Pai-Nosso
A história se passa num lugar distante do interior das Gerais, mais três horas de estrada de terra depois do ponto em que todos falam uai.
Numa tarde de sexta-feira, o chefe o mandou visitar uma comunidade rural, para ajudar, tomar café com biscoito, catequizar e pernoitar no lugar. E lá se foi o enviado de Deus de carona, pendurado na carroceria de uma caminhonete - nem era preciso dizer, porque na cabeça de uns os pobres não andam de carro, só na boléia. O lugar até que era bonito, daqueles em que se sente a presença de Deus, desde que você não se sente muito próximo do chão, é claro (o que ele veio a descobrir depois). Os carrapatos dão uma coceira dos diabos.

O povo o acolheu muito bem, eram gente boa mesmo, coração tão grande que quase não cabia no peito. A terra estava seca, bem seca, pois faz muito não chovia, e ainda assim ele sentiu aquele lugar esquecido abençoado. As pessoas eram pobres, mas eram felizes. Apesar da vida sofrida de quem às vezes tem que lutar contra a natureza para teimar em viver, andar horas debaixo de um sol de rachar para pegar lata d’água para levar para casa, ainda arrancavam alimento e alegria do chão que parecia não querer dar nada sem tomar algo em troca.
Lá estava ele, então, sem saber muito bem o que fazer. Foi instruído que fazer missão, pastoral, é estar com o povo de Deus. Uma vez perguntou, se era mesmo assim, qual a razão de ser missionário, já que todos lá já estão entre eles mesmos. — Cala a boca sujeito! Você não entende nada.
Estar com eles também é comer biscoito com café. Depois do lanche, avisaram que tinha a oração do terço à tardinha. Ficava muito mal fugir, que mesmo bastante cansado missionário que não reza o terço pega mal, e então seguiu acompanhado para lá, suado, empoeirado e cansado, como convém a um missionário da cidade. Um menino ia à frente apontando o caminho, batendo com uma vara no mato, que não era alto mas, ia sendo instruído na sabedoria do lugar, era época e horário em que as cobras saiam para caçar.
Na conversa foi informado de que ali não rezavam a oração do terço, o costume era rezar o rosário completo… Tem que ter mesmo fé. Mesmo assim, tentando espantar a vontade de fugir, fez um elogio, sincero, um tributo à fé daquele povo: — É bonito, aqui não tem preguiçoso, e quem dera todos tivessem tamanha fé.
O normal seria quem foi para catequizar presidir o encontro de oração e apresentar os mistérios, mas, depois que abriu a mão da honra pela terceira vez, concordaram que talvez fosse melhor reservar a honra para outro dia, já que ele devia estar muito cansado. Ele agradeceu em silêncio, aliviado também pelo fato de nenhum galo estar perto dali.
Começaram a oração e ele foi acompanhando. Primeiro Pai-nosso, primeira novidade.
— Pai nosso, que estais no céu,
santificado seja o vosso nome,
venha a nós o vosso Reino,
seja feita a vossa vontade,
o que se assa na terra se come no céu…
Aquilo estava meio estranho. Olhou para um lado, depois para o outro. Todos continuavam rezando normalmente. Um garotinho reparou os seus olhos passando em revista a assembleia, e devolveu o olhar com uma piscadela. Bom, as crianças é que estão certas, vai ver esse miúdo é um anjo, e continuou a reza com o povo.
— … o que se assa na terra se come no céu…
Depois da oração, foi dormir o sono dos justos. No dia seguinte, o chefe foi visitá-lo para ver como a coisa andava:
— Bom dia, chefe!
— Quem tem chefe é índio! Você nunca toma jeito?
— Desculpe-me che… irmão.
— Então? Como foi a viagem? O povo te recebeu bem?
— Ah, sim. São ótimos, todos eles são ótima gente, têm um coração enorme, e uma fé linda de se ver.
— Ontem teve a oração do terço, não foi? Participou do encontro?
— Oh, claro, participei sim. Não foi exatamente um terço não, foi o rosário mesmo, que o povo é muito devoto.
— Notou algo de diferente?
— Bem… é… não sei. Diferente? Como assim?
— As orações, eles rezam direitinho?
— Ah, claro. Eles rezam com o coração mesmo, a gente se sente até…
— E o Pai nosso?
— Está no céu!
— Deixe de fugir do assunto, o que você fez?
— Eu acabei de chegar ontem, ainda não fiz nada, mas rezei o rosário com eles.
— Não viu nada de errado no Pai nosso?
— É um pouquinho diferente, mas não vi nenhum problema.
— Mas será possível? Você não é catequista? Não fez mesmo nada?
— Sou só um aprendiz! Esse povo cheio de fé provavelmente reza assim faz anos, quero esse encargo não. Por que não faz algo o senhor?
— Eu fiz, te enviei para lá!
— Tá bom! Mas eu não vi nada de errado, e, pensando bem, a oração está teologicamente perfeita, o que se assa na terra se come mesmo no céu.
— Teologicamente perfeita?
— Isso.
— Hummm… Deus seja louvado então.
— Para sempre seja louvado.
(Causo baseado na memória e na imaginação do autor; qualquer coincidência é mera semelhança. Nomes foram omitidos para não pagar cachê.)
Walace Rodrigues (02-fev-2008) — republicado em 22-jan-2010
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