “ta erôtika”.
Nesse caso, vemos que Sócrates agora trata de love-matters - erôtika -, não naquele sentido do elogio discursivo, ou mesmo no outro, um pouco mais polido, que inclui a fala pedante que visa, por um lado, o elogio da especialização e, por outro, a destruição da pesquisa desinteressada. Isto é: tanto Erixímaco e Pausânias, quanto Agatão e Fedro, mereceram a farpa de Sócrates.
Agora, ao declarar-se instruído “em matéria de amor…”, Sócrates prepara a exposição do que seja o real sentido do viver. Na fala de Diotima, isso se traduz como:
PLATÃO, O Banquete, (202a)
E o que não é saber é ignorância? Não compreendeu que, entre saber e ignorar há um meio-termo? Formar opiniões acertadas sem ser capaz de dar suas razões, ignoras tu - disse ela - que não é saber (que saber seria esse, sem razões?) nem ignorância (que ignorância seria essa, dona da verdade?) Deve existir algo como uma opinião acertada, meio-termo entre o conhecimento e a ignorância.
Mas, como é que alguém pode saber algo de algo fora de si, isto é, como pode alguém desejar algo de que está carente, se não conhece esse algo? Diotima argüi Sócrates: “como poderiam, Sócrates, admitir ser ele (o Amor) um grande deus aqueles que chegam a negar sua divindade?” (202c).
A confissão de Sócrates, nos lábios de Diotima, é de que ele nega tal divindade. Embora Sócrates negue, não pode recusar o raciocínio de Diotima.
Noutras palavras, entre a lógica do discurso e aquilo que realmente se deseja, há um abismo imenso; mais que isso, o meio-termo a que se refere Diotima, entre a crença e a certeza - ou seja, a “opinião acertada” -, é um meio-termo entre mortal e divino.
Ela, por si mesma, o diz:
PLATÃO, O Banquete, (202e)
Um grande espírito, Sócrates; realmente, todo espiritual situa-se entre o divino e o mortal.
Diotima prossegue, dando-lhe as características desse “espiritual”. Mas, antes que se traduza por daimon, um ser entre mortais e divinos, que faz o leva-e-traz, é preciso compreender que esse “espírito”, sobretudo, “paira” na atmosfera, ou se preferirem, migra para outra dimensão do ser, uma transmutação de locais, de postos, de consciências, que se dão em todos, ou em alguns, que possam captar as condições para tal transposição entre mundos.
Mundo, aqui, deve ser compreendido, não só mas também, como a possibilidade de a consciência estar em diversos sentidos e significados. Como o admirador de uma tela imortal, feita por outro pintor imortal, busca diferentes ângulos de apreciação e nisso quer encontrar infinitos sentidos e significados.
Na atitude de busca incessante desses mundos por traz do mundo da realidade efetiva, é nela que reside aquela “opinião acertada” de que falou Diotima; e é nessa mesma atitude que reside o tal “espírito” de buscador das verdades necessárias para suportar aquelas carências, ou desejos.
O preenchimento do vão, como diz Diotima, ou seja daquele abismo enorme entre a lógica do discurso e o sentimento em si das contradições, é daí que sai, enfim a união do todo com a parte, ou mais, “o todo fica unido a si próprio”.
Mas, mesmo que os deuses não se misturem aos homens, o contato se dá por aquele “espírito” presente no meio-termo.
A este respeito, o pronunciamento de Pierre Fougeyrollas (in: A filosofia em questão, 1967), sobre o “impulso de filosofar” leva-nos a crer que o filósofo, para além da transmissão do saber acumulado proposto pelos autores clássicos, na academia - e, portanto, também na práxis -, tem em si o impulso - que compreendo como instinto para a liberdade - de filosofar e seguir uma pista adiante de si.
O ato de expor a verdade somente poderia ser movido por um impulso, nesse caso, porque, dada uma pista, a verdade “oficial”, em muitas ocasiões, está encoberta por esta ou aquela razão. Este filosofar se traduz em algo, como afirma Fougeyrollas:
FOUGEYROLLAS, P., A Filosofia em questão, (p. 90)
Posso, pois, transformar a posse bimundana da qual sou presa, em fruição da beleza, em conquista de verdades úteis e em esperança da salvação eterna. Transformar, porém, não é abolir. Para abolir o reino da possessão seria preciso que eu aceitasse a morte como plenitude do nada. Ora, filosofar, diz Platão, é aprender a morrer. Todavia, aquilo de que precisamos não é de uma preparação para a morte considerada como uma passagem para uma vida nova e superior. Aquilo de que precisamos é de um morrer a toda mundanidade (interior e exterior).
