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Uma fonte no meio do caminho

Categoria: Crônicas | Comentários ao final (Leave your comments below)

As filhas de Nereu (o velho que vive em cavernas submersas em águas profundas e pode ser visto surfando as maiores ondas do mar), representavam símbolos da natureza. Vê se há algum nome que tu conheças:

Homer, Iliad 18.37

The goddesses gathered about her [Thetis], all who along the depth of the sea were daughters of Nereus. For Glauke was there, Kymodoke and Thaleia (Bloom), Nesaie and Speio and Thoe, and ox-eyed Halia ; Kymothoe was there, Aktaia and Limnoreia (Sea-Marsh), Melite and Iaira, Amphithoe (She who Flows Around) and Agaue, Doto and Proto, Dynamene and Pherousa, Dexamene and Amphinome and Kallianeira; Doris and Panope and glorious Galateia, Nemertes and Apseudes and Kallianassa; Klymene was there, Ianeira and Ianassa, Maira and Orithyia and lovely-haired Amatheia, and the rest who along the depth of the sea were daughters of Nereus. The silvery cave was filled with these.

Este nomes, descritos por Homero em sua magistral obra, Ilíada, afinal são: Glauce, Kymodoke, Thaleia, Nesaie, Speio, Thoe, Halia, Kymothoe, Aktaia, Limnoreia, Melite, Iaira, Amphithoe, Agaue, Doto, Proto, Dynamene, Pherousa, Daxemene, Amphinome, Kallianeira, Doris, Panope, Galateia, Nemertes, Apseudes, Kallianassa, Klymene, Ianassa, Maira, Orinthya, Amatheia e outras (“the rest who along the depth of the sea were daughters of Nereus” – e outras do fundo do mar que eram filhas de Nereu).

Há, também, um Hino Órfico que se refere às Nereidas. Assim:

Orphic Hymn 23 to the Nereids

The Fumigation from Aromatics.

Daughters of Nereus, resident in caves merg’d deep in Ocean, sporting thro’ the waves; Fanatic fifty nymphs [Nymphai Einalioi], who thro’ the main delight to follow in the Triton’s train, Rejoicing close behind their cars to keep; whose forms half wild, are nourish’d by the deep, With other nymphs of different degree leaping and wand’ring thro’ the liquid sea: Bright, wat’ry dolphins, sonorous and gay, well pleas’d to sport with bachanalian play; Nymphs beauteous-ey’d, whom sacrifice delights, send rich abundance on our mystic rites; For you at first disclos’d the rites divine, of holy Bacchus [Bakkhos] and of Proserpine [Phersephoneia], Of fair Calliope from whom I spring, and of Apollo bright, the Muse’s king.

Fonte: Leia mais em Theoi.com: THE ORPHIC HYMNS 1 – 40 (aqui).

As Nereidas, segundo este Hino, representam Fumigation from Aromatics: os aromas que surgem da fumigação, ou da fumaça (vapor) para desinfecção.

As filhas de Nereu são Cinquenta Ninfas Fanáticas, cujo prazer principal é o de seguir o carro de Trítono, para protegê-lo. São escolhidas para espargir aromas de purificação de ambientes, segundo as vontades de cada pessoa (ou grupo de pessoas) e nisso é preciso cautela – presta bem atenção:

- pode ser que os aromas sejam para bacanais (“Bright, wat’ry dolphins, sonorous and gay, well pleas’d to sport with bachanalian play”);

- pode ser que sejam ritos divinos (“whom sacrifice delights, send rich abundance on our mystic rites”), em honra de Baco (o deus dos prazeres sem fim) ou de Perséfone (a senhora da Mansão dos Mortos); e…

- pode ser que seja pela Justa Calíope por quem me inclino (“Of fair Calliope from whom I spring, and of Apollo bright, the Muse’s king.”), e que se ocupa de Apolo (o deus da música e das Musas).

Além de Calíope, contudo, há outra ninfa por quem me inclino também: Pânope.

Havia, do lado externo dos muros de Atenas, um caminho que conduzia da Academia para o Liceu: – “by the road outside the town wall”, ou como no texto original de Platão, a trilha servia de elo entre a Academia e o Liceu: eporeuomên men ex Akadêmeias euthu Lukeiou.

Em outras palavras, havia, do lado externo dos muros de Atenas, uma fonte num caminho. Ponto final.

Esta estradinha ligava a Escola de Platão (a Academia) à Escola de Aristóteles (o Liceu); mas, bem antes de a Academia ter sido a Escola de Platão e de o Liceu ter sido a Escola de Aristóteles, aquele caminho exterior conduzia pessoas da Academia para o Liceu, ou se preferirmos de A para B; e, no meio do caminho, havia uma fonte.

Por ali alguém gostava – e muito – de andar, por aquela trilha, e parar naquela fonte para vislumbrar o mar; ninguém menos que Sócrates.

