Estilo do Blog: [ Astex ] [ Stone ] [ Green ] |  Bode de Ouro AQUI | Seguidores do Facebook: AQUI
The Filosofix Introduction Page   RSS   Facebook Filosofix   Twitter   Visualizar perfil de Ramiro Corrêa Jr no LinkedIn
Consultório Online de Psicanálise
(visite meu Consultório Online de Psicanálise - clique no logo acima)
(por falta de suporte AdobeFlash Player para algum iPad ou similar, algo pode não ser visto no blog)




Cinco Milhões de Visitas ao Filosofix: a fábula do Lobo Descalço

Categoria: Fábulas do Lobo de Três Pernas | Comentários ao final (Leave your comments below)

Parece que há um aparente paradoxo aqui:

- de um lado,

Cinco Milhões de Visitas ao Blog Filosofix

Cinco Milhões de Visitas at Blog Filosofix

- de outro lado,

Cinco Milhões de Mundos que ainda não visitei.

Cinco Milhões de Visitas at Blog Filosofix

O que toda essa gente faz aqui em meu blog, com tanta coisa a fazer nesses mundos? Já não basta?

No entanto, esta mesma pergunta o mundo me faz: já não basta?

Acho que de viver assim, de cultura em cultura, abdiquei de ser perito numa delas e minhas visitas de mim. Entre Grécia, Egito, Tibet, Roma, Jerusalém, até mesmo o Brasil. Já não basta? Agora, encontrei um caminho para a Índia, onde minha cinza há de se esparramar, nas águas do Ganga; mas não haverá tempo suficiente para conhecer Kolkata, Shimla, Kashmir, Agra, Bolpur, Amritsar, Delhi, e tantas outras preciosidades. E ainda não me bastam.

Mas, Cinco Milhões de Visitas ao Filosofix? Isso é demais! Já não basta?

Outro dia, tive uma conversa com um dos que vivem por aí, o Lobo Descalço, mas o quê você quer de mim?, indaguei ao danado, já não basta? O terrível retornou-me a mesma a questão: – Já não basta?

A visita que lhe fiz foi a primeira e a última, no topo de uma montanha coberta de neve, onde fizemos uma fogueira de madeira nobre, em que ele vive; viajei mais de vinte fusos horários no rumo do Sol que nasce, só para lhe perguntar: – já não basta?

Eu soube da existência desta criatura estranhíssima, o Descalço, pela boca de outro maldito terrível desgraçado, caçador de político corrupto saqueador de empresas de petróleo nacionais da América do Sul, o mais que infernal Lobo de Três Pernas, segundo o qual este tal novo famigerado lobo dos infernos viria ao mundo após a morte de meu amigo inesquecível. O de Três Pernas explicou-me que eu estivesse preparado, após sua morte, para mudanças em mim mesmo, que o novo era de urinar de modo diferente. Quando disse-me isto, não entendi o significado e fiquei de pensar; contou-me, ainda mais, que o outro não era de destroçar facínoras corruptos, mas sim que me perseguiria até o fim de meus tempos, a mim próprio!

Nosso encontro ocorreu há pouco tempo. Fui até lá. Sentamo-nos em torno de uma fogueira, no topo de uma montanha e numa noite de silêncio ensurdecedor, lotada de estrelas e Luas cheias.

O Lobo Descalço at Blog Filosofix

Aos especialistas em continuidade, para não causar estranheza, devo esclarecer que eu próprio construí a fogueira e o Lobo Descalço lhe atiçou fogo no pau. Na verdade, lá cheguei por volta do entardecer e fui bem recebido pelo carnívoro; não trocamos nenhuma palavra, no começo do encontro; apenas olhares e já sabíamos quem éramos, um em relação ao outro; com os olhos ele mandou-me sentar e, obviamente, não o obedeci; prevendo a friagem que viria, tratei de juntar uns pedaços de madeira espalhada e montei o monte; o dito cujo não moveu uma palha neste sentido; mas quando tudo estava pronto e a noite já era escura como breu – pois devo dizer que a primeira Lua somente apareceu lá pelas dez e a segunda surgiu uma hora depois, espelhada nas águas de um lago de céu aberto -, e o frio já se apresentava com algum orvalho estranho – mas de gelar até ossos de almas, se é que há almas em ossos -, o bicho espetacular, Lobo de Todos os Lobos, Descalço, fez sua primeira demonstração de poder demoníaco, talvez para intimidar-me, não sei ao certo, e olhou para o céu escuríssimo noturno sem ainda luar mas estrelado, nenhuma nuvem lá no alto, só vento a soprar fantasma e terrivelmente – uuuuuuuuuu uuuuuuuuuuuuu. E não foi que o maldito deu um uivo tão forte que eu caí para trás quase borrando as calças de medo?

- Auuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu…

E a resposta que ouvi, bem mais assustadora que todas as demais já escutadas por mim, veio de onde podia menos esperar e foi assim:

- Cabruuuuuuuuummmmmmmmmmm…

Desceu dos altos um raio trovejante filho de uma égua, escataplum, cabrum, e uma faísca caiu bem em cima do monte de lenha que nós havíamos acabado de juntar – nós, quero dizer, eu e minha alma – e, assim:

- Fiat Lux!

Acendeu-se a fogueira!

Num gesto cínico e arriscado, provoquei o carniceiro descalço, tirando de meu bolso da jaqueta um simples isqueiro e acendi dois ou três gravetos, jogando-os na pira, para mostrar ao Lobo dos Infernos que eu também era capaz de fazer fogo e sem tamanho estardalhaço como o dele; fiz isto como quem diz, p’ra quê essa demonstração de poder abestalhado se bastava meu isqueiro de acender pito e fogo? Mas como o Descalço, parece, não fuma e devolveu-me um olhar desafiador, tanto que preferi desviar a atenção e ameacei acender um pito de palha, não com meu isqueiro mas com um pedaço de lenha chamuscada de trovão. O bicho, para desafiar-me ainda mais e não deixar passar em branco meu desaforo, pegou com a bocarra um graveto em brasa e ofereceu-me, como quem diz, estando aqui faça do meu jeito ou comporte-se como hóspede!

Então, para os especialistas na arte de encontrar contradições ou paradoxos, fica explicado como a fogueira foi acesa e meus cigarros, para que não haja dúvidas!

Gastamos algum tempo observando um ao outro um pouco mais; e a natureza à nossa volta, até as Luas brotarem. Convém notar, todavia, nesta profunda observação que nos fizemos, que houve uma tensão entre psychê e soma. Olhando para ele, o Lobo Descalço, percebi uma como que presença psíquica mediatizada pela presença somática, de onde se estabelecia, entre ele e o mundo, o caráter egocêntrico do cósmos interior do psiquismo sempre superado por uma forma superior de objetividade noética e espiritual. Mas, entre nós, estava claro que havia um certo eidos de psiquismo a definir a posição mediadora entre nossas presenças imediatas, ali naquele mundo em torno da fogueira que nos sentamos e nos observamos, onde nossos próprios corpos e nossa interioridade absoluta estavam pelo espírito – mais dele que minha. Após algum tempo, era evidente – pelo menos eu percebi – que o psíquico desse famigerado Lobo Descalço está organizado segundo um espaço-tempo não coincidente com o tempo físico-biológico, mas ao seu próprio ritmo de vida psíquica que deságua em percepções, memórias, representações, e tudo o mais, desde emoções até pulsões, talvez dissesse se o analisasse o Padre Vaz seguramente.

Ser estranho de se entender. Como eu, aliás.

O famigerado tem um olhar que, mesmo eu acostumado ao do Lobo de Três Pernas, arrepia os cabelos; eles olham sem olhar, seus olhos; fixos nos meus, pareciam radar e, ao mesmo tempo, máquina de decomposição de cores, espectrômetro de minha áurea e nela todas as sensações emanadas de uma alma que não tem como enganar, mentir ou desviar intenções. Para igualar-me no olhar, fiz questão de mostrar-lhe, bem abertos, meus olhos verdes e frios incapazes de mais amar, gélidos, insensíveis, impassíveis e, no entanto, profundamente tranquilos. Não adiantou, que os deles eram verdes mais escuros que os meus e fizeram-me pensar, mas lobo de olho verde?

