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“Eu-mesmo”, “Tu-delirante”, a Psicanálise e a Lei

Categoria: Artigos | Comentários ao final (Leave your comments below)

Um dos casos mais famosos acerca da paranoia delirante é o do doutor Schreber, narrado por Sigmund FREUD em “Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia (“O caso Schreber”), de 1911 a 1913; e retomado, algum tempo depois, por Jacques LACAN em seu “Seminário III (Psicoses)“, de 1955/56.

Freud é farto em sua análise sobre o dr. Schreber; o pai da psicanálise envereda por uma crítica ao narcisismo e avança para o desenvolvimento de um autoerotismo e da escolha de um caminho que leva a objetos cuja representação sexual se assemelham às opções sexuais do sujeito. Freud pensa em um “Eu-mesmo” tomado como objeto de amor e tal objeto acaba por ter genitais semelhantes. No curso de sua avaliação, lança uma sentença enigmática, quando diz:

Freud, O caso Schreber

Não se pode afirmar que o paranoico retirou completamente o seu interesse do mundo externo, mesmo no auge da repressão, como há que se dizer de algumas outras formas de psicose alucinatória (como a amentia, de Meynert). Ele percebe o mundo externo, cogita razões para as mudanças, é incitado a elaborar explicações (os “homens feitos às pressas”) pela impressão que dele recebe, e por isso acho bem provável que sua relação alterada com o mundo se explique apenas ou sobretudo pelo fim do interesse libidinal.1

Lacan, com sua genialidade ímpar, contudo, acrescenta algo mais a esse “sistema delirante”, que reputo essencial: para além do “Eu-mesmo” a que se refere Freud, Lacan apresenta-nos o tal “Tu-delirante”.

No fundo são, ambas, a mesma pessoa: “Eu-mesmo” penso que tu deliras; e o “Tu-delirante” é a imagem que de ti faço como se o único capaz de não delirar, nesse mundo meu que jamais pode ser teu embora eu reconheça que fazes parte do mundo que devia ser só meu, sou eu e apenas eu.

Noutras palavras, o outro, isto é, o “Tu-delirante” é um impertinente que não devia existir; ou, na melhor das hipóteses, que exista mas que não me perturbe.

Noutras palavras mais claras, o “Eu-mesmo” até aceita que o “Tu-delirante” exista, mas que não persiga o “Eu-mesmo” que sou eu. Ao retirar o seu interesse do mundo externo, o Eu-mesmo tem delírios de perseguição. Como diz Freud, ele “percebe o mundo externo, cogita razões para as mudanças”, mas não aceita a pluralidade justamente porque todos estão contra ele; todos o perseguem; todos têm motivos de sobra para destruí-lo (ou, no mínimo, assumirem controle sobre ele). No caso da análise de Freud, contudo, isso resulta do “fim do interesse libidinal”.

Mas Lacan encontra algo mais aí, ao tratar do “Tu-delirante” e não do “Eu-mesmo”.

Lacan, Seminário III

Et avec l’impertinence qui comme chacun sait me caractérise, je n’ai pas été le choisir nulle part ailleurs que dans ce que j’ai appelé la dernière fois « le discours de la liberté » pour autant qu’il est fondamental pour l’individu prétendu « autonome », pour « l’homme moderne » pour autant qu’il est structuré par une certaine conception de son autonomie. Ce « discours de la liberté », je vous ai indiqué sans pouvoir plus m’y étendre, son caractère fondamentalement partiel et partial, inexplicable, parcellaire, fragmentaire, différencié – chacun est en même temps supposé comme fondamental pour tous – le caractère profondément délirant du « discours de la liberté ». (Lacan, Seminário III, pg. 117)

O ponto-chave, portanto, da observação de Lacan está nisso que ele entende ser o “discurso da liberdade” (“le discours de la liberté“). Sem tal discurso, o sujeito autônomo, o “homem moderno”, vê-se totalmente desestruturado; mas… o discurso da liberdade, que é considerado fundamental para todos, segundo Lacan, por fim, teria um caráter “profundamente delirante” nesse sujeito que pratica a “arte” do “Eu-mesmo” ou do “Tu-delirante”.

É isto que está dito ali, na citação!

Quem, portanto, interpretar Lacan de modo malicioso e precipitado (o que não é o nosso caso aqui), dirá que o homem autônomo, que peleja pela conquista de seu discurso próprio e, mais, que tal discurso seja o discurso de sua liberdade pessoal, delira! Deliraria, pois, quem advoga para si o discurso da liberdade.