Contudo, vê no diálogo Lísis (203-b e anteriores), quando, certa vez, um conhecido disse a Sócrates:

Platão, Lísis (203-b)

Hipótales: – Vem mas é para aqui, diretamente para junto de nós! Não queres mudar de direção? Olha que vale a pena! (“Come over here, he said, straight to us. You will not put in here? But you may as well”).


Contar-te-ei algo de mim, Navegante: sempre me perguntei sobre tais pessoas, digamos assim, escondidas dentro de nós mesmos:

- Primeira pessoa, quem é aquele que diz, no verso do Hino Órfico 23 às Nereidas, o seguinte: “Of fair Calliope from whom I spring”?

- Segunda pessoa, quem é aquele que diz, no diálogo Lisis, de Platão (203-b), o seguinte: “Para onde queres dizer?, eu perguntei; e o que é tua companhia?” (“Where do you mean? I asked; and what is your company?”). Quero dizer: Platão escreveu na primeira pessoa do singular, como se fosse ele o próprio Sócrates; ou, em outras palavras, que pessoa é esta que diz: Sócrates, Platão ou a curiosidade irresistível?

- Terceira pessoa, quem é aquele que diz, ainda no Lisis, o seguinte: “Vem mas é para aqui, diretamente para junto de nós! Não queres mudar de direção? Olha que vale a pena!”?

Observa bem, Navegante: um pobre coitado, um sujeito feio de rosto como a necessidade é feia de possessividade (eu sou, guardadas as devidas proporções, algo assim como Sócrates – perdoa minha petulância), calado e pensativo, tira para si um tempo sem limite para caminhar de um lugar a outro, vira e mexe e estanca diante de uma fonte para observar o mar à sua frente, lá com seus botões, absorvido em seus próprios pensamentos, quando surgem duas tentações:

- de um lado, Pânope convidando-o a ver o panorama do mar;

- de outro lado, alguém convidando-o a “mudar de direção”, porque pode “valer a pena”! Mas, que pena?

Outro dia, encontrei um amigo em profunda depressão, em fim de vida (segundo ele), repleto de ressentimentos e tristezas; e fiz-lhe um convite:

- Olha, eu tenho um livro que explica sobre uma fonte, de uma deusa grega. Tem uma foto da fonte. Quer ver?

- P’ra que?, ele perguntou-me.

Eu até podeira postar, aqui, uma imagem de Pânope, para ti Navegante. Mas sei que tu hás de, por curiosidade, pesquisar na WEB sobre imagens de Panopae. Por favor, não te assustes com o que descobrirás; talvez encontres muitas, muitas, ironias nisso tudo. Mas, pensa bem no que de fato significa uma fonte com vista para o mar. Vai lá: pesquisa imagens de Panopae, de modo geral, e encontra tal estranho ser vivente no mar.

Sei dizer que disse ao amigo:

- Bom: acho que podes encontrar um novo sentido para a vida, talvez até mesmo um pouco de alegria! Não queres mudar de direção? Olha que vale a pena! Experimenta olhar o mar! Experimenta encontrar algum sentido na vida para além daquelas praias!, e repeti: – Olha que vale a pena!

Tu sabes o que meu amigo respondeu? Algo assim:

- Que nada! Bom era quando eu torrava dinheiro em shopping center, com mulheres aos milhares, ou quando podia ir p’ra farra e tinha energia! Todo mundo é assim! Isso é bobagem: o fim da vida é uma merda!

Foi então que me calei, me levantei e… me mandei… e continuo me mandando (em duplo sentido).

De todo modo, cada um escolhe a Nereida que melhor lhe caiba. Eu, em meu caso, escolhi Calíope e Pânope por culpa de um outro poeta – para além de Rabindranath Tagore, a quem dedico meu mais profundo respeito. Houve um tempo em que eu me colocava do lado de quem fazia perguntas a este poeta, o senhor Chao Yong, e que, apesar disto, nunca entendia suas respostas; mas, hoje em dia, graças aos aromas aspergidos em mim por Calíope e Pânope, eu bem entendo o que Chao Yong quis dizer com o gesto de apontar o dedo para Lua e sorrir enigmaticamente.

Não custa nada repetir o poema que eu já havia publicado antes aqui no Filosofix, para fazer-te o mesmo convite que fiz ao tal amigo:

Ho Yen Mong, O Doutor do Prazer Tranqüilo. 1362-1430 1


Quero fixar, neste meu verso,
o nome ilustre de Chao Yong,
a fim de que em todo o Universo
a sua glória se prolongue.


Era um filósofo tranqüilo
que a cada jovem sonhador
mandava versos de alto estilo
e de finíssimo lavor.




Eis a receita que ele dava
aos iludidos corações
aos quais o amor atormentava:
Plantar petúnias aos milhões…


Falava pouco: comumente,
com um gesto apenas respondia,
mostrando a lua opalescente
ou um róseo lótus… E sorria…

Não queres mudar de direção, tu também, Navegante?

postado por Ramiro Corrêa (18/01/2015)

  1. in: Cem Poemas Chineses. Tradução de Hugo de Castro. SP: Vertente Editora, 1978, p. 48. []

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