Entre os olhos, na testa, parece que foi feita uma marca dessas marcas que se fazem em gado, num sinal circular, uma cruz ao centro e as letras AM nos primeiro e segundo quadrantes, que vim a calcular ser signo do mestre de Tomás de Aquino, frei Alberto Magno que praticava magias com pelos de sobrancelhas de lobos. Para não inferiorizar-me diante do portento, passei levemente minha mão sobre aquela marca que tenho na testa, fruto de uma cirurgia mística que devassa a glândula pineal, cujo nome técnico parece ser pituitária, como as usam os gurus daquelas terras; se o Descalço tem marca ali, ora bolas, eu também a tenho!

Esbranquiçados como fantasmas, são seus pelos; disso ele os usa para ser imune ao frio nas regiões gélidas e, incrivelmente, indiferente ao calor das regiões tórridas; mas de uma umidade estranha, tanto que ao lhe tocar o dorso, quando me deu o graveto de acender pito, senti um tremor terrível pelo corpo afora como se um choque elétrico passasse de minhas mãos ao lobo frontal, desse ao parietal e desse percorresse meus nervos até os meus pelos mais vergonhosos. Claro que cocei minha barba várias vezes, para dizer-lhe que meus cabelos brancos também mostram que sou um fantasma humano de algum modo. Se não, como igualar-me?

De suas babas não escorrem mandíbulas, mas uma neblina enfumaçada gélida cujo hálito mistura odores de lótus branco, rosa musgosa da Índia, almíscar selvagem, seiva de alfazema e sangue vivo. Sangue vivo. Por isto, para não diminuir-me diante daquilo, baforei o bafo do cigarro no rumo dele; mas também não adiantou porque ele parece não respirar de modo vivo.

O Lobo Descalço at Blog Filosofix

Abriu a boca para um bocejo e vi quatro caninos enormes e maiores que os de tigres, talvez do tamanho dos de hipopótamos. Não sei se hipopótamos têm caninos, mas presas com certeza, e tão grossas que cheguei mesmo a mover minha cabeça de lado a lado na tentativa de localizar onde aqueles dentes destroçadores se encaixavam lá naquela boca amedrontadora, porque espaço, com certeza, não há, e se houvesse era porque ele metia as presas entre as próprias gengivas. Em troca, para não humilhar-me, também abri minha boca e escancarei a mandíbula, como se fosse meu jeito de bocejar; de onde tenho certeza que ele viu que não tenho mais caninos superiores e sim uma dentadura que escorrega do palato como se fosse parte daquelas caveiras shakespereanas de assustar joãozinhos e marias, onde vivem corvos de feiticeiros dentro delas, naqueles castelos medievais; também fiz questão de mostrar, além de sete ou oito cáries abertas na mandíbula inferior, dentes naturais, porque não tive tempo e dinheiro para pagar dentista e limpá-las e curá-las e meter-lhes um pouco de guta-percha rosada que evita putrefação por bactérias bucais e que, na falta de dinheiro, tenho usado chicletes de hortelã. De mais a mais, quanto a isto de olharmos as bocas destruidoras de cada um nós, infelizmente não sei dizer-lhe, Navegante, quem mais se assustou: se o Descalço de mim, ou se eu do Descalço.

Contei nele quatro pernas, ainda na esperança de que houvesse apenas um conjunto de três, como era o caso de meu velho amigo o Lobo de Três Pernas que já se foi; mas não vi quatro patas nas pernas, nem três, nem duas e muito menos uma, que elas eram invisíveis, ou melhor, deviam estar camufladas por algum tipo de mistério até então desconhecido por mim e por toda a ciência do século XXI. Ele parece que não anda, mas levita; e quando levita, parece que voa, mas não corre; dá a impressão de ter um campo magnético sob os pés, de tal modo que o bicho não consegue pisar no chão mesmo que queira; e isto desafia as leis da Física, pois não seria possível o movimento de corrida sem a aplicação de uma força a um corpo outro, do mesmo modo que eu não posso segurar no colarinho de minha camisa e levantar-me do chão puxando a mim mesmo. Mas o Descalço era capaz de correr aplicando uma força estranha em seus pés que não tocavam o solo, como eu disse, como se levitasse no nada magnético somático de si mesmo ou no peso psíquico de sua alma assombrosamente assombrada. Se ele tem pernas e patas assim, no entanto, quis mostrar-lhe as minhas três; isto é, duas grossas e ainda fortes e uma terceira, de bengala, digo, Bengala!

