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Atire a primeira pedra, iaiá, aquele que não sofreu (nem sorriu) por amor…

Categoria: Artigos | Comentários ao final (Leave your comments below)

Se você andar um pouco esquecido das palavras contidas em O Sermão da Montanha, você tem uma alternativa que pode, momentaneamente, lhe dar conforto, passageiro é verdade, mas que não deixa de ser uma alternativa, digamos, politicamente correta para passar ileso em nossos dias.

Por exemplo, se você precisar tomar partido, que não seja nem de esquerda, nem de direita, nem de centro, nem do avesso: observe os fatos.

Se todas as suas análises estiverem protegidas pelos fatos, você não precisará carregar a pecha de ideólogo – maior dos palavrôes hoje em dia -: o defeito passa por você e vai direto para o fato. É como se fosse um guerreiro mongol montado em seu cavalo, quem vai não é você, é o cavalo, digo, o fato (este exemplo encontra-se no Massa e Poder, de Canetti); e melhor, quando atira a seta no ar, com seu arco, o fato vai inclusive mais longe, morteiro, certeiro, com vistas a destroçar todas as mistificações, ou melhor ainda, todas as subjetividades. Sua posição fica muito mais confortável, porque sem assumir nenhum dos lados, nem o centro, nem acima, nem abaixo, você transcende a dimensão do humano; tornar-se-á um deus, uma espécie de Hermes, um mensageiro ético dos fatos.

É claro que você nunca terá acesso a todas as informações que rondam os meandros dos fatos, isto é, do Poder; é claro que você nunca saberá, de fato se essa ou aquela companhia produtora de armamentos bélicos esteve ou não envolvida na elocubração de falsos motivos para produção de fatos sociais; é claro que você nunca terá a certeza absoluta se essa ou aquela agência de espionagem internacional envolveu-se, de fato, na produção de falsos relatórios informando se havia ou não havia armamentos químicos ou nucleares em tal ou qual país; é claro que você nunca saberá se esse ou aquele governante tinha, de fato, intenção de produzir uma bomba atômica; é claro que você não terá acesso a relatórios ultra-secretos produzidos por corporações multi-nacionais sobre as perspectivas de perdas e ganhos nessa ou naquela guerra a ser deflagrada; é claro que você, provavelmente, nunca participará de uma reunião a portas fechadas do G-7; é claro que você não tem a menor idéia de como se aperta o botão de disparo de um mĩssil num caça super-sônico; é claro que você, provavelmente, nunca sentiu a fome de uma criança desnutrida, e também fica claro que, provavelmente, você nunca conseguirá estabelecer uma relação causal precisa sobre o roubo e a malversação de verbas públicas direta ou indiretamente relacionadas à morte de uma idosa senhora sem atendimento ambulatorial.

Você apenas deve se ater aos fatos ao seu alcance – não se atreva ir além.

Você nunca saberá a real causa, terá uma vaga idéia. Mas não pode falar, porque não há fatos. E se disser alguma coisa, você será tido como ideólogo, seja comunista, seja capitalista neoliberal. Atendo-se aos poucos fatos ao seu alcance, por outro lado, você será apenas um subjetivista.

Mas, a subjetividade, hoje em dia, é tida como má-fé. Esta deve ser guardada para o túmulo; qualquer análise derivada do túmulo e do além-túmulo é psicologismo da pior espécie, não se esqueça disto.

Se, algum dia, você estiver na Rússia e ouvir alguém brigando com a Caixa do Supermercado porque a cebola, o ovo ou a beterraba estão caros demais, não tente deduzir que a culpa foi da ditadura do proletariado que jogou o país em anos de depressão – o que interessa é que a cebola está cara e isto é um fato; se, algum dia, você estiver numa concessionária de veículos nos Estados Unidos e vir alguém reclamando dos defeitos de um carro coreano, não adianta querer deduzir que a culpa é das maquiladoras que empregam mão-de-obra barata e desqualificada, pois isso não interessa, isso é subjetividade da pior espécie; e se você for a algum país onde as crianças andam pelas ruas pedindo esmola, nem ouse pensar que a culpa de tudo foi de um imperialismo passado que sugou até o último diamante das reservas naturais deles, porque a palavra imperialismo é proscrita, isso faz parte do passado e você é um sujeito ressentido da pior espécie.