Conforme as palavras de Fougeyrollas, Diotima seria presa da posse bimundana, se interpreto a afirmação. Mais ainda, quando adota dois métodos distintos para examinar esse e aquele de seus mundos, trata a si mesma como metódica - na esfera lingüística - e como hiperbólica - na região ética. Contudo, devo destacar outra nota de Fougeyrollas:
FOUGEYROLLAS, P., A Filosofia em questão, (p. 88)
Todavia podemos, desde já, verificar que essa indizibilidade e essa negatividade não dizem respeito a esta doutrina ou escola e não a tais outras. Ao contrário, pertencem ao pensamento filosófico aquém de sua dilaceração (grifo nosso) em doutrinas e em escolas diferentes e antagônicas. [...] Evocamos, suficientemente, as alienações de que foi e ainda é presa o pensamento filosófico. Chegou o momento de interrogá-lo para nele discernir, eventualmente, a capacidade de sobrevivência que detém e desvelar a vocação original que lhe pertence com exclusividade.
Em conformidade a Fougeyrollas, o antagonismo pode estar centrado, pelo mal da dilaceração, a partir de seus antepassados. Quem são eles?
Numa outra metáfora, é de se perguntar como os deuses falam com os homens - e vice-versa -, a resposta seria: dissintonia das realidades de cada um e sintonia nas realidades dos outros.
Aqui, o homem deve tentar não sintonizar as coisas da realidade objetiva e, numa visada oblíqua, captar os sinais que lhe são entregues pelos deuses, através do “espírito”, de forma que “o todo fica unido a si próprio”. O que é um aparente paradoxo, porque o homem perdido nas revoluções cotidianas, preso às suas próprias reflexões e problemas, deixa de notar o mundo à sua volta e todos os sinais emitidos, como a clamar por atenção e por união das partes.
O silêncio, nesse caso, é um excelente mestre; ou, pelo menos, um ótimo ponto de partida para o esvaziamento de uma mente conturbada, sem o que ela não será capaz de reverberar as “vozes do além”: captar a natureza mesma das coisas e de si próprio, inclusive.
O mito de Penúria e Engenho, contado por Diotima, revela bem tal intenção de mirada neste mundo paralelo “por traz do mundo”. Como o Amor seria filho de Penúria e de Engenho, é um eterno mendigo, longe de ser bonito; ao contrário, o Amor também é “poento, descalço, sem teto, sobre terra nua, dormindo ao relento” (203d).
Peço licença para dar uma “opinião acertada”, é dizer: que o acerto vale para a visada que eu mesmo dou ao Symposium: até o momento em que olhei o diálogo, esta é a mais bela de todas as impressões que dele colhi; não desconsiderando que outras possam advir, no futuro. Falo por mim. E só por mim! E, assim, autorizo-me, agora, a empregar a primeira pessoa do singular…
É que, ao contrário de não ser belo, porque é mendigo e vive ao relento, no lugar de ser isto a própria desgraça do Amor, reside aí toda a sua força. Caso contrário, como poderia o Amor estar em dissiontonia consigo mesmo e em sintonia com o Todo?
Mais que isto, aquela passagem bem ao início do diálogo, que aqui não vimos, quando Sócrates pedia a Aristodemo que seguisse à frente e ele, como um mendigo, iria atrás, fica mais eloqüente, agora. Seguir atras, como mendigo, pai, repete a mesma pergunta feita linhas acima de (203d), quando Sócrates pergunta: “Quem é o pai e quem a mãe?”
O interesse de Sócrates em saber quem é o pai, é o mesmo interesse em saber quem é aquele que segue atras, a proteger o filho, a mendigar por um pouco de vida daquele que tem a vida pela frente: de pai para filho.
A passagem, descrita em (203d) é a mais forte metáfora de todo o diálogo, do ponto de vista de minha “opinião acertada” para mim mesmo, comigo mesmo.
Diotima, não satisfeita de sua magnífica construção, explora ainda mais as imagens que daí surgem; diz ela que a indigência é herança da mãe, o que acaba por ser o mais alto dos agudos dessa sinfonia que está a construir.
Em seguida, num crescendo, Diotima informa que, “puxando pelo pai”, o Amor espreita pelos cantos o que é belo e bom, dada sua virilidade e sentido predatório:
PLATÃO, O Banquete, (204a)
[...] passando a vida a filosofar, um mago extraordinário, um feiticeiro, um sofista.
An artful speech. Mas, ainda que disso aufira lucros, como sofista, mago, feiticeiro, tal renda se esvai, não podendo estar nem na miséria, nem na opulência. O desfecho é apoteótico:
PLATÃO, O Banquete, (204a)
Eis a explicação: deus nenhum se entrega à filosofia, nem aspira a tornar-se sábio, porque já o é; nem se entrega à filosofia outro qualquer que seja sábio; por sua vez, os ignorantes não se ocupam de filosofia, nem aspiram a ser sábios; pois nisto mesmo consiste a desgraça do ignorante, em julgar, não sendo distinto nem inteligente, que o é quanto lhe basta; porquanto quem não se crê carecido não aspira àquilo que não imagina lhe falte. (204a)
Logicamente, Sócrates haveria de perguntar sobre quem se ocuparia, portanto, da filosofia. A resposta é constrangedora: até crianças sabem disso, diz Diotima: “os que se acham a meio caminho entre aqueles e estes, e no seu número pode ser contado o Amor (grifo nosso)”.
