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    • Ramiro : Caro Polito, este problema é grave e não acho que está claro na ideia de "eudaimonia", em Aristóteles; e em Platão também; nem Kant. A eles faltou "viver" (ou calaram-se) a intensidade de quem sofre (ouso dizer) o elo entre felicidade e liberdade: o amor. Exporei meu ponto de vista sobre isto, conforme teu pedido. Ousarei mais ainda, para não cometer o erro que Nietzsche aponta, o de não ir além. Abraços :)
    • Guest_4044 : Ramiro: Além de gostar de ler as Fábulas do Lobo de três Pernas, desde há muito penso nas relações entre FELICIDADE & LIBERDADE. Foi por isso que li muito atentamente o seu texto "KANT E A EXISTÊNCIA DE DEUS ", que me levou ao outro texto "EQUAÇÃO HOBBESIANA DA LIBERDADE" . Sendo eu um Químico por vocação, tendo filosofar por "invocação" e gostaria de ler uma interpretação sua focalizando a sensação de FELICIDADE em termos de LIBERDADE INDIVIDUAL Isto poderia ser esclare
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Diogenes e os verbos sollen e müssen

Categoria: Artigos, Crônicas | Comentários ao final (Leave comments below)

Diógenes de Sinope (412 ? - 323 a.C.) foi um filósofo não tão simples quanto possa parecer.

Diógenes era O Cínico.

Mas, quanto a isto, não vou me alongar, porque o amigo leitor pode muito bem dar uma busca na WikiPedia (Diogenes of Sinope, link AQUI) e consultar a respeito da filosofia proposta pelo Antigo.

Há uma passagem, contudo, que merece ser relembrada: conta-se que, certa vez, o poderosíssimo Alexandre o Grande, senhor de todas as terras gregas por ele invadidas, aproximou-se de Diógenes e disse-lhe algo assim:

- Peça-me o que quiseres, ó Diógenes.

Ao que o Cínico retrucou:

- Afasta-te do meu Sol!

Possivelmente, dirão alguns, ele estava simplesmente relaxando à luz solar matinal, em completa preguiça. Outros, contudo, notarão que Diógenes quis dizer a Alexandre algo mais profundo, como:

- Vás embora daqui, desta minha Grécia que representa minha luz, meu Sol.

Ou, melhor ainda, rodeado de cães, Diógenes a dizer:

- Vá plantar batatas! Vá procurar sua turma, Alexandre. Vá cuidar da sua vida e não encha a paciência de homens que se querem livres!

Ou, simplesmente:

- Vá pr’o inferno, Alexandre!

Seja como for, este foi um encontro entre dois chefes de Estado: um, Alexandre, o estadista das truculências; outro, Diógenes, o estadista de si mesmo.

O leitor amigo haverá de encontrar significados múltiplos para as atitudes de Diógenes de Sinope e saberá, da mesma forma, dar-lhes atualidade plena.

Dito isto, passemos a outro ponto.

Estava eu, hoje, a estudar com o amigo Walace (do Blog Filosofix II - link de acesso à direita), algumas frases do idioma Alemão.

Você não pode imaginar, prezado (a) leitor (a), como é sofrido para nós, Walace e eu, em idade já bem avancada (!), tentar aprender uma língua estrangeira. Resulta disto que ficamos, o tempo todo, “cavucando” o sentido de palavras e expressões e, além do mais, uma de nossas melhores diversões (coisa de loucos) é tentar compreender como é que eles (os alemães) ordenam suas frases e, daí, como é que iniciam o processo do pensar.

E o que isso tem a ver com Diógenes de Sinope?

Calma…

Acontece que nós esbarramos numa das liçoes do Curso de Alemão pelo Rádio da Deutsch Welle e Instituto Göethe. Numa lição, cujo título é “Das sollst du nicht!” estuda-se a aplicação dos verbos sollen (dever) e müssen (ter que).

Por exemplo, ensina o curso, “quando alguém não deve fazer algo”, expressa-se assim: - “Das sollst du nicht!”