Quanto ao seu tamanho, ou porte físico, era o dobro do de o Lobo de Três Pernas e, portanto, de assustar quem nunca se assustou, como foi o meu caso; mas mantive-me desassustado para não dar vantagem a bicho nenhum nem a ele. Como notei que ele não se assustaria comigo, a não ser talvez pela minha coragem de ali estar, ficamos empatados.

Diante desse porte, que nem o cão Cérbero dos infernos do deus Hades pode dar conta, só resta a um humano, nem correr, nem estremecer, nem estancar abestalhado, senão pensar uma só palavra, admirado, que escapou pela telepatia afora até à alma do desgraçado:

- Deus!

Ele sorriu e respondeu-me na mesma medida:

- Deus!

- O quê?, perguntei-lhe.

- Você também impressionou-me, disse o Descalço, porque não era de ser um humano semelhante a mim.

Foi de pensar nessa expressão, o que ambos quiseram dizer. Se pelo menos nós dois éramos equivalentes em alguma medida, fiquei um pouco mais tranquilo e, pelo jeito, o Lobo também.

Creio que Sócrates e Platão teriam se interessado pelo desenrolar da conversa que viria dali em diante, da qual conto apenas o que pode ser revelado.

Cinco Milhões de Visitas at Blog Filosofix

Mas pode ser que eles estejam encarnados nalguns leitores por este mundo afora, venham dar aqui no Filosofix para relembrar a teoria platônica das reminiscências, quem foram em dias passados, restando saber quem deles foi o lobo e o outro o humano. Por outro lado, pode ser que alguma pessoa que tenha vivido à espera desse evento, também se interesse pelo diálogo, mas acho que de nada adiantará ler o que se seguirá, a não ser que aguarde meu próximo livro de filosofia para crianças de todos os tempos e o poeta Robindro, que é assim que se fala.

Deitei-me definitivamente diante da fogueira, agora com frio vindo da noite e fora do medo; esfreguei minhas mãos e perguntei-lhe:

- Não tem aí um cafezinho de esquentar peito?, e tirei do bolso da jaqueta outro pito de palha para aconchegar minhas ancas numa pedra assim ao lado.

Como todos sabem que lobos não sabem coar café, eu próprio levantei-me, fui ao córrego ali ao lado, peguei um pouco de água num cantil, retornei e pendurei-o nuns gravetos sobre a fogueira; passei um café, de um punhado de pó que trazia na capanga, bem forte e cheiroso, despejando água quente pelo cano de minha meia tirada de dentro da bota – que depois guardei o pó para uma segunda coada, calcei a meia ainda quente que me aqueceu o pé novamente ainda melhor; o café passado caiu num prato de alumínio que tirei da mochila e servi a bebida quente com um torrão de rapadura lá dentro do mesmo, ao Descalço que o lambeu tranquilamente, deixando uma outra quantidade a mim que sorvi, como se fosse um lobo do prato mesmo, um ou três goles; acendi meu pito de palha elegantemente com um toco em brasa, esticado com as pernas cruzadas para a frente, um pé de bota e outro de meia-coador; dei uma baforada gostosa e perguntei ao monstro dos infernos malditos, sem a menor cerimônia:

- Meu amigo já morto e que hoje mora com meus pais naquela estrela lá, olhe bem em Alfa do Centauro, o Lobo de Três Pernas, disse-me que você não mija nos cantos para avisar aos bichos que essa ou aquela área é sua. Isso é verdade?

Ele respondeu-me, como um espartano:

- É!

Levei um susto com a resposta, do eco que se produziu entre as rochas do lugar, no tom de voz baixo baixíssimo que nem as sinfonias de Beethoven conseguiram reproduzir; e ele emendou, como um ateniense:

- Bicho que urina para marcar terreno é bicho-alfa desses que acham que mandam em alguma coisa; bicho que é bicho mesmo não precisa mijar e ser Alfa, Beta ou Oméga, completou no tom mais irônico.