Só isto bastaria a todos os que queiram, de alguma forma, criticar um grupo que, por exemplo, como nós, quer conhecer um pouco mais sobre Platão e seus diálogos. Apenas tal sentença bastaria para afastar todos os pedantes que ousassem criticar com aquela intenção destrutiva tão bem conhecida de todos.
Por conseguinte, tanto o filósofo quanto o Amor são mendigos, pedintes, descalços, oportunistas, predadores. Filhos de “pais sábios e mães apalermadas”, nas palavras de Diotima. Mas, longe disso ser uma ofensa, acaba por tornar-se, como vimos, o maior dos elogios, posto que trata o Amor, e o filósofo, como aqueles que, em detrimento de si próprios, laboram pela união do Todo com as partes.
Gosto de imaginar, aqui, a cena e os entre-olhares de todos naquele salão do Banquete de Agatão. Possivelmente, Aristófanes tenha levado as mãos à boca, para esconder o riso largo; Agatão, que houvera tratado os “velhos” como desqualificados, pode ter recebido a farpa como um bofetão tremendo: afinal, Sócrates informava que era, sim, velho e feio, e que nisso residia a própria beleza; Pausânias e Erixímaco, no exercício que faço por puro divertimento como diretor de cena, possivelmente olharam-se de soslaio; e, por fim, Fedro teria demonstrado, segundo minha descrição, um profundo arrependimento; já Sócrates (e nisso eu dirigiria o foco para seu semblante, fosse eu diretor de cinema) teria feito uma enorme pausa, não só para respirar, como para averiguar o “som” do silêncio que se faria naquele salão.
Naturalmente que nenhum dos presentes ousaria perguntar o que Sócrates perguntaria à própria Diotima, porque se o fizessem passariam por filhos de “mães apalermadas”, aqui no sentido pejorativo do termo.
Mas, qual é a serventia do Amor - e, claro, a do filósofo -, para os homens, pergunta Sócrates?
A resposta de Diotima marcha no rumo da explicação daquilo que vem a ser a kantiana faculdade de desejar, das coisas belas e boas, e do seu sentir.
“O amor sem limites e em tudo ardiloso é todo desejo das coisas boas e da felicidade”, uma nova explicação, ou mais uma adesão, ao termo eudaimonia.
Mas não há aqui uma ideia de ascese, naquele sentido unilateral, de subida, ascensão; trata-se de um amor sem limites de cuja expansão se dá de forma omnilateral; mas, também não é uma omnilateralidade que só é capaz de vislumbrar os vetores direcionados para todos os rumos do espaço; é preciso que os vetores da expansão possam penetrar em outros mundos, em outras dimensões, do espaço-tempo e outras inimagináveis, como por exemplo, aquela do “pano de fundo” onde se desenrola o Symposium.
Mas o Amor não é complemento de caras metades, nem cirurgia plástica para aqueles que querem amputar partes do próprio corpo se as julguem imprestáveis, diz Diotima. Sua teoria, portanto, é que o Amor produz o belo e o bom dentro do próprio homem, como para gerar e parir na beleza.
Amor é para gerar e parir beleza!
Platão!

A pancada foi endereçada a Aristófanes, naquela teoria segundo a qual as metades procuravam as metades, de onde surgiu a análise da produção de raça pura para servir aos senhores poderosos.
É bom lembrar, também gosto de imaginar que Aristófanes engoliu uma boa dose de vinho e quis interromper o discurso de Sócrates; que Sócrates o olhou de soslaio e esboçou um leve sorriso; que os demais coraram diante da cena.
Porém, houve uma outra pancada, mais sutil, endereçada a Agatão, bem aqui, para refutar aquela ideia da reprodução do amor no rumo oposto por Aristófanes; nesse instante, se lá estivesse, eu indagaria ao ar rarefeito do salão se Agatão entendera a mensagem.
Geração, porque a mortalidade torna-se imortalidade. Sem a geração, os homens perdem o sentido de imortalidade pelo Amor e colocam em seu lugar o desejo de imortalidade pela vingança contra a decretação, pelos deuses, da morte dos humanos.
Eis um Platão avesso ao niilismo…
Tal natureza mortal, humana, procura a natureza imortal divina, não porque queira vingar-se contra a própria morte, mas porque o viver é eternidade.
E nisso reside outra tese não menos grandiosa: a de que todos os homens estão prenhes, e nesse sentido, todo homem é, de certa forma, uma mulher.
