Cada ser vivo experimenta o mundo de um modo diferente. O que diferencia o homem de um outro animal? Seria a primazia concedida à vida humana e o discurso sobre a dignidade da mesma algum tipo de “corporativismo da espécie”? Por que a vida não é toda ela carregada de dignidade e o que faz da vida humana alguma coisa de especial? A vida em sociedade não é privilégio humano. Algumas comunidades de gorilas, por exemplo, são marcadas com exemplos de auto-sacrifício pelo próximo, parecem mais cheias de “humanidade” do que alguns agrupamentos “humanos”.
O discurso que aponta para a razão como marca distintiva só faz reacender a suspeita do “corporativismo da espécie”, e alguns animais têm comportamentos e demonstram sentimentos que surpreendem a nós, membros da raça humana, enquanto que não é raro encontrarmos exemplares humanos que mal e mal usam da razão, desprezam tudo ao redor, e, não fossem seres humanos, fossem cães por exemplo, provavelmente alguém pensaria em sacrificá-los como animais doentes, raivosos e perigosos. Outros poderiam morder uma criança e por isso acabaram presos numa jaula - quantas vezes não é a cadeia isso mesmo? Se a razão, entretanto, não for o sinal distintivo que faz da vida humana algo mais digno, se a fria razão é fria, o que torna o Homem especial? Também o apelo para a alma não convence mais do que o recurso à razão, caberia novamente a suspeita de “corporativismo da espécie”. Se animais não têm “alma humana”, não implica necessariamente que não tenham nenhuma (para não falar em Xenófanes). Então que? A linguagem? O sentimento? Nada parece convencer definitivamente sem a suspeita daquele “corporativismo da espécie”.
Sem um “algo mais”, terminaria o homem na pura “animalidade”, ao lado de outras espécies “como iguais”? Mesmo sem chegar tão longe, a discussão sobre os direitos dos animais vem ganhando espaço e hoje é assunto de pesquisa na filosofia do direito[1]. O tema, entretanto, não nos atinge particularmente agora, pois aqui nos interessa o outro extremo: apontar para o que transcende a “mesmidade” do exemplar animal de espécie e, se for o caso, descobrir o que há de específico em cada homem que torna capaz de abrir o horizonte para o des-velamento da “humanidade” como realidade experienciável.
A psicologia mostra como o comportamento de um indivíduo sofre alteração somente por estar inserido em um grupo[2], e a ameaça do perigo pode causar um estouro em um amontoado de gente de modo bem parecido ao estouro de uma manada de búfalos. Outro caso de triste lembrança são os acessos de fúria bestial das gangues de torcidas que praticam atos de violência contra gente que nunca antes conheceram, um corportamento animalesco (note, isso não é “animal”, a maioria dos animais é mais “racional”) que parece provocado somente pela presença da “cor inimiga” na vestimenta do outro. Daí proponho que, se quisermos atingir o “especial” no homem, desvelar nele a “humanidade”, esqueçamos da massa, esqueçamos da espécie, e falemos com o indivíduo. Infelizmente a massa frequentemente age como uma besta com muitos pés e pouco cérebro, não tem voz própria e age por mimetismo.
O melhor modo de chegar ao indivíduo, senão o único, é pela via do encontro pessoal. Conhecer a realidade profunda do outro é uma experiência inteiramente original, que não se pode confundir ou equiparar com nenhuma outra, sendo bastante diferente, portanto, de um mero contato ou de outro tipo de relacionamento que não chega ao nível da profundidade transformadora da experiência que transcende o mundo e o mundano. Da mesma forma se engana profundamente quem imagina ter conhecido o autor ao ler uma obra. O tipo de conhecimento a que me refiro, que só é alcançado em um verdadeiro “encontro”, distancia-se radicalmente do conhecimento que se pode ter de algum objeto. Esse tipo de encontro, como era de se supor, exige muitos pré-requisitos para que possa acontecer, sendo o primeiro grande problema a questão da linguagem adequada para expressar o binônio razão-sentimento. Mesmo a poesia (fala) ou a dança (movimento) dariam conta dessa tarefa? A linguagem expressa realidades, mas nem toda realidade pode ser expressa através da linguagem. Sobre o que não se pode falar, é mesmo necessário se calar? Afinal, as palavras são prenhas de realidade e mesmo o próprio silêncio já é por si um ato de fala!