Continuei:

- O que aconteceu para ganhar nome de Descalço?, continuei sem medo algum. Devido às suas patas invisíveis desaparecidas que não marcam rastros, que caçam mas não deixam ser caçadas?

Ele disse-me assim:

- Devo dar-lhe um aviso, meu caro, seríssimo…

Cinco Milhões de Visitas at Blog Filosofix

Sua voz era terrível. Fui testemunha dos uivos aterrorizantes dados pelo Lobo de Três Pernas, que não havia criatura sobre a face da Terra que não se borrasse diante daquilo; mas a deste aqui, do Descalço, nem tentarei narrar porque ultrapassa qualquer descrição.

Aliás, nós estávamos sentados, como disse, conversando por via de ondas cerebrais, como o monge Lobsang Rampa fazia com seu gato, contado em um de seus livros. Porque, apesar disto aqui ser uma fábula e nas fábulas os bichos falarem, esta é uma onde os bichos usam telepatia, o que é muito mais provável: ele e eu. Este é o problema: o uivo dele, deste desgraçado filho da mãe, não é uivo de se ouvir nos ouvidos, mas é terrível para a mente, porque é Uivo Telepático! Já minha voz, quando digo de dentro para dentro e não de dentro para fora, é tão lancinante que as mulheres mais desavisadas pensam que podem e os homens menos avisados pensam que não podem.

Esses, sim, são berros dos infernos!

E ele anda, o Lobo Descalço, mas não neste mundo e sim no das almas. Por isso é descalço e não deixa rastro para farejadores. Logo, não precisa urinar para marcar território!

Foi então que entendi aquilo de antes não me passar pelas cabeças: que ele urina por urinar.

Nessa altura da leitura, é bem possível que você aí do outro lado tenha aberto um sorriso incrédulo e cético, porque haveria de pensar que este é apenas um conto imaginativo e ficcional, já que tem dessa coisa improvável de telepatia, ainda mais entre um lobo e um humano, e mais de uma imbecilidade à toda prova. Mas, francamente, esperamos que entenda o significado deste urinar, para o Lobo Descalço e para mim:

- Não estamos mais demarcando território, como se costuma fazer; ao contrário, estamos desmarcando seus territórios.

Em nós!

O Lobo Descalço entendia que só se pode ser si mesmo como um outro se antes for si mesmo como si mesmo.

Este é o segredo dele: não demarca; desmarca por onde passou e só urina para aliviar o que foi marcado!

Vale a pena repetir para ser lido sem telepatias com todo cuidado: só urina para aliviar o que foi marcado!

Quem é cheirador de urina, seguidor de pegadas, rastreador de faros e narizes, quando sente esse cheiro em Lobo desse porte – e até em poucos humanos – não pensa, essa terra é do Danado; ao contrário, pensa assim, esse território foi dele porque passou por aqui mas mijou avisando que já não é mais e o problema agora é:

- Qual será o novo território do Lobo Descalço? Deus do Céu! Se ele passou e avisou que aqui já não é mais, onde será que será?

Pior, pode ser que, desmarcando, ele ainda esteja por aí! Ah, Lobo Descalço Desgraçado!

Eu até perguntei, numa breve recaída, ao Lobo Descalço:

- Meu caro, mas sinto que seu pelo fede à urina e isso é muito desagradável!

O Descalço, com um sorriso desafiador, respondeu-me que urinava em si mesmo, também em si mesmo!, com o propósito de desmarcar seu próprio corpo da propriedade de si mesmo!

- Deus!, exclamei novamente.

Ele disse-me que, assim, podia seguir pela vida desmarcando-se do território de si mesmo, na conquista de si mesmo em território estranho, até que se enchesse de ser si mesmo e, urinando novamente em si, pudesse desmarcar-se daquela porção do si-mesmo que lhe incomodasse para, logo adiante, revisar a si mesmo no rumo de uma insondável e longínqua meta de si-próprio.

