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A vergonha que passei, as cinco milhões de visitas ao Filosofix e uma lição em Bengali

Categoria: Crônicas | Comentários ao final (Leave your comments below)

Neste sábado, por volta de meio-dia, fui ao clube de campo. Sentei-me numa cadeira que havia, de oito dessas de plástico branco, de frente para uma quadra de tênis. Eu não tinha nenhum parceiro para jogar comigo; minha filha não veio passar o fim de semana em casa; sua mãe esteve por esta quadra às seis e meia da manhã, numa aula-treino com amigas; e eu, por fim, estaria melhor ali, sozinho comigo mesmo e meus livros.

Sentei-me para pensar em cinco milhões de visitas a este blog. Em minhas visitas.

Cinco Milhões de Visitas at Blog Filosofix

Mas eis que um funcionário do clube chegou para esparramar areia no saibro e preparar a quadra; seis sacos de terra; atirados com pá para todos os cantos; arrastados por uma enorme vassoura; depois, limpou as linhas brancas cuidadosamente; demorou em torno de quinze a vinte minutos; calado; por fim, perguntou-me:

- Que você acha, Ramiro? Ficou bom?

- Excelente!, eu exclamei. Bom trabalho; ficou muito bom mesmo!

- Você não vai jogar?, ele perguntou-me.

- Não! Já nadei, hoje; já fiz minha cota de sacrifícios por hoje para o meu corpo.

Continuei a observar o trabalho daquele senhor. Ele guardou as vassouras, colocou os sacos vazios de areia sobre um carrinho de mão, fechou o portão da quadra, levemente, e, para minha surpresa, saiu a catar copos de plástico para água jogados ao chão; dentro da quadra, contamos pelo menos quatro deles, inclusive um fixado e amassado entre a tela de fundo; fora da quadra haviam pelo menos quinze copos atirados nos cantos. O homem catou um a um e os levou até uma lata de lixo bem ali perto.

Disse-lhe:

- Que pena, não? Não custava nada que as pessoas, ao usarem os copos, os jogassem na lata de lixo!

- Pois é!, ele comentou. E você sabe de uma coisa? Eu já pedi, educadamente, para muitas pessoas que não jogassem os copos no chão. Sabe que eu ouvi, de mais de meia dúzia delas? – Você é pago para limpar!

- Você está brincando comigo! Sério? Tem gente que diz uma coisa dessas para você?, comentei.

- Eu fico é calado e não respondo, ele respondeu. Mas, quem sabe se lá na frente, um dia, alguém não vai dizer o mesmo p’ra eles?

Ele foi-se embora, humilde e dedicado. Senti um certo orgulho de mim mesmo por poder ser tratado com uma certa amizade em relação a ele e ainda tive tempo de dizer-lhe:

- Obrigado! Bom fim de semana!

- P’ra você também! Fique com Deus!, respondeu-me.

Então, dei-me conta de que aquela conversa não precisava ter acontecido. Senti imensa vergonha de mim mesmo. Eu bem poderia, quando cheguei, ter, eu mesmo, catado o lixo do chão, não só em torno da quadra de tênis mas também dentro dela. Eu teria evitado, assim, duas coisas: primeira, que um homem se sentisse obrigado, “porque é pago para isso” segundo alguns, a limpar com seu suor a má educação dos demais; segunda, que eu me sentisse obrigado, ainda que não seja pago para isso segundo eu próprio, a limpar com meu fervor a má educação dos demais.

Que vergonha, senti de mim!

Dei as costas para a quadra limpa e virei a cadeira, sentado agora de frente para o lago. Pensei longamente nestes tipos de amigos, naqueles outros que nos tratam como lixos e em minhas conversas com o Lobo Descalço.

O Lobo Descanlço at Blog Filosofix

(O Lobo Descalço em sua primeira aparição no Blog Filosofix)
 

Tomei meus livros de Bangla – um sobre Bengali para iniciantes, um dicionário e outro de ortografia e alfabeto Bengali – e retomei meus estudos, mas não consegui ir adiante. Pois há uma lição ali sobre a qual tenho me recusado a dar como entendida, enquanto não a digerir adequadamente.

Em Bengali, descobri, não existe um pronome que permita diferenciar o masculino do feminino, na terceira pessoa, como no Inglês o He e o She, ou no Português o Ele e o Ela. Mas não é só: na terceira pessoa, quando se usa um pronome, o idioma Bengali faz questão de identificar o espaço: eu posso dizer da terceira pessoa que ela está aqui (here), lá (there) ou em qualquer lugar (elsewhere). Em Bangla há esta preocupação em relação ao espaço, aqui, ali ou em qualquer lugar, quando se tratam de pronomes; mas não há intenção de mostrar as relações no tempo: há um pronome para ele aqui, outro para ele lá e um terceiro para ele em qualquer lugar, lembrando que não há distinção entre o gênero.

Além disto, há outra ideia mais bela ainda, sobre os pronomes em Bengali: há aqueles que são usados no sentido polido e aqueles que são usados no sentido familiar. Por exemplo, o pronome reto da segunda pessoa do singular, Apni, corresponde ao pronome Teu (You) no modo polido (polite) e o mesmo pronome, Tumi, corresponde ao pronome Teu (You) no modo familiar, íntimo. E nas terceiras pessoas, tanto do singular quanto do plural, há, portanto, seis modos de se usar os pronomes retos: polidos ou familiares, para aqui, lá ou em qualquer lugar… e nunca a identificar o gênero, na longa escala que viaja, de um lado, do feminino, ao outro extremo que seria o masculino.

Decidi, quando estava prestes a retornar à minha casa, que apenas usarei os pronomes da terceira pessoa, em Bengali, referindo-me a Ele ou Ela, de modo polido e aplicável para “qualquer lugar” e nunca, nunca, aplicáveis para “aqui” ou “lá”.

Foi decisão minha, hoje, de que, quando eu vier a falar o Bengali – e isto não está distante – o suficiente para ler pelas ruas de Kolkata ou orar sobre as águas do Ganga, eu o farei apenas nesta condição: procurando os modos polido em qualquer lugar.

Até que minha alma aprenda Bengali o suficiente – repito, até que minha alma esteja autorizada – a usar os pronomes, na terceira pessoa, sempre dirigindo-me a alguém de modo familiar e para a relação aqui, e não lá ou em qualquer lugar. Somente quando eu for capaz de tratar a mim mesmo como um outro – como eu deveria ter feito a ajudar aquele senhor que limpou a quadra de tênis e catou os copos para o lixo -, ou de tratar o outro como a mim mesmo, eu usarei os pronomes da terceira pessoa, assim:

De: Tini (singular) e Tenada (plural) – o modo polido para uma pessoa, em qualquer lugar.

Até que um dia eu possa ser assim:

Para: E (singular) e Era (plural) – o modo familiar para qualquer pessoa, em um lugar: aqui em mim.

Por fim, fiz minha oração do dia, aquela que o Divino Mestre nos ensinou: “Pai Nosso [...] livrai-nos do mal”, para pedir-Lhe desculpas por minha vergonha.

- Ami chhAtro (eu – sou apenas um – estudante).

Isto já sei dizer em Bengali! Nesta Bendita Bengali!

Cinco Milhões de Visitas at Blog Filosofix

postado por Ramiro Corrêa (21/02/2015)

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