Assim, conecta-se diretamente o texto com a teoria da reminiscência, porque estudar significa produzir ideias; o parto das ideias é o parto de um novo filho; também o sentido da mendicância cai bem, naquele pai à busca do filho que surge. Logo, a transcendência do amor acima do corpo é a volta para a essência do belo.
Encontra-se, aqui, o cerne da questão da ipseidade. Poderíamos dizer que toda a filosofia de Paul Ricoeur tem aqui seu epicentro, isto é, que malgrado o homem passe da tenra idade à velhice, traços de sua identidade narrativa permanecem, a mémeté conforme a descreve Ricoeur, que acaba por se traduzir na ipséité. Diz Diotima:
PLATÃO, O Banquete, (207d)
[...] por exemplo, diz-se que uma pessoa é a mesma da infância à velhice; embora jamais conserve em si os mesmos atributos, diz-se que é a mesma; todavia, com algumas perdas, está sempre se renovando, nos cabelos, na carne, nos ossos, no sangue, em todo o seu corpo. Isso acontece não só segundo o corpo, mas também segundo a alma [...]
A versão inglesa também traz outros matizes desta passagem:
(207d) [...] It is only for a while that each live thing can be described as alive and the same, as a man is said to be the same person from childhood until he is advanced in years: yet though he is called the same he does not at any time possess the same properties; he is continually becoming a new person, and there are things also which he loses, [207e] as appears by his hair, his flesh, his bones, and his blood and body altogether. And observe that not only in his body but in his soul besides we find none of his manners or habits, his opinions, desires, pleasures, pains or fears, ever abiding the same in his particular self; some things grow in him, while others perish.
Vemos que “yet he is called the same he does not at any time possess the same properties”. Tal ipseidade é chave naquilo que distingue o ser humano dos demais seres humanos. Mas, no caso de Ricoeur, estamos mais próximos de entender o que seja a identidade narrativa fruto das diversas descrições que o indivíduo colhe no curso de sua vida de contatos e, ao mesmo tempo, na exposição de si mesmo aos outros e com outros - Soi-mêmme come un autre -, é dizer, si mesmo como um outro que também traz um consigo mesmo como um outro.
Já em Platão, o discurso de Diotima volta-se para o mundo atras do mundo, no caso, aquilo que produz a ipseidade, a saber: o Amor.
Isto, porque daí se extrai aquela “glória imorredoura para a eternidade”; e não há nada de niilismo nisso, como não há no sentido do herói grego que quer se igualar aos deuses, no campo de batalha.
Porque não é mesquinha a vida daquele que contempla a beleza pelo meio correto (212a).
Nem bem terminou, Sócrates dirigiu-se a Fedro “e demais presentes” como se mais nada houvesse acontecido.
E dirijo-me a ti Navegante: como suspeito, também, e já disse isto em outro artigo, não é o Amor, então, a única “coisa” que supera o eterno?
Supera mendigando e “apalermado”!
postado por Ramiro Corrêa (11/03/2010)
- Utilizamos versão para o Português em PLATÃO. O Banquete. In: Diálogos. Tradução de Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix; e a versão para o Inglês de FOWLER, H. N. Plato in Twelve Volumes. Vol. 1. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1966 [↩]
Mar
10
Mar
9
Você já experimentou dizer certas palavras, até com alguma convicção? Experimente estas: Sempre e nunca!
Pense nelas e no quanto são inúteis.
Afinal de contas, o que você entende por sempre, de sempre, ou por nunca, de nunca? Quem de nós é capaz de discorrer, tranquilamente, sobre uma delas?
Nunca mais! Para sempre!
Um nunca mais é para sempre? Você dirá: a morte, sim! Será?
Observe: do nunca mais, mais importante que o nunca é o mais! Mas, mais o que? Mais vida? Mais amor? Mais saúde? Mais? O segredo está em que o mais esconde o sujeito sempre oculto.
Veja com cuidado: do para sempre, mais importante que o sempre é o para! Para o que? Quem? Para onde será o sempre?
Vivemos em busca do mais… para…
E por traz de cada nunca e cada sempre, há sempre um mais e nunca um para.
Os mais ávidos diriam que o primeiro é a eternidade positiva e o segundo a negativa. Mas o que nega não é o nunca e sim o sempre; e o que afirma não é o sempre, ao contrário do nunca.
O nunca poderia ser a eternidade presente no jamais, do não ser nem mesmo algo pouco além do nada. O sempre é seu oposto: trata da nulidade do jamais.
A cosmoplenitude versus a egovacuidade fazem o jogo da cosmoegoidade, uma palavra dos infernos de ininteligível - assim mesmo -, que se vacuidade plena. Um vazio eterno a ser preenchido de vícios ou virtudes.