Lembre-se, não existe mais esquerda e muito menos direita. Mas, lembre-se também que você não pode afirmar que a direita acabou com a esquerda, ou que a esquerda se acabou e se vendeu nadando no dinheiro produzido pela direita, que antes só a direita tinha acesso. Isso não é fato, você não pode provar, deve se calar.

Eu ouvi a seguinte história, não me lembro de quem, nem onde se passou. Logo, não é fato; portanto, você não precisa ler. Mas vou contar assim mesmo. Ela é complicada a propósito, que é a forma correta de se fazer desviar dos fatos para as interpretações:

Um sujeito chegou-se para outro e disse que ia votar em um candidato fulano de tal. Foi argüido que isso não era certo, porque meses passados o mesmo sujeito contou que o candidato fulano de tal havia visto u’a mala cheia de dinheiro num hotel, que era destinada a um tal de Mensalão e que, portanto, se o candidato fulano de tal era testemunha ocular do tal de Mensalão isso bastava para convencer o sujeito a não votar no corrupto candidato fulano de tal que vira a mala do tal de Mensalão; mas o sujeito disse que votaria no candidato fulano de tal porque nada havia sido provado contra o tal de Mensalão e, consequentemente, nada contra o candidato fulano de tal (ainda que o candidato fulano de tal lhe dissesse que tinha visto o tal de Mensalão). E como não havia fato palpável, não havia o corrupto em si, e o fato era que, por falta de fatos, não havia motivo algum para não votar em fulano de tal, que era corrupto, mas, enfim, não era.

Mas, afinal de contas, era ou não era?

Que bobagem! O que importa é o fato e o fato não é a palavra.
Palavra não é fato, fato não é palavra, lembre-se disto.

Todavia, se aparecer dinheiro na cueca de alguém, em algum aeroporto, aí você terá um fato. Estará pronto para provar… mas, agora, o que vale é a palavra, não o fato. Pela palavra o sujeito nega o fato, o dono da cueca diz que o dinheiro não é dele, que não sabe de onde veio a cueca, muito menos o dinheiro… e logo, o que era fato vira palavra e o que era palavra vira fato.

Portanto, o que importa é a palavra, digo, o fato.

Ou será o fato, digo, a palavra?

Se você, quando vir uma cueca cheia de dólares, no lugar de berrar e chamar a polícia, começar a rir, você será tratado como sátiro e sua subjetividade – algo em você que lhe fez rir – será tida como coisa de mau gosto, politicamente incorreta e eivada de má-fé.

Confesso que não sei qual delas é a pior das piores: se a tirania dos fatos ou se a tirania das palavras.

Enquanto isso, uma coisa é certa: o pior dos piores, que é a moda hoje em dia, é você querer ser subjetivo.

Tome cuidado: isso é prova factual de má-fé. É a única hora em que a ausência dos fatos, isto é, que a presença da palavra incomoda aqueles que adoram os fatos – quando você é subjetivo.

Rir, então, é morte certa para uns. Ironizar, então, é o que há de deselegância. Chorar, por sua vez, a morte de um menino de seis anos, brutalmente assassinado, é o supra-sumo do agir subjetivo: a dor não engana mais ninguém, hoje em dia, pois são precisos os fatos. Nem tente dizer que aquele assassinato cruel, brutal, mostruoso de uma criança inocente era já um filme com o script montado; nem tente afirmar que outros assassinatos ocorrerão, isto é ser subjetivo demais, você não pode predizer um acontecimento brutal a partir de outro, porque você será apontado como falso profeta, vidente de araque – só se tornará objetivo quando houver a vítima, lembre-se disto.

