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Às Hecubas e concubinas de hoje

Categoria: Artigos | Comentários ao final (Leave your comments below)

Eurípides,

Euripides

um dos quatro maiores dramaturgos gregos da antiguidade – entre Ésquilo, Sófocles e outro de sua escolha Navegante -, compôs, entre tantas (mais de 74 peças teatrais), a famosa Hécuba.

Hécuba foi esposa de Príamo, rei de Tróia. Este senhor teve 58 filhos, nada mais, nada menos! Ajudou na concepção de 43 rebentos com suas concubinas, 1 com Arisbe e 14 filhos com Hécuba. Dos filhos de Príamo com Hécuba – nossa personagem da peça de Eurípides -, os seus nomes eram: Heitor (o famoso herói troiano que comandou os exércitos contra os gregos), Páris (o não menos famoso bonitão acovardado, que raptou ou conquistou a mais bela entre as belas de todas as belas belíssimas Helena de Esparta – motivo de toda a guerra de Tróia), Cassandra (a feiticeira), Deífobo, Heleno, Pâmon, Polites, Ântifo, Hipônoo, Polidoro (que aparece na peça Hécuba como fantasma), Troilo, Creúsa também famosíssima, Laódice e Políxena (a virgem assassinada para satisfazer o fantasma de Aquiles, ainda na peça de Eurípides).

Após a derrota de Tróia, os guerreiros e heróis gregos repartiram, entre eles, as mulheres troianas e suas escravas como restos de guerra. Hécuba e suas escravas prediletas estavam entre os prêmios dos gregos, como Odisseu, Agamêmnon, Menelau, Neoptólemo (filho de Aquiles) e outros mais. Aquiles apareceu para os gregos, como fantasma, e exigiu que lhe fizessem um sacrifício sobre seu túmulo; queria que uma virgem lhe fosse enviada para os infernos, em sua honra. A escolhida foi a filha de Hécuba, a virgem Políxena. Hécuba, naturalmente, fez de tudo para salvar a menina do sacrifício, inclusive tocando o queixo de Odisseu como gesto de súplica sem sucesso. Políxena, por sua vez, de modo altaneiro e honroso, aceitou a morte e deu mostras da grandeza da mulher de Tróia.

Eurípides, como ninguém, soube descrever as agruras dessas mulheres, numa peça imortal, entre as magníficas (com duplo sentido na frase).

Da numeração 594 a 631, na bela e precisa tradução de Mário da Gama Kury (Editora Jorge Zahar, RJ, 1992, pgs 176 – 177), aparecem figuras do mundo grego para onde as escravas seriam levadas – e com elas, Hécuba a rainha de Tróia -; entre eles, por exemplo: Apídano era um deus dos rios da Tessália; Leto foi a deusa-mãe de Apolo e Ártemis a virgem caçadora; “a ilha” que se lê no texto é a Ilha de Delos, que está no mar Egeu e próxima a Míkonos, exatamente onde era o Santuário de Apolo; a divina Pálas é a deusa Athena, minha predileta com o perdão das demais deusas, se isso é possível.

Neste trecho acima citado (e abaixo descrito), no entanto, o CORO (composto pelas escravas de Hécuba) solta um lamento pungente. Tal dor das escravas chega a parecer irônico, se visto apenas com olhos de quem mede para onde elas seriam levadas, nos locais verdadeiramente belos e aprazíveis das terras gregas. Ao final, no entanto, revela-se o real motivo de tanta angústia: a perda da liberdade: de escravas que eram em Tróia – inclusive Hécuba, se bem notarmos por ter sido esposa de Príamo o rei reprodutor! -, para escravas que seriam! Lamentam-se pela troca de condição: de escravas para escravas. Porém…

“[...] nós seremos chamadas de escravas em solo estranho! [...]”

Eurípides. Hécuba((Eurípides. Hécuba. Trad. de Mário da Gama Kury. RJ: Jorge Zahar, 1992))

CORO

“Brisa marítima que sobre as ondas
fazes as naus velozes navegaram (595)
indo por águas clamas ou revoltas,
para que terra nos estás levando
- ai, ai de nós! – em nossa desventura?
Das casas de que donos cuidaremos,
depois de nos comprarem como escravas? (600)
Será nosso destino a terra dória?
A Ftia, então, lá onde o belo Apídano,
o pai das águas, fertiliza os campos?
Ou, impelidas sempre pelos remos
que ferem a superfície do mar, (605)
as naves ágeis nos transportarão
- ai, ai de nós! – na condição de servas
à ilha onde pela vez primeira
as esbeltas palmeiras e os loureiros
alçaram seus sagrados ramos verdes (610)
para a divina Leto em homenagem
ao filho dela e de Zeus poderoso?
Juntar-nos-emos às moças de Delos
para homenagear a faixa áurea
e o arco de Ártemis, a deusa virgem? (615)
Ou na cidade da divina Palas
sobre o véu colorido de açafrão
da deusa do carro maravilhoso,
teremos de bordar em tons florais
na trama bem urdida alguns corcéis (620)
emparelhados, ou a raça antiga
dos enormes Titãs que os raios fúlgidos
de Zeus, filho de Cronos, fulminaram,
impondo-lhes o derradeiro sono?
Ai! Ai de todas nós por nossos filhos! (625)
Ai! Ai por nossos pais e nossa Tróia
reduzida a destroços pelo fogo
e conquistada pelas lanças gregas!
E nós seremos chamadas de escravas
em solo estranho! Saímos da Ásia
e estamos a caminho da Europa, (630)
que para nós será igual ao Hades!”

Pense nisso, Navegante: “Saímos da Ásia e estamos a caminho da Europa, que para nós será igual ao Hades”. Ou, se bem quisermos, saímos daqui e fomos para lá. Algo lhe parece semelhante aos nossos dias?

postado por Ramiro Corrêa (29/06/2017)

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