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Meu último dia como estudante de Medicina

Categoria: Crônicas | Comentários ao final (Leave your comments below)

No dia 3 de agosto de 2011 eu escrevi uma crônica aqui no Blog Filosofix, cujo título foi Meu primeiro dia como estudante de Medicina (para ler o post, por favor clica AQUI).

Mas hoje reescreverei aquela mesma crônica, mudando apenas algumas poucas coisas (que estarão em itálico para tua informação)… coisas já tantas, tantas coisas que mudaram em nossas vidas; e devo compartilhar contigo, Navegante!

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Meu último dia como estudante de Medicina

Hoje, não adianta, eu não conseguirei dormir. Só creolina Tatu (marca antiga) poderia entorpecer-me. Antigamente, Creolina Tatu era usada para acabar com dor de dente: metia-se um chumaço de algodão embebido na Tatu, dentro da boca; aquilo adormecia; no dia seguinte, o Boticão ia lá e extraía o maldito.

Eu estou assim hoje, precisando de Creolina Tatu. Mas meu avô, que foi dentista formado pelo Granbery de Juiz de Fora, não está mais vivo. Dele sobrou o anel de formatura. Lindíssimo. Com duas serpentes douradas, uma pedra de todo tamanho. O sonho dele era ver isto no dedo de algum neto.

Verá! E Deus quis!

Por isto, hoje eu não consigo dormir. Preciso do meu avô, digo, de Creolina Tatu para sonhar com meu avô. Como não existe mais a Tatu, não sonharei com meu avô.

Hoje, às 8 da manhã desse dia, terei minha última aula na Faculdade de Medicina. Mas não estarei lá, estando.

Eu chorei feito um besta no dia de hoje, como se fosse o Dia da “passagem” do Mestre Philippe, meu MEM, Muito Excelso Mestre, o Philippe. Eu ainda choro. Que vergonha! Que vexame! Feito criança, fui feito como criança para sempre.

Hoje, 8 da manhã, vai ser aquele drama, de novo.

A primeira vez, lembro-me bem, muitíssimo bem, foi em fevereiro de 1964, um mês antes da desgraça assolar o país por longos vinte e tantos anos. Não contra tendências políticas, que hoje a gente vê que são todos farinha do mesmo saco de corrupção, não são flor que se cheire; mas contra a LIBERDADE. A Desgraça contra a Liberdade.

Uma forma de meter Creolina Tatu nas bocas das pessoas livres para, no dia seguinte, extraírem todos os dentes, não com boticão, mas com porrada mesmo!

Naquele ano, 1964, lembro-me bem, eu chorava feito menino, até porque era mesmo bem mais menino que sou hoje. Meu primeiro dia de aula.

“Na Escolinha, da Dona Jalcira, vamos todos aprender com atenção… Dona Jalcira é nossa amiga… é camarada e tem bom coração… ão, ão”!

Meu primeiro dia de aula. Dona Lia foi minha primeira professora. Eu não estava lá. A imagem que me ficou foi de meu pai ali ao lado e eu abraçado em suas pernas, não querendo ir pra escola, de jeito nenhum. Naquele dia, eu não estava lá.

Depois, dei um salto de 300 anos, isto é, 100 anos, não, 1997. Quantos anos? 64 para 97 dão… 33 anos.

Foi o primeiro dia de aula de minha filha. Eu havia largado tudo. General Motors. Empresas outras. Só para viver no interior e ver a garotinha dos meus sonhos, meu grande amor crescer ao meu lado. Nem queira saber como foi essa odisséia.

E eu não estava lá. 1997. O primeiro dia de aula dela. No primário.

Agora, passados os anos, hoje às 8 da manhã é o último dia de aula, de novo.

Eu não estarei lá. Estarei – ironia do destino – lecionando em outra escola.

Mas louco, desesperado, por estar lá, no último dia de aula da Faculdade de Medicina da minha garota!

Eles estudaram sobre quantas pernas tem a minhoca (como dizia o Cid Guelli, meu saudoso professor); souberam o verdadeiro nome do nervo ciático, asiático, como é mesmo? Por onde passa o impulso nervoso que vem do cerebelo e se distribui pela vértebra ângulo-saxisônica? Cristo Rei! Como essa gente consegue? Eles saberão o que é ética! Como conseguem?

Eles aprenderam a salvar vidas! Meu Deus! Esta gente de branco faz isto: eles salvam vidas!

E eu não estarei lá para ver o último dia de aula da minha garota! Nem olhar, de longe, ela subindo a rampa do imponente prédio branco, com colunas gregas brancas.

Ah!

Hoje, às 8 da manhã, estarei dando aulas. Será a melhor aula de minha vida. Às 8 da manhã. Vou imitar um médico, do pouco que sei do que é ser médico. Mas não saberei se conseguirei dizer alguma palavra.

Eu a levei lá. Onde um dia ia morar. Onde é a Universidade. Quando voltei de lá, no dia 2 de agosto de 2011 do primeiro dia de aula dela na Faculdade de Medicina, refiz a cena do filme de Akira Kurosawa, aquele chamado Dersu Uzalá.

Foi indescritível. Devo recorrer a Akira Kurosawa, agora.

De dentro do carro, manobrando pra vir embora, consegui enganar a garganta e lasquei um grito.

No Dersu Uzalá, quem viu há de se lembrar. Tem uma hora que o Dersu, subindo dos trilhos para a taiga siberiana, volta-se, lá de cima. Cá abaixo está seu grande amigo, o Capitan, seguindo para a cidade, sobre os dormentes dos trilhos, com alguns soldados. Dersu volta-se. O Capitan volta-se. Dersu levanta o cajado e grita:

- CAPITANNNNNNN…

Seu amigo levanta o fuzil e grita de volta:

- DERSUUUUUUUU…

E separam-se, cada um no seu destino.

Eu fiz o mesmo. Manobrando o carro, consegui enganar a garganta, pus a cabeça pra fora da janela e gritei:

- TCHAU MARINAAAAAAA…

Ela gritou lá de dentro da casa onde um dia morou quando ainda era estudante no primeiro dia de aula dela, há seis anos passados:

- TCHAU PAIIIIIIIIIIIIIIII…

Ela viu o filme comigo, o Dersu Uzalá!

Hoje eu não durmo. Nem a poder de porrete. Ou Creolina Tatu.

Estou aqui, de novo, imitando Dersu Uzalá e seu amigo Capitan. Tentando ouvir uma resposta do Deus:

- DEEEEEUUUUSSS…

E Ele responde:

- (silêncio)!

 

Que grito, este! Que grito este, Dele!

Quantos gritos mais, na vida, haverei de dar? Ou, quantos mereço ouvir?

Que alguém aí dê um grito. Eu berro como nos ensinou Akira Kurosawa em seu “Dersu Uzalá”:

- CAPITAAAAANNNNN…

É a tua vez de berrar, Navegante:

- ____________________ …

Parabéns, Doutora! Deus te pague!

(clique nas imagens para expandir)


postado por Ramiro Corrêa (à meia noite e alguns minutos quebrados de 23/06/2017)

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