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Depressão não significa, necessariamente, perigo e o vôo 4U9525 da Germanwings

Categoria: Artigos | Comentários ao final (Leave your comments below)

Traduzo, a seguir, um artigo de Julie Beck postado em The Atlantic (aqui), sobre o desastre aéreo do vôo 4U9525 da Germanwings. Parece-me muito relevante o conteúdo do artigo de Beck, nas considerações pontuais que faz sobre a tragédia sobre a França, no vôo que ia de Barcelona a Düsseldorf.

Veja abaixo, por favor.

Depressão não quer dizer Perigo.

por Julie Beck Mar 27 2015, 3:36 PM ET

As notícias (sobre o desastre aéreo do vôo 4U9525) estão se concentrando na possível doença mental (depressão) do copiloto da Germanwings, no rumo de seguir pistas pessoais para crime de assassinato em massa. Mas a evidência mostra que a violência é extremamente rara entre tais doentes mentais.

A história do desastre aéreo da Germanwings, na última terça-feira, que matou 150 pessoas a bordo, adquiriu traços mais trágicos quanto mais detalhes emergem. Na quinta-feira, o audio da caixa preta do avião mostrou que o copiloto Andreas Lubitz, ao que parece, trancou o piloto do lado de fora da cabina, e parece ter espatifado intencionalmente o avião. Na sexta-feira, a cobertura das notícias voltou-se para a especulação sobre o estado mental de Lubitz, em uma tentativa de responder à pergunta que frequenta o drama da tragédia aérea: “como alguém pode ter feito isto?”

“Tudo aponta em direção a um ato que não podemos descrever: ato criminoso, louco, suicida,” disse o Primeiro Ministro Francês Manuel Valls, segundo a Agência France-Presse.

Criminoso. Maluco. Suicida. Que, se (o Primeiro Ministro) Valls agrupa aquelas três palavras em conjunto, diz muito. Ele insinua para uma equivalência perigosa. Suicida não é igual a homicida. Criminoso não é igual a maluco. E maluco é um tipo de coisa como quem chama alguém que está sofrendo.

Quais evidências temos sobre a saúde mental de Lubitz ou o que necessitamos saber disso, é ainda escasso. O jornal The New York Times informou que ele (o copiloto Andreas Lubitz) “tinha uma condição médica que ocultou de seu empregador (a companhia aérea Germanwings, subsidiária da Lufthansa).” Os investigadores encontraram uma nota de um médico na casa do copiloto, que o teria liberado (atestado médico de falta ao trabalho) no dia do desastre, bem como outra nota, que estaria rasgada. A BBC de Londres disse que a imprensa alemã informou que o treinamento de Lubitz foi interrompido em 2009 para que ele pudesse receber tratamento para depressão. Enquanto os seus empregadores da companhia aérea Lufthansa confirmaram que ele se ausentou por algum tempo, mas não disseram por que.

Ainda as manchetes na manhã de sexta-feira estavam frenéticas, sobre a possibilidade de Lubitz ter estado deprimido. O jornal The Daily Mail, de um modo excessivo, disse: “O copiloto assassino-em-massa que deliberadamente destruiu o avião da Germanwings teve que PARAR seu treinamento porque estava sofrendo de depressão e ‘esgotamento profissional’ 1”. A homepage da CNN disse que o copiloto estava “incapaz para trabalhar”.

“É um jeito natural de dizer que ‘Isto tem de ser profundamente maluco,’” disse Jeffrey Swanson, um professor de psiquiatria e ciências comportamentais na Duke University, que estuda a violência e a doença mental. Mas pessoas que cometem assassinato em massa “são realmente atípicas em relação a pessoas com doenças mentais,” ele diz. “A grande maioria de pessoas com esquizofrenia, desordem bipolar, ou depressão profunda não estão aptas a fazer algo violento e nunca farão.”

Segundo pesquisas científicas, somente 5 por cento dos crimes violentos são de fato atribuíveis às doenças mentais. Para a depressão, especificamente, um estudo de mais de 47,000 pessoas na Suécia encontrou que 3.7 por cento de homens e 0.5 por cento de mulheres diagnosticadas com depressão cometeram um crime violento, segundo o jornal The Guardian. Na população em geral, aqueles números foram de 1.2 por cento de homens e 0.2 por cento de mulheres. A depressão é um fator de risco, naturalmente, mas é muito pequeno.