Para ser bem simples, alguém pode até dizer “te amo como sempre e nunca amei”. A tradução desta sentença, por exemplo, diz apenas que o amor é sempre um crescer de nunca ser como antes. E esta infinidade de nuncas, a cada instante diferenciando o momento anterior, dá a tônica do amor: algo que nunca será suficiente, aquilo que sempre será buscado, e mais, para além de qualquer medida mesmo aquela que não se mede por ser infinita.
O amor é, sempre, um nunca como antes; mais, o amor é um nunca, sempre; mais ainda, o amor nunca é como sempre.
Não foi a troco de qualquer coisa que o grego antigo não imaginou uma deidade para amor. Cuidado! Não se precipite em citar Afrodite, Eros, Dioníso, Athena, Apolo ou outra sempre nunca Olimpiano.
Não confunda sensualidade, sexualidade, sabedoria, prudência, luz, razão, paixão e a soma de todas elas com amor.
Amor é algo onde o todo é muito, infinitamente, maior que a soma das partes. E, até, talvez, bem menor. Sendo assim, como veríamos se pudéssemos, nem tanto o mais, da quantidade, muito menos o para, da espacialidade, determinam seja o que for de um nunca ou de um sempre.
E tanto, que nem mesmo a eternidade dele dá notícias. Eis a única coisa - se é que coisa possa ser - que supera o eterno: o amor.
E ai de quem não entende esse mais nunca para sempre.
postado por Ramiro Corrêa (09/03/2010)
Mar
9
Nasce Sísifo:
Muito longe da perfeição que se segue:
FRED ASTAIRE & GINGER ROGERS //// BERT KAEMPFERT in
postado por Ramiro (09/03/2010)
Mar
7
Já imaginaram as mesas dos políticos, em Brasília, com air bags? Dez destas senhoras dariam jeito na política brasileira.
postado por Ramiro (06/03/2010)
Mar
4
Mar
2
Ao Navegante, este texto de meu ex-aluno do Ensino Médio e hoje grande amigo, Matheus Anthony.
Aprecie!
Caro Ramiro,
Acabo de escrever o texto que estava devendo para você. Desta vez eu fiz uma crônica e, se fosse possível, gostaria de dedicá-la para uma pessoa amiga que, assim como você, é muito importante para mim. (vou deixar a dedicatória no final do texto)
A suave subversao das palavras
Certa vez passando pelo centro da cidade ouvi, despercebidamente, um morador de rua dizendo a seguinte frase: “As pessoas perderam a capacidade de perceber o que está além do seu olhar vago”. Assustado um pouco devido ao impacto dessa frase, comecei a refletir sobre a importância do contexto em que tais palavras foram ditas.
O dia havia amanhecido nublado e havia uma singela garoa que provocava uma tristeza incomensurável. No entanto, eu necessitava resolver meus problemas no seio da cidade apesar de não desejar sair naquele dia. Peguei uma blusa no armário e fui, então.
Caminhando pelas ruas do centro e esquivando-me dos chuviscos e das poças de água passei defronte a uma loja onde no seu passeio estava sentado um senhor em meio à lama formada pela chuva. Desacreditado, possivelmente, por não conseguir naquele dia o mínimo necessário para a sua sobrevivência disse a frase acima, a mais brilhante metáfora que já tenha ouvido ou lido em qualquer um desses livros corriqueiros.
As pessoas realmente deixaram de praticar a seguinte premissa relatada por Paul Ricoeur: “O si - mesmo como um outro”. As possibilidades emergidas a partir desse conceito não se restringem apenas ao campo teórico, mas atingem também o campo empírico com uma inesgotável sutileza. O olhar desinteressado do sujeito (o si -mesmo) em relação ao “outro” permite que este construa os pilares de uma subjetividade que não se esmorece apesar das intempéries da vida. O abandono não se restringe apenas à carência de recursos materiais, pois é visivelmente perceptível nos olhares vagos que se deslocam pelas ruas sem direção.
Após chegar em casa fiquei pensando nas palavras ditas pelo morador de rua e pelos inúmeros olhares vagos que encontrei pelo caminho durante meu retorno. Procurando alguma reposta que pudesse explicar as inúmeras contradições dos meus pensamentos, percebi que as pessoas, em geral, possuem um grande medo de amar e, assim, seus sentimentos serem traídos pela incapacidade do “outro” em reconhecer a plenitude dessa relação. Então, iniciam um processo de contração subjetiva, preenchendo o espaço deixado pelos véus da indiferença e do egoísmo.
O abandono da subjetividade é muito perigoso porque permite a formação de uma sociedade sustentada por uma fraternidade conquistada ao acaso.
Sartre me ensinou os diferentes tipos de morte e que a morte da alma é a mais dolorosa e a única que pode ser impedida pela doação integral do sujeito. A única forma de conhecermos a nós mesmos perpassa pelo sentido de doação e solidariedade em relação ao “outro”, preenchendo as mútuas carências. Relações estruturadas a partir de bases desinteressadas e de um comprometimento real são indestrutíveis. A insegurança e o medo sempre vão fazer parte dessa oportunidade, mas não devem ser motivos de rendição. E se as lágrimas rolarem um dia pelo seu rosto que seja, então, a possibilidade de um novo recomeço. A palavra bem dita tem o poder de transformar uma vida.