Assim, como tal posição haverá de provocar, digamos, um certo espanto, vamos com cuidado. Vejamos um pouco mais sobre como Lacan aponta para a chave da questão que se encerra e encerra, em si mesma, o problema: o da conquista da liberdade e do discurso da liberdade:

Lacan, Seminário III

Mais manifestement, le fait que je vous le rapporte en cet endroit du discours vous montre que j’y prendrai assez volontiers une référence apologétique exemplaire pour vous faire comprendre avant tout de quoi il s’agit dans l’expérience du « tu ». Disons si vous voulez, à son plus bas niveau, mais dont bien évidemment, à méconnaître qu’elle aboutit très précisément à cela, c’est absolument méconnaître tout de la fonction et de l’existence du « tu », autrement dit, comme signifiant. Remarquez que les choses là vont assez loin, et que les analystes – je ne suis pas là à tenir une voie qui soit solitaire – les analystes ont insisté là aussi. (idem, p. 210)

Não existe “discurso da liberdade”, sem antes haver uma experiência do “Tu”. O outro. Quem é você? Posso eu ser eu-mesmo-como-um-outro (fazendo, eu mesmo, uma referência direta à obra clássica na filosofia de Paul Ricoeur, “Soi-même comme un autre“)?

Se ignoro a existência do outro, do “Tu”, logo deliro. Não posso tomar um caminho solitário. E não posso fazê-lo porque devo satisfazer minhas carências, meus caprichos subjetivos e os arbítrios contingentes que se me apresentam; e para que isso aconteça, devo promover uma expansão omnilateral, ainda que eu destrua a mim mesmo e a meu conceito substancial, momentaneamente (isto já está posto na filosofia do direito de G. W. F. Hegel, no texto de “A sociedade civil-burguesa“, parágrafo 185). E mais, de acordo com Hegel: até mesmo a satisfação da carência, “seja ela necessária, seja ela contingente, enquanto infinitamente excitada e em completa dependência da contingência externa e do arbítrio, assim como, enquanto restringida pela potência da universalidade, é ela própria contingente”.2

Além disso, Paul Ricoeur alerta para outro pormenor acerco do “outro”. Em sua “pequena ética” (ver “Soi-même comme un autre“), Ricoeur faz lembrar a “dialógica do Si“. Mais precisamente, na obra “O Justo“, Ricoeur comenta:

Ricoeur, O Justo

A arquitetura daqueles capítulos (referindo-se ao seu livro “Soi-même comme un autre“) assenta na intersecção de dois eixos, portanto de dois percursos diferentes de leitura. O primeiro – digamos o eixo “horizontal” – é o da constituição dialógica do Si (ou, conforme propus, da ipseidade, que oponho à simples mesmidade, para caracterizar a espécia de identidade que convém ao si). O segundo, “vertical”, é o da constituição hierárquica dos predicados que qualificam a ação humana em termos de moralidade. O lugar filosófico do justo situa-se, assim, em Soi-même comme un autre, no ponto de intersecção desses dois eixos ortogonais e dos percursos de leitura que eles demarcam.3

Então, temos em conformidade com Lacan dois autores de peso, como Hegel e Ricoeur. É dizer que sem o “outro”, tudo que faço é delirante; e, ainda mais, sem a intersecção dos eixos, de um lado da “dialógica do Si”, de outro lado, dos “predicados” que qualificam a ação humana no rumo da moralidade, tudo que deixo de fazer por lançar culpa no “outro”, é delirante.

Então, disso vem Lacan que arremata:

Lacan, Seminário III

Je ne peux pas m’étendre longuement sur la relation qui existe entre cette fonction du signifiant surmoi, qui n’est pas autre chose que cette fonction du « tu », et le sentiment de réalité. Je n’ai pas besoin d’insister, pour la simple raison qu’à toutes les pages de l’observation du Président SCHREBER, celui-ci est accentué. Si le sujet ne doute pas de la réalité de ce qu’il entend, c’est en fonction de ce caractère de corps étranger de l’intimation du « tu » délirant, en fin de compte. (idem, p. 210)

Tal função existente, como diz Lacan, entre o (digo eu, superego) significante, que não é outra coisa senão a função do “Tu”, é o sentimento de realidade. Mas, no caso do delírio persistente, o “Tu” não é o outro, propriamente, nos moldes postos por Ricoeur ou Hegel, mas é um “Tu delirante” como no caso do “Tu” que o doutor Schreber via: uma humanidade tresloucada que precisa ser refeita por ele mesmo, doutor Schreber, que a devia parir novamente para salvá-la (ele como mulher).