Como dizia Shakespeare: somos feitos da madeira dos nossos sonhos. Em “El secreto de la vida”, Unamuno escrevia:
Apesar das dificuldades, ainda assim a experiência do encontro é possível, embora exija muito da nossa atenção, transmutada em cuidado.
O encontro pessoal
O encontro com uma pessoa se distancia radicalmente do encontro com um objeto. Aos objetos podemos usar, possuir, transformar e manipular, mas com uma pessoa livre e dotada de inteligência nada disso. É necessário, portanto, diferenciar as relações sujeito-objeto das relações sujeito-sujeito, essas últimas, matéria dos encontros pessoais. Martin Buber, falando dos modos de relação do homem e da necessidade de se superar tanto o individualismo quanto o coletivismo, destacava a relação interpessoal:
O que caracteriza e diferencia a “relação pessoal”, sujeito-sujeito, da “relação coisal”, sujeito-objeto? Primeiramente que o encontro com uma pessoa não é resultado de um ato de conhecimento ou da percepção sensível, o encontro com uma pessoa tem sua razão de ser e seu fundamento em uma experiência mais profunda, uma experiência única que só acontece quanto se produz um encontro pessoal. A experiência do olhar pode ser um bom exemplo para esclarecer mais o que isso representa: quando entramos em um recinto com várias pessoas, o primeiro que podemos perceber é se seus olhares são de afeto, de simpatia, de respeito, de admiração, ou de afastamento e de ódio; em seguida podemos atentar para o modo de cada uma daquelas pessoas, observando como olham para os outros, e decidir se sentimento inicial era para com todos ao redor ou relacionado conosco. Como disse Sartre, o olhar se adianta aos olhos e os mascara[6]. O olhar não é o olho, mas é uma expressão simbólica através da qual se comunica a pessoa mesma, e o mesmo se pode dizer da expressão do rosto e da pessoa inteira. Toda pessoa tem uma profundidade e uma originalidade que não se pode reduzir a nenhum tipo de objeto. Isso aceito, outra questão se coloca: como posso me relacionar com outra pessoa como pessoa? que devo fazer para que meu relacionamento com o outro não se desvirtue e eu termine me comportando como num relacionamento sujeito-objeto? A pergunta é complexa mas a resposta é algo simples: aceitando o outro incondicionalmente, em sua liberdade e autonomia, em sua originalidade, em sua singularidade de ser tal ser pessoal. Não é algo fácil de praticar, há que se evitar a todo tempo qualquer tentativa de utilizar, possuir ou manipular, de qualquer modo que seja, a pessoa com quem pretendemos estabelecer o encontro. Claro que isso implica no desejo de que o outro seja ele mesmo, o que só pode ocorrer de fato se há admiração pela natureza do outro, respeito, compreensão e aceitação. Só nesse caso podemos dizer que ocorreu o verdadeiro encontro, quando o nível de reciprocidade permitir também que um participe na formação da intimidade pessoal do outro, sem nenhum tipo de pressão e por livre iniciativa.