Gostaria de terminar citando um poema que li em algum lugar:
“Dedico essa crônica a Claiane, uma pessoa muito especial para mim, que em poucos dias me demonstrou a magnitude da sensibilidade humana com sua maneira meiga e gentil de ser.”
Ramiro, se a crônica não ficou de seu agrado, você me manda um e-mail ou me liga para eu refazer.
Um grande abraço,
Matheus Anthony
COMENTÁRIO AO MATHEUS:
Caro amigo Matheus:
Vou postar e quero ter o prazer de ler após a publicação no Filosofix. Acho que isto responde à tua questão do que seja de nosso agrado: que é a amizade desinteressada… e a tua genialidade que me encanta!
Obrigado.
Ramiro.
postado por Matheus Anthony (02/03/2010)
Mar
1
Encontre a seguir mais uma conferência de Yöel Benharrouche, proferida neste mês de fevereiro de 2010 em Jerusalém, e publicada em vídeo no site da AKADEM AQUI.
Yoël Benharrouche nasceu em 1961 em Beer-Sheva e é um artista pintor que expõe suas obras em França, Suíça, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos e Israel. É um pintor dedicado à arte de profunda expressão. Visite seu site pessoal - Yoel Benharrouche (aqui).

Nesta oportunidade, Benharrouche visa mostrar a magnitude de Israel, exposta no livro do Êxodus (ch. 30, v. 11 à ch. 34, v.35), analisando os preceitos acerca do tabernáculo, do bezerro de ouro e das duas tábuas. Investiga a aliança com Deus, pela via de Ester e as três letras enérgicas. Lembremo-nos que nesta segunda semana da quaresma cristã, Cristo tem seu rosto transconfigurado e, diante de Pedro e Tiago, conversa com Moisés e Elias, no Evangelho de Lucas. Trata-se não apenas da “aliança” entre o Velho e o Novo Testamentos, como também sobre a questão da moralidade que se funda na aliança entre Deus e o homem.
Aprecie:
Après la faute du veau d’or
Ki Tissa: retrouver la grandeur d’Israël (38 mn)
Yoël Benharrouche, Artiste peintre
Sefarim - Jérusalem, février 2009
Clique para ouvir:

postado por Ramiro (28/02/2010)
Fev
27
Cheguelângelo
Categoria: Imagens e charges |
2 Comentários
Fev
25
Sugerimos ao Visitante o site patrocinado pelo Free Tibet, cujo nome é Stop Torture in Tibet.
NÃO VEJA que depoimentos impressionantes, em vídeo, de celebridades como Dominic West, Juliet Stevenson, David Threlfall e Alan Rickman, porque, dada alguma razão por nós desconhecida, não estão no ar… aqui. Visite o site. É estarrecedor; aprenda em LEARN ABOUT TORTURE: A) Electric shocks; B) Suspension in the air; C) Cigarette burns; D) Beatings; E) Rape; F) Attacks by dogs; G) Solitary confinement, segundo informa o Free Tibet.

postado por Ramiro (26/02/2010)
Fev
25
Na Rádio USP, o MADRUGADA USP começa à meia noite.
Você pode adquirir o hábito, se é “notívago contumaz”, de ouvir o programa do Sebastião Marciano. Não se esqueça: aqui. Ou, acesse o site da Rádio USP: www.radio.usp.br AQUI.
Hoje, 25 de fevereiro, mais uma vez, o “irmão” Sebastião ofereceu Raul Seixas e Tim Maia e Simone pra “galera do Blog Filosofix” e, como é amigo, citou meu nome!
Omessa!, diria Ronald Golias.
Obrigado Sebastião!!!
Escreva pra lá - o MADRUGADAUSP e peça também a sua música pelo email: madrugadausp @ gmail.com
postado por Ramiro (25/01/2010)
Fev
25

Reflexões de profundidade:
Reflexões à distância:
Reflexos:
postado por Ramiro (24/02/2010)
Apresentamos uma nova conferência realizada em Paris neste mês de fevereiro de 2010 (2009) e exibida em vídeo no site da AKADEM AQUI, por Michel Revel.