Ou, se você quiser perguntar quanto tempo alguém tem que trabalhar, pergunta-se assim: - “Wie lange musst du denn arbeiten?

Estávamos em um clube de campo, sentados à mesa situada ao lado de uma quadra de tênis, às elf Uhr (onze horas). A manhã estava um pouco fria, para os padrões daqui da terra (uns 20 graus Celsius); sentados à sombra de várias árvores, livros sobre a mesa, incomodados pelos sons do vento, das aves e mais nada.

Entre mil conjecturas sobre o “sollst du nicht” e o “musst du denn arbeiten“, então, do nada aconteceu o inesperado.

Apareceu, não sabemos de onde, um cão preto, desses vira-latas. “Calado” e silencioso, ele procurou uma nesga de luz solar, a uns dois metros de nós e, preguiçosamente, deitou-se; fechou os olhos; respirou profundamente; e parecia dormir na maior tranqüilidade que um bicho possa ter…

Mas aquilo me incomodou! Como é que pode? Que atrevimento!

Olhei para o cão preto e ele nem se dignou devolver-me o olhar. Ali estava, ali ficou.

Meu amigo riu desbragadamente com a cena entre o cão, eu e minha expressão de descontentamento. Mas, nem assim, com aquela risada ofensiva, o tal do cão preto se incomodou.

Acontece que o bicho exalava um leve mau cheiro, seguramente fruto de sua vida repleta de lascívia; o que me incomodou mais ainda.

Não tive dúvidas: levantei-me e disse ao cão:

- Chiiiiti… vá embora!

- …

Ele nem respondeu. Deitado estava, deitado ficou.

Eu, então possuído por demônios miseráveis, fiz menção de tomar da cadeira (daquelas de plástico branco, próprias para clubes) e afugentá-lo às cadeiradas, batendo o pé no chão como um perfeito idiota!

Pois não é que o bicho virou a barriga para cima, olhou-me atentamente, e não demonstrou a menor intenção de sair dali?

Eu hesitei…

Meu amigo, rindo mais ainda que antes, exclamou:

- É o Diógenes! Você não ‘tá entendendo que ele ‘tá te dizendo pra você não encher o saco dele? Que é pra você afastar-se do Sol dele?

Meu caro! Minha cara!

Pensando que eu era o Diógenes, vi-me no papel oposto. Senti-me um tirano, um verdadeiro Alexandre Magno, um verdadeiro imbecil metido a tocar dali seres vivos.

Que vexame! Ainda bem que a cadeira tornou-se mais pesada que uma tonelada possa ser.

Walace emendou:

- Das sollst du nicht!

A manhã continuou preguiçosa, como nosso estudo de Alemão e o cão preto ali deitado.

De vez em quando, nós olhávamos o bicho lá deitado ao Sol; e sabe qual era a resposta dele?

Levantava a cabeça, olhava-nos com a expressão mais cínica que um cão possa ter e voltava às suas reflexões (kantianas?) possíveis, acerca do sentido de sollen e müssen.

Voltamos para a cidade por volta de meio-dia e meio.

Na despedida, o Cão Preto dignou-se levantar a cabeça… tenho certeza absoluta, como sei que vou morrer um dia, que ele, o Cão Preto, lançou-me um sorriso cínico:

- Afasta-te do meu Sol! Se quiserdes compartilhar dele, eu até aceito ouvir tua ignorância e tuas risadas… mas seria melhor teu silêncio!

Como não podia deixar de ser, Walace e eu terminamos a manhã discutindo se existe ou não re-encarnação, se é possível humanos voltarem em outras vidas como bichos… ou se nós somos os bichos para eles.

Foi u’a manhã estupenda, repleta de lições de moral, que as recebi de bom grado.

Aliás, talvez eu tenha mesmo conhecido Diógenes de Sinope, em pessoa, digo em alma, hoje mesmo!

Acredite se quiser!

Ramiro (15/06/2007)





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