Em A Metáfora Viva [1], Paul Ricoeur reapresenta uma tese sobre a retórica:
A Metáfora Viva, p. 19-20
A retórica é, sem dúvida, tão antiga quanto a filosofia; diz-se que Empédocles a ‘inventou’. Por essa razão, ela é sua mais velha inimiga e sua mais antiga aliada. Sua mais velha inimiga: é sempre possível que a arte de ‘bem falar’ libere-se do cuidado de ‘dizer a verdade’; a técnica fundada no conhecimento das causas que geram os efeitos da persuasão confere um poder formidável a quem a domine perfeitamente; o poder de dispor das palavras sem as coisas, e de dispor dos homens ao dispor das palavras Talvez seja necessário compreender que a possibilidade dessa cisão acompanha toda a história do discurso humano. Antes de tornar-se fútil, a retórica fora perigosa. Eis por que Platão a condenava: para ele a retórica é para a justiça - virtude política por excelência - o que a sofística é para a legislação; e as duas são, para a alma, o que são, para o corpo, a cozinha em relação à medicina e coméstica em relação à ginástica, isto é, antes de ilusão e engano.
“Dispor das palavras, sem as coisas”.
Resta saber quais são as coisas.
Quando a “coisa” é, por exemplo, a medicina, então trazer à tona a passagem do diálogo Fedro de Platão, quando Toth oferece ao rei vários remédios (pharmakon), entre eles a escrita, para que se pudessem registrar grandes eventos, ao recusar a oferta o rei lembra que a memória deve manter-se viva.
Nesta seção, está posta, portanto, a questão de saber se o problema do discurso funda um discurso do problema.
Sócrates mostra a Fedro que, num discurso escrito com a sabedoria da alma, não se pode apenas tratar o logos, mas captar o espírito.
O formato materializado das palavras, em termos gramaticais, aqui perde lugar para o significado oculto, este sim a ser apreendido, como se fôra a própria instrução do conhecimento do eros, vale dizer: não pegar o significado literal das palavras, mas o conteúdo oculto, lido entre-linhas, o que somente pode ser visto pela memória da alma.
Sócrates mesmo lembra a Fedro, com as seguintes palavras:
Platão, Fedro, 264c
E que mais dizer? Não te parece que as frases do discurso estão mal ordenadas, que a Segunda frase deveria ocupar o segundo lugar, o mesmo se podendo dizer das demais? Não sou muito competente em matéria de discursos mas, mesmo assim, fiquei com a impressão de que o autor escreveu, com audácia, o que lhe veio à cabeça. Por acaso conheces alguma regra logográfica que o tenha levado a ordenar o discurso dessa maneira? [...] Eis um ponto de que não discordarás: todo discurso deve ser formado como um ser vivo, ter seu organismo próprio, de modo a que não lhe faltem, nem cabeça, nem os pés [...]
Voltemos às coisas:
Qual é, verdadeiramente, a coisa da coisa chamada amor?
Dizer do amor não é o mesmo que dizer da existência de Deus?
postado por Ramiro (24/01/2010)
- RICOEUR, Paul. A metáfora viva. Tradução de Dion Davi Macedo. São Paulo: Loyola, 2000 [↩]
Bem-vindo ao






Categoria:
Comentários ao final (Leave comments below)