Michel Revel é de Strasbourg, nascido precisamente em 1938. Desenvolveu estudos brilhantes na Université de Strasbourg quando obteve, ainda aos 25 anos de idade, seu doutorado em Medicina e em Biologia. Foi aluno dos professores Mandel e François Gros, no Institut Pasteur. Casou-se em Strasbourg em 1959 com Claire Banner, que também é Doutora em Ciências e, em seguida, mudaram-se para Israel, com seus quatro filhos, sendo que o mais velho é ginecologista; outra filha é diplomata e uma terceira é pediatra. Um dos filhos morreu tragicamente após prestar o serviço militar. O Professor Revel recebeu o Prêmio Israel por grande erudição. Estudou com seu tio André Neher acerca do Yeshiva em Montreux. É especialista em Cabala, ensina-a regularmente, e também Bio-Ética Médica, fazendo palestras por todo o mundo. Representa Israel no Comitê Internacional de Bioética da UNESCO, preside a Comissão Israelense de Biotecnologia, no Ministério da Ciência, e foi eleito membro da Academia de Ciências de Nova York. Michel Revel é o primeiro cidadão judeu da Alsácia a receber o maior prêmio científico oferecido em honra a Israel.
Nesta belíssima conferência, o Professor Revel trata das razões pelas quais foi necessária a construção de um templo para Israel. Aqui, o sentido de Templo toma diversos matizes. No livro do Êxodus (ch. 27, v. 30 à ch. 30, v. 10), o óleo especialmente cultivado para iluminar, está relacionado com as roupas dos sacerdotes. Isto traduz uma bela metáfora, que pode ser encontrada na consagração de Arão e seu filho, duranfe o processo de purificação. Assim, o vestuário vincula-se à unção; daí surgem as oferendas, a investidura sacerdotal, a refeição sagrada e, por fim, um tema complexo: o do Holocausto diário.
Eis o ponto: enganam-se todos quando pensam ter o Holocausto encerrado-se com o nazismo de Hitler. Vale, pois, ouvir.
O título da conferência é:
La consécration d’Aaron et de ses fils
Tetsave: pourquoi un temple au milieu d’Israël (25 mn)
Michel Revel, Professeur de Médecine
Sefarim - Jérusalem, février 2010

Clique abaixo para ouvir:
postado por Ramiro (23/02/2010)
Eis um texto violento. Mas não te assustes, ele o é apenas contra mim.
Agora eu resolvi que é hora de em mim pensar e deixar de lado o pensar em mim.
Há dois eus, em mim. Um deles, aquele que se volta para a dita felicidade; o outro, não sei exatamente o que quer, mas este é o genuíno.
Não vou, aqui, nominá-los. Se o fizesse, reconheceria, de imediato, a existência de um terceiro eu e, quanto a isso, confesso não suportar a sua mera hipótese de existência. Deixe-mo-lo de lado, seja qual lado for.
Quando eu penso em mim - ou melhor, pensava -, era diferente de tudo, ou quase tudo, que há por aí, lá, fora de mim. Isto é: pensar em mim era pensar no outro. Minha realização significava a realidade alheia a mim; anular-me até se fosse o caso, completamente, desde que o outro sobressaísse em toda sua glória e risos e alegrias e esperanças e desejos e vontades e certezas e sonhos e lutas e tudo o mais que possa alguém precisar para ser feliz e, nisso, realizar em mim uma pequena parcela do que eu quis do outro para mim.
Era um achar, inocente, tolo, imaturo, até mesmo inconsequente, de que os querendo, se estivessem felizes ou em vias de serem, pudesse eu tirar disso minha própria fatia de felicidade.
Quando pensava em mim, pois, era quando não pensava em mim.
Não é que eu seja a contradição ambulante; ao contrário, eu sou a ambulância da contradição.
Pode aparecer aqui um interesse escuso, um dar para receber, de mim a mim mesmo, no alívio: fiz algo útil a alguém. Pelo menos isso.
Muitos aí - para não dizer todos, evidentemente -, pensam só em si; um “penso em mim”, honestamente, confessadamente egoísta. Selfish. Errado ou certo, o que importa? São assim. Eu? Eu não era assim; repito, meu “penso em mim” era, honestamente, um penso em ti; não nego, repito novamente, que podia haver um retorno, um isso pequeno de obrigado, um mínimo que fosse, que me desse, assim, o troco de meu esforço.
Ela está feliz? Ótimo! Fico feliz!
Ela está de pé, a cabeça erguida? Graças sejam dadas! Estando bem, fico em paz!
Ela sorriu? Fantástico! Era o que eu queria!
E assim eu ia, buscando para mim, resultados bons (se é que soubesse o que fosse bondade) no outro, nela, na vida.
Eis que comecei a notar pormenores de vida na vida de cada vida exceto em minha vida.
Acontece que me arrebentar todo acostumou meu ser a produzir excelentes resultados para o outro e poucos demais para mim. E até satisfeito andei. Mas, nisso ia que, algumas vezes, movi umas montanhas inteiras, outras tantas vezes mudei cursos de rios lodosos e em umas poucas ocasiões consegui até mesmo fazer parar de chover ou chuvas encantar.
Mas, a troco de que? Pensei… digo, em mim pensei… de um sorriso? Um obrigado? Um abraço apertado? Uma promessa - bom frisar, promessa no sentido de futuro - de amor eterno?