No entanto, para alguns, rir pode. Aristóteles pode rir à vontade; Molière também. Rindo se castiga mais, já dizia o célebre orador, não é mesmo? Não há nada mais poderoso que a alfinetada de uma caricatura, de um cartoon bem feito, satirizando, ironizando, sendo subjetivo, a provocar as mais escondidas das imagens, quando isto é feito sobre fatos reais.

Tratar um Presidente como imbecil, pela via subjetiva de uma caricatura, deixa inclusive de ser má-fé, porque os fatos mostram; tratar a mãe de um Presidente, em coma num hospital, hostilizada, também pela via subjetiva dos gritos e dos protestos, também deixa de ser má-fé, porque os fatos mostraram. As caricaturas lembram aquela frase do filósofo oriental, segundo o qual uma imagem vale mais que mil palavras. As caricaturas, assim, ultrapassam as fronteiras das palavras, alcançam o fato real, isto é, mostram o lado subjetivo do sujeito idealizado como a face real, enquanto o sujeito real, pela via da caricatura, torna-se o subjetivo que deve ser escrachado…

Mas, entre presidentes caricatos, está a dor de gente desempregada, de gente desnutrida, de gente assassinada, de gente roubada. É dizer: parece que a conclusão é a seguinte: há gente moída no áspero, por culpa de presidentes caricatos e qualquer análise que queira ir além disso é coisa dos deploráveis subjetivistas. Enquanto buscam, de forma subjetiva, ironizar as falas de presidentes, nessas horas também está-se, ou não, a tentar fazer um vínculo, subjetivo, e portanto de má-fé?

Então, vamos apenas aos fatos:

Segundo Nietzsche (e isto é um fato, ele falou mesmo), nos Manuscritos de 1880, “não há fatos, somente interpretações”.

Agora, que Nietzsche tenha agido de má-fé ao fazer tais afirmações, digo, ao fazer tais interpretações, é que se deve provar, se é que valha a pena comprar uma briga contra a subjetividade objetiva de Nietzsche.

Noutras palavras, se tratássemos as interpretações como fatos, aí sim talvez pudéssemos encontrar soluções derradeiras para essa crise de valores que aí está; porque, se não for assim, na hora H, o que era fato vira palavra e o que era palavra vira fato, um pouco de propaganda arruma o resto, e vamo-que-vamo…

Quanto a você, caro leitor, pelo sim, pelo não, tome lá seus cuidados: se você quiser ser subjetivo, vai ser vítima de uma saraivada de palavras, digo, de fatos contra você. Do lado dos neoliberais, você será tratado como comunista desgraçado; do lado dos comunistas, você será patrulhado como imperialista maldito; e das transcendentes esferas dos apologistas dos fatos, você será tido como agente da má-fé.

Se, por outro lado, você ficar calado, vai agradar a todos, sem exceção, porque você será uma voz a menos.

Uma última coisa: se você resolver colocar a boca no trombone, você apanhará com um chicote que tem numa das esferas de aço, a filosofia de Aristóteles, noutra esfera, a filosofia de Hegel, noutra esfera a filosofia de Marx, noutra esfera os aliados de Bush, noutra esfera os simpatizantes de Sadam; e o cabo do chicote feito por ossos de tiranos do século XX. Todos o usam, apenas variam as costas.

Mas, nesse mundo dos fatos, um a mais a dizer coisas subjetivas não faz diferença.

Do mundo dos fatos, afinal de contas, nenhum caminho conduz ao mundo dos valores, já dizia Huberto Rohden, em sua preciosa obra, ao interpretar as objetivas palavras subjetivas do Divino Mestre Jesus.

… Que, aliás, foi chicoteado também (lembre-se disto)!

De um jeito ou de outro, você será rotulado, não há escapatória.

Condenado assim, ou a subsumir-se às massas que aí estão, ou à sua própria subjetividade solitária, chega-se, enfim, ao fim de uma era que já vai tarde: a era do homo oeconomicus – já vai tarde até demais; e junto dele que vá, também, seu primo pobre, o homo proletarius: dois sujeitos muito chatos, aliás.

Ramiro.





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