“Isto é desconexo, mas que pode ser um prisma pelo qual vemos esses problemas,” diz Swanson.

As pessoas estão, compreensivelmente, tomadas por este retrato de Lubitz, traçado pela imprensa mundial em geral, o qual iguala a doença mental (depressão) à violência, usando como evidência uma situação muito limitada. Masuma Rahim, editor do jornal The Guardian, preocupa-se que tais notícias que culpam a depressão e que poderiam, “além disso, [demonizar] aqueles que sofrem desta doença mental.”

Concluir que o papel, no choque do avião, foi consequência automática de qualquer história de uma doença mental seria irresponsável e danoso. Não há nenhuma evidência de que os homens devam ser proibidos de pilotar, que os Alemães são impróprios de voar, ou que pessoas de 27 anos não devem ser deixadas soltas no cockpit de um avião para pilotá-lo. Só um fator foi rebuscado: a saúde mental de Lubitz.

Isto é uma progressão por demais familiar. Dentro em breve, o tiroteio de Newton, o tiroteio de Aurora, e o tiroteio da Jarda Naval, todos virão à memória, para rapidamente imaginarmos as ações dos matadores relacionadas às suas mentes. O impulso é compreensível. A doença mental pode ser tratada, e à vista do horror, as pessoas querem ações. Mas, o que podemos fazer para prevenir que isto não ocorra novamente?

“Se eu pudesse curar, magicamente, a esquizofrenia, a desordem bipolar e a depressão profunda, o montante total de atos de violência na sociedade baixaria apenas 4 por cento.”

“Um ato horrível como este, olhando para ele em si mesmo, é profundamente irracional, é horripilante e parece imprevisível,” diz Swanson. “É tudo que não queremos que a nossa vida diária seja. Queremos que a vida diária faça sentido. Queremos ser capazes de predizer o que acontecerá quando subimos em um avião, chegamos ao carro, ou vamos a uma alameda para fazer compras.”

“Agora, seguindo-se ao desastre aéreo da Germanwings, as pessoas estão pedindo apenas que testes de saúde mental sejam melhor aplicados aos pilotos das companhias aéreas. Melhores avaliações, intervenção imediata (ao detectar-se qualquer problema mental), e um melhor sistema de avaliação da saúde mental, tudo isto são objetivos nobres e realizáveis. Mas, infelizmente, o impacto que isto pode ter na prevenção de futura violência é provavelmente pequeno.”

“Se devêssemos tomar a esquizofrenia, a desordem bipolar, e a depressão … se eu pudesse tremular uma varinha e magicamente curar estas três doenças, o montante total da violência na sociedade — qualquer ato violento menor ou sério, empurrando e empurrando ou usando uma arma — baixaria até 4 por cento,” diz Swanson. “Noventa e seis por cento dos demais atos criminosos continuariam ainda lá.”

Embora a conexão entre violência e doença mental seja leve, na melhor das hipóteses, o público tende a acreditar de outra maneira. Um relatório encontrou que “entre 1950 e 1996, a proporção de Americanos que descrevem a doença mental em termos compatíveis com o comportamento violento ou perigoso praticamente dobrou.” Esta atitude persiste hoje. Uma pesquisa de opinião pública de 2013, conduzida pelo Instituto Gallup um pouco depois do tiroteio da Jarda Naval, encontrou que 48 por cento de pessoas culparam “muito” o sistema de saúde mental pelos assassinatos em massa. Trinta e dois por cento culparam-no “um montante justo.”

E isto pinta um quadro incompleto para se ver a doença mental em si mesma, sem todos os outros fatores em jogo. Por exemplo, os estudos realizados por Seena Fazel na Universidade do Oxford encontraram que pessoas com problemas de abuso de substâncias em combinação com doenças mentais têm maior probabilidade de serem condenadas por crime violento do que pessoas apenas com doenças mentais (sem agregar uso de substâncias tóxicas). E Swanson diz que ele mesmo fez a pesquisa em três grandes fatores dos riscos, um dos quais é o abuso de substância. Pessoas estão sendo vítimas da violência enquanto jovens, e testemunhando a violência no seu meio.

