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Por quem os sinos podem dobrar

Categoria: Crônicas | Comentários ao final (Leave your comments below)

Não era algo simples de se fazer, nem de se viver, muito menos de se ver. Assim como não é algo simples de se contar. Contaram-me a seguinte história, faço questão de frisar.

À volta da pessoa humana estavam alguns médicos e enfermeiras. Já era começo de madrugada, num pronto socorro de emergência. O quadro gravíssimo apresentava, no auge do fenômeno, uma insuficiência respiratória agudíssima. Eles tentavam entubar a paciente em situação aguda de crise. Adveio, por força da situação, uma parada cardíaca. Morte, ainda que instantânea.

Uma pequena enfermeira, no entanto, da altura de seus um metro e cinquenta centímetros, subiu na maca, sentou-se praticamente sobre a paciente e tratou de urgenciar as medidas de ressuscitação, sem que ninguém lhe ordenasse. Apenas fez o que julgou dever fazer:

- Empurra, empurra, empurra, solta, espera… empurra, empurra, empurra, com força, muita força, solta, espera… respiração boca-a-boca, empurra, empurra, empurra, solta, espera…

O suor caía-lhe sobre a testa mas a pequena enfermeira não desistia.

- Empurra, empurra, solta, espera… empurra, com força, muita força, solta, espera… respiração boca-a-boca, empurra, solta, espera…

Um dos médicos, encostado à parede, deu sinais de desolamento; de cabeça baixa e feições entristecidas, parecia entregue. Mas a pequena enfermeira tenaz continuava sua prática desmedida:

- Empurra, empurra, empurra, soca o peito, o externo, solta, espera… empurra, empurra, empurra, com força, forcíssima, forçosa, solta, espera… respiração boca-a-boca, sopra, sopra, sopra, empurra, sopra, soca, não espera mais… não espera, empurra, empurra, soca, empurra, empurra, boca-a-boca, sopra, sopra, empurra-empurra-empurra, sopra-sopra-sopra, empurra-soca-empurra…

- Bip, bip, bip, bip…

Recuperou-se o aparelho de medir batimentos cardíacos, bip, bip, bip, vida!, bip, vida, bida, vip, bip, vida, bipa, vida, bida a vida!, bip, bip.

- Desce daí, gritou um médico, sai, me deixa continuar a entubação, anda, desce daí.

- Bip, bip, bip…

Entuba, entuba, entuba, ar, ar, oxigênio, oxigenia, soro, entuba a enfermeira, a pequena, a suada de os pingos caírem-lhe da testa, de ser enxugada com um pano qualquer por outro médico.

Ela sai. Desaparece nos corredores da Emergência. Deve ter ido beber um pouco de água, sabe lá Deus!, ou chorar ou sentir-se dignificada, sabe-se lá de Deus!

Do lado de fora da janela, os familiares apreensivos olhavam a tudo calados. Uma ou outra lágrima rolava. A pessoa humana estava, ainda, viva. Movida a máquinas, mas viva! Não como máquinas movidas a humanos, mas como humanos movidos a máquinas.

Alguém, lá de fora da janela, sentiu enorme admiração por aquela equipe lá de dentro da janela.

Tomou seu telefone e fez uma ligação. Quase uma hora da manhã. Atenderam de lá. Contou o sucedido com detalhes, ainda com voz embargada.

Do lado de lá, o silêncio da escuta. Ao término, ouviu o seguinte:

- É assim mesmo! Ela fez o correto. Esta semana, aconteceu comigo. Estou com o pulso dolorido e dores na perna, da posição que fiquei em cima de um pequeno paciente. É assim mesmo!

- E o seu paciente sobreviveu?

- Sim! Em alguns casos, sobrevive sim!

- Que bom!, respondeu de cá, mais estarrecido ainda, desligando o telefone.

Então, ocorreu-lhe de pensar duas coisas:

- que, do lado de cá devia admirar, profundamente agradecido, aquela pequena enfermeira,

- e que, do lado de lá, devia admirar, profundamente agradecido, aquele pequeno paciente.

Isto, contaram-me.

postado por Ramiro Corrêa (22/03/2015)

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