E, aí, Lacan cita, finalmente, Immanuel Kant e… Moliérè:

Lacan, Seminário III

Est-ce que j’ai besoin à l’autre terme, de vous rappeler que quant à ce qui est de la réalité, la philosophie de KANT aboutit à ce qu’il n’y a de réalité fixe, si ce n’est le ciel étoilé au-dessus de nos têtes et la voix de la conscience au-dedans. En fin de compte cet étranger, comme le personnage de TARTUFFE, ce sera tout de même celui qui sera le véritable possesseur de la maison et qui dira au moi : « C’est à vous d’en sortir » au moment où il y aura le moindre conflit. (idem, p. 210)

Tem-se consciência, ou não? Problema fundamental na filosofia moral de Kant!

Porém, existe uma linha divisória tênue entre aquele que delira e… aquele que delira…

E, nisso, Lacan é fino e sutil, permito-me o juízo de valor.

Para além de Kant, Lacan convoca Moliérè.

Parece-me que, se retomado aquele “discurso da liberdade” que é delírio, na medida do sujeito que não reconhece o outro, há Tartufos e… Tartufos.

A referência lacaniana é direta ao TARTUFFE (“Le Tartuffe“, da comédia clássica de Moliérè cuja primeira encenação se deu em 1664). Tartuffe (ou Tartufo) evidencia aquela pessoa hipócrita, inclusive praticante da falsa religiosidade. Moliérè foi magistral – e Lacan mais ainda ao lembrar o dramaturgo – no relato sobre o ser mordaz que se envolve com política, poder, altos postos sociais e religiosos, visando o interesse próprio; aquele que não busca outra coisa senão a manutenção de privilégios. Tartufo (personagem da peça de Moliérè) é capaz de fraudar, roubar, mentir, dissuadir e praticar atos abjetos e… pior… até mesmo “em nome de Deus”.

Como vemos, há Tartufos aos montes em nossos dias; entre a escória que profana e corrompe a gestão de estados, então, nem se fale! Nas terras de metidos a espertalhões, sempre há ocupação de cargos públicos à base de indicações, dinheiros em cuecas, grampos telefônicos que revelam as conversas mais sórdidas possíveis, há empacotamento de vento e plantações de mandiocas, dos Tartufos e das Tartufas que não nos faltam (pelo menos cá no Brasil) e que, “se perseguidos” acusam-nos de “golpistas”.

Voltemos, assim, ao “tu delirante”; mas agora, em duplo sentido: do paciente e dos Tartufos e Tartufas.

Aquele psicanalista que se vê diante de um diagnóstico de transtorno de delírio persistente, na medida em que creia haver anormalidade ali, poderá por em risco o tratamento psicoterápico, se gerar uma elevada desconfiança em seu paciente. A ansiedade, a irritação e os delírios do “Tu” e do “Eu-mesmo” não podem ser apoiados pelo terapeuta, sob pena de o paciente achar que sua “realidade” é a realidade efetiva. Será preciso estabelecer um excelente “rapport” com seu analisando e, naturalmente, pedir ajuda médica psiquiátrica, trabalhar lado a lado, para um tratamento emergencial, sob recomendação exclusivamente médica, à base, provavelmente, de tricíclico, lítio (caso confirmada uma bipolaridade, p.ex.), ansiolíticos (talvez), e tudo visando uma emergencial recuperação de perda de ceratonina.

Ou… no caso dos Tartufos…

Um outro tipo de terapia de longa duração, à base da Lei pura e simples, dedicada exclusivamente aos Tartufos que assolam o Brasil, que tratam o povo e a democracia como “Tu delirante” e só pensam no “Eu mesmo“. Para esses, nada de ansiolíticos e muito menos de psicanálise… mas a aclamada e bendita República de Curitiba!

Dá-lhe, Moro!

postado por Ramiro Corrêa (01/06/2016)

  1. Ver Freud, O Caso Schreber, Obras Completas, Volume X. Tradução de Paulo César de Souza. SP: Cia. das Letras, 2010, p. 99 []
  2. Conforme tradução do texto de Hegel, por Marcos Lutz Müller, Textos Didáticos, Campinas: UNICAMP, 1996 []
  3. Ricoeur, O Justo, Volume I, tradução de Ivone C. Benedetti, SP: Martins Fontes, 2008, p. 7 []

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