“Algo está errado com este homem”, é uma resposta que pode acalmar a dor do não entendimento, se não a dor da perda.”

“É importante não usar esta linguagem causal direta,” ele diz. “Quando há um incidente terrível e isto resulta que o perpetrador sofria de uma doença mental, o que você encontra é que o grande público e os meios de comunicação se valem disto como a explicação – ‘Que isto foi a causa-mestre da tragédia! Agora sabemos. Naturalmente.’ Talvez isto (a doença mental) seja de fato um fator contribuinte, mas o comportamento violento é um comportamento humano muito complicado que sempre é quase causado por um pacote inteiro de fatores que se interagem de modos complexos.”

E, além do mais, “comportamento violento” é um termo vago, que pode abranger algo de socar alguém na face, ou espatifar propositadamente um avião cheio da gente. As duas coisas são mais diferentes do que são parecidas. O mundo é enfrentado agora. Aguardando uma explicação, algo ou alguém para culpar, esta é uma reação humana à atrocidade. “Algo esteve errado com este homem” é uma resposta para manter as aparências. Isto pode acalmar a dor do não entendimento, se não a dor da perda.

“Mas se você generaliza aquela espécie da visão em direção a todas as pessoas diagnosticadas com e que estão lutando para recuperarem-se de uma doença mental séria, acabamos por tratar tais pessoas com o desprezo e buscamos distanciarmo-nos delas”, Swanson diz.

Por fim, nós do Blog Filosofix deixamos nossas condolências aos familiares das vítimas do desastre aéreo da Germanwings, entre passageiros e todos os tripulantes; e nosso mais profundo respeito a todos.

postado por Ramiro Corrêa (28/03/2015)

  1. nota do tradutor: trata-se da Síndrome de Burn Out, conhecida como distúrbio psíquico depressivo, que ocorre após um esgotamento físico ou/e mental muito intenso; o pesquisador Herbert Freudenberger a definiu como sendo um esgotamento mental e físico relacionado à vida profissional []

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3 comentários

  1. Armando on Março 30, 2015 3:39 pm

    Excelente texto. Parabéns.

  2. Ramiro on Março 30, 2015 9:56 pm

    Obrigado, Armando. E tem muito mais a ser esclarecido nesta história. Mas vamos por partes. Seja bem-vindo.

  3. Armando on Abril 1, 2015 1:07 pm

    Com certeza, Ramiro. Eu ouvi até mesmo jornalistas que afirma que seria um ato possivelmente terrorista. Duvido bastante dessa hipótese, principalmente a julgar pelo fato de atos ditos terroristas são (ao menos em todos os casos com os quais me lembro de ter tido contato) motivados por ideologias políticas, sociais ou religiosas. Contudo, acertar uma cordilheira com um avião com aproximadamente 150 passageiros não tem cara de terrorismo. Acredito que seria mais terrorista, por assim dizer, acertar esse avião em uma cidade ou monumento que seja como um totem, seja de extremo significado para o país.

    Na minha opinião, que diga-se de passagem é baseada apenas em notícias e links e por isso mesmo não deve ser julgada como uma hipótese, mas como provavelmente um ponto de partida para a definição de uma; acredito que pode ter ocorrido alguma espécie de surto de qualquer espécie com o controlador da aeronave, ou, como já ouvi dizer (péssima expressão para discussões, eu sei, mas…) existe um efeito causado pela permanência por muito tempo em um ambiente sem referência de horizonte ou de direção, que pode causar a perda da orientação, ocasionando assim que o controlador, nesse caso da aeronave, acreditasse, p.ex. que o avião estava subindo e tentasse corrigí-lo para descer, de forma a colidir então com a corilheira.

    Contudo, são apenas opniões…..

    Abração Ramiro.

Este assunto foi postado em (Sábado, Março 28th, 2015 às 2:25 am) e está arquivado na Categoria Artigos. Você pode encontrar as respostas RSS 2.0 feed aqui.

 

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