Achei que tais palavras (telepáticas) ditas a mim eram de uma grandeza sem par raso; e que ficariam belas, mesmo nas penas de intelectuais que teriam tido o cuidado de substituir o efeito do fel por algum tipo essência perfumada ou incenso em benzedura aos moldes dos que eram espargidos pelas Nereidas, divindades gregas antigas filhas de Nereu, como Pânope e outras tantas.

Mas, se observarmos bem, é bem possível que haja santidade na urina também, pois se não fosse assim os bebês não ensopavam suas fraldas por pura alegria e as cadelas não empoçavam o chão quando felizes demais pelos carinhos dos amigos humanos: a minha cachorra, por exemplo, não aceita demonstrações de afeto intenso sem uma bela urinada no chão, de tamanha emoção; e, com isto, desmarca seu próprio território… assim como o Lobo Descalço gosta de fazer.

Alguns psicopatas haverão de extrair daí conclusões errôneas, para a estapafúrdia ideia de que devem todos, a partir de agora e a seguir o exemplo do Lobo Descalço, urinar uns nos outros, numa esquizofrenia mundial.

Satisfeito com a resposta que me deu sobre seu cheiro de pelo, fiz-lhe outra ainda mais sutil:

- Diga-me lá, meu caro: que história é essa de ser Lobo Descalço? De onde vem o Descalço?

Nós aprendemos rapidamente um com o outro, de conversas que nos demos desse modo. Pode ser, por isto, que o leitor desagrade dos palavrões como urina, fel, mijo, político corrupto, mensalão, lava-jato, e tudo o mais que cause estranheza e nojo nesta fábula; de sorte que, tanto o Lobo quanto eu, ficamos um pouco preocupados com a mensagem que daríamos ao Navegante do blog, se empregássemos os termos com os quais nos conhecemos, num primeiro momento. Ainda mais em conversa telepática!

E ele ainda tinha o péssimo hábito de, com uma das patas traseiras, coçar seu pelo muito peludo para matar uma ou outra pulga ou piolho que lhe incomodava; assim como coço as minhas partes pudendas debaixo da calça, o que também é hábito ruim já que não uso, de maneira nenhuma, cuecas. Coisas assim, para além de urinar em si mesmo, devem ser extremamente desagradáveis…

Perguntei-lhe, como disse, de onde vinha o sobrenome Descalço, no lugar de Urinado. A resposta foi a seguinte:

- Bem… como um lobo, eu não deveria dar-lhe explicações humanas, mas a ordem que me foi dada é a de lhe assombrar até que um dia aprenda a desurinar, a desmarcar os territórios que lhe marcaram um dia!

E completou sem nenhuma parcimônia:

- Nisso serei seu pior pesadelo!

Meu pior pesadelo! Desmarcar territórios em mim! Mas fiz-lhe ainda uma penúltima pergunta:

- E daqueles que eu, infelizmente, marquei naqueles e naquelas?

- Que aprendam a mesma lição!, disse-me o Lobo Descalço.

- Caso contrário…?, indaguei.

- Mais uma coisa, telepaticamente completou o Lobo Descalço por entre seus olhos terríveis: esta viagem que fará será sua última! Foi decidido por eles – e você sabe quem! – que já basta!

Cinco Milhões de Visitas at Blog Filosofix

- Basta?, perguntei finalmente.

- Já basta! Torne-se Descalço também!

Cinco Milhões de Visitas at Blog Filosofix

Sadko – Song of India (Gegam Grigorian).VOB

Navegante, nosso muito obrigado por

Cinco Milhões de Visitas ao Blog Filosofix!

Foi uma honra tê-lo (a) conosco todo este tempo.

Cinco Milhões de Visitas at Blog Filosofix

Que venha a Índia!

postado por Ramiro Corrêa (02/03/2015)

Comments

comments





Recomendamos, fortemente, que você comente este post. Sinta-se à vontade.

Contudo, todos os comentários no Blog FILOSOFIX são moderados pelo ADMINISTRADOR. Contamos com sua COLABORAÇÃO. Obrigado.

Por favor, preencha o formulário abaixo e aguarde aprovação de sua opinião.


Comentários disponíveis para leitura.


Sem comentário



Nome (obrigatório)

Email (obrigatório - não será publicado)

Website

Compartilhe sua sabedoria - escreva seu texto abaixo

Current day month ye@r *