Que nada! A troco de trocos e mais trocos, em moedas, moedas de centavos, foram mais uma provocação, mais uma pequenina e levíssima bofetada, mais um ato de espontânea franqueza contra meu modo, digamos, doce de ser, mas um pedido a mim dirigido de “espera aí”, “me dá um tempo”, “calma”, “você é muito duro”.
Contra um esforço hercúleo, nada melhor que uma uma demonstração hercúlea de pouquíssima coisa.
A melhor forma de agredir a quem quer muito de ti é minimizar-lhe o esforço neste sentido.
Até porque isto te liberta das obrigações. E não há nada pior que dever obrigações a quem te fez crescer, já dizia Thomas Hobbes em algum trecho do capítulo X de Leviatã.
Não é mesmo? Desnecessárias são as ironias!
Outra maneira de dar um troco bem dado contra um benfeitor de araque, também, é empregar-lhe a pecha da presunção.
Como vês, quebro todos os ovos agora, pois nisto vai que o pensar em mim sempre foi um pisar em ovos, no cuidado extremo de não obrigar ninguém a mim; e tanto - presta bem atenção no que digo agora -, e tanto, que incentivei até um certo menosprezo, um certo pouco caso, ao meu próprio agir.
Isso não foi nada! Deixa como está! Segue!, eu costumava dizer, fingindo-me humilde… sendo!
No fundo, quase como um Quasímodo de Notre Dame, implorando, talvez, “um pouco de compaixão”, nada mais.
Lá no fundo, escondido em mim, é certo no entanto, havia um vulcão em erupção, resultante da dimensão do esforço, da renúncia, da batalha travada dentro de mim, que só eu sempre soube.
E queres saber mais? Digo-te! Sabes quem fui? Aquele que, nos limites de minhas possibilidades, pequenas, confesso, mas dentro deles, fui aquele (repito) que dizia:
- Toma!
A troco de que?
Um sorriso, talvez; um abraço? Ou, bem mais ainda, a troco de um gigantesco amor.
Conclusão: agir assim não dá os resultados esperados.
Ser egoísta confesso, seria o caso? Quanto a este modo, recuso-me terminantemente.
Resolvi que, de agora em diante, é hora de em mim pensar; parar com isso de pensar em mim.
Eu vou viver assim. Como uma árvore. Um poste. Uma montanha. Ou um monte de qualquer coisa.
Não quero nada. Nem dar. Nem receber. É o ser pela filosofia do ser sem fim último.
É o não-ser.
Quem sabe, assim, eu descubra em vida o significado da morte certa, quando a ausência nada mais é, naqueles outros, que a vontade que possam sentir de dizer:
- Ah! Se ele estivesse aqui, talvez me estendesse as mãos e fosse um porto seguro nas raras ocasiões em que precisei dele.
Ou nos sonhos que, eventualmente - mas muito eventualmente - tenham tido comigo no papel de Bobo da Corte, de serviçal, de pau para toda obra, de quebra-galhos, de ambulância dos desesperados.
Ambulância dos desesperados!
E eu?
Ah! Eu? Eu que me danasse pelos cantos dos quintos dos infernos?
Hoje sei - contrariando a hipocrisia mais bem dita da história, aquela posta por Descartes -, hoje sei que é errado este “penso, logo existo”. Pois que só existo quando penso no outro, que é sempre um pensar em mim.
Mas, em mim… dentro de mim, em mim pensar é um transformar-me nisto que me tornei: logo, um não existo mais.
Nada contra Descartes, deixo bem claro. Ele parecia ainda iludido, talvez, com isso de querer ser para outrem.
“Penso logo existo”.
Nietzsche, ao contrário, deu-se à tese dos bacanais dionisíacos? Não sei…
Quanto mim, guardando as devidas proporções entre as gigantescas ilusões deles e minha sutil desilusão, é chegada - digo é chagada - a hora do em mim pensar.
Vamos ver como é esse nada do em mim pensar…
No que dará? “Só o deus saberá”, diria outro deles, desses parteiros de seres em busca da felicidade inatingível, o senhor Sócrates.
postado por Ramiro Corrêa (22/02/2010)
Fev
21

E o pão nosso de cada dia?
Não faltará nem para o criminoso, segundo a “Portaria nº 48, de 12/2/2009″, a famosa BOLSA-Bandido, que pode ser encontrada no site da Previdência Social, ou nas “boas casas do ramo”.
postado por Ramiro (21/02/2010)
Fev
21
Assista ao vídeo até o fim…
O consumo desse queijo é permitido aos atletas?
Walace Rodrigues (21-fev-2010)
Bem-vindo ao



















