Com isso atingimos o núcleo que define o encontro interpessoal. Um tipo de relação que só é possível se estabelecer mediante o amor. Amor aqui entendido como desejo de que o outro seja ele mesmo, por força do respeito, da aceitação e até do silêncio. Uma vez que cada um é livre para ser o que é, não está obrigado a ser o que queríamos que fosse - conclui-se que aprender a calar e a escutar são condições básicas de todo amor verdadeiro[7]. Quando uma pessoa se sente aceita dessa forma, experimenta algo do amor criador que a deixa ser ela mesma, mas que paradoxalmente a transforma em uma pessoa nova. Esse é justamente o paradoxo! Se amar verdadeiramente alguém leva o amante a existir em função do amado, melhor dizendo, se implica em que amado e amante sejam afetados um pelo outro, então fica claro que se pode dizer que há algum um tipo de projeto pessoal compartilhado. Scheler encontrou um termo feliz para expressar essa realidade: “coexecução” (Mitvollzug[8]), que quer dizer que uma pessoa só pode ser-me dada enquanto executo os seus atos, com compreensão e seguimento. Claro que, quanto isso ocorre, o outro já não é mais encarado como obstáculo, nem como instrumento, nem como espetáculo, nem como objeto transformável, mas como pessoa, e minha relação com ele não será mais de contemplação ou de manejo, mas de coexecução. Outra característica fundamental do encontro interpessoal é a “coefusão“. Acontece que as relações do tipo sujeito-objeto, por mais que ocorram, não têm a capacidade de satisfazer a carência humana e preencher o vazio. A aspiração do homem não se sacia na mera possessão de objetos e esses são incapazes de fornecer a felicidade plena; podem sim oferecer algum prazer momentâneo que, depois de terminado, faz o vazio maior pelo sentimento de frustração.
A felicidade do homem só é possível no encontro do “eu” com o “tu”, isto é, nos encontros interpessoais. Ainda que fosse possível ao homem apoderar-se do infinito como de uma coisa e tê-lo como objeto, nem assim seria feliz, pois a plenitude da felicidade para o homem está no encontro com o infinito interpessoal. Pelo que foi dito, o encontro interpessoal comporta duas dimensões fundamentais: “coexecução” e “coefusão”. A primeira consiste em viver a mesma vida que o outro, a segunda é a experiência afetiva que se traduz na presença mútua, no diálogo, na intimidade e no gozo compartido. O encontro, portanto, não acontece somente no “ser para”, mas também através do “estar com” o outro. No encontro verdadeiro não pode faltar nenhuma dessas dimensões: se falta a “coexecução” (ser-para), o encontro seria degradado em intimismo infrutuoso ou em sentimentalismo estéril; se falta a “coefusão” (estar-com), seria degradado em ativismo ideológico, que terminaria por destroçar completamente a relação entre as pessoas.
A “humanidade” então? É permitido falar de essência? Onde reside? Essas questões não serão tratadas agora. Todavia, é acertado que o caminho apontado do encontro é uma jornada de libertação. No sempre misterioso “outro”, encontrado, pois conhecido, e ainda assim não-conhecido, existe um “perigo” de confiar. Mesmo enquanto se des-vela, o “tu” se esconde, como se revela se escondendo: sempre existirá nele o oculto e o inesperado. Mesmo assim é na busca do descobrimento do outro que se é enviado numa jornada. Há perigos, mas não há fatalidade, “o homem só se torna livre num envio, fazendo-se ouvinte e não escravo do destino”. Parafraseando Heidegger, citando Holderlin:
“Ora, onde mora o perigo
é lá que também cresce
o que salva”
A liberdade tem seu parentesco mais próximo e mais íntimo com o dar-se do desencobrimento, ou seja, da verdade. Todo desencobrimento pertence a um abrigar e esconder. Ora, o que liberta é o mistério, um encoberto que sempre e encobre, mesmo quando se desencobre. É no desafio que há crescimento. Se já era verdade para o objeto, tanto mais será numa relação entre sujeitos. Ademais, claro está, por suposto, que a “humanidade” só é acessível na experiência do encontro com um ser humano, que é o único capaz de proporcionar tal experiência.
E prevalece, entretanto, a superficialidade em tantas relações. Falta a coragem, falta a ousadia, falta a liberdade da gratuidade. O sentimento de vazio e a necessidade do barulho - vale tudo para evitar o silêncio - nunca foram tão grandes hoje quanto outrora. O corre-corre, o esquecimento do ócio, o bendito ócio, então sempre vem alguém se queixar que “falta ética” no mundo de hoje, e às vezes não consigo deixar de bocejar. Justiça seja feita, os louros vão somente para os bravos.
Walace Rodrigues (13/05/2007) — adaptado e republicado em 24-jan-2010
- A extensão do conceito de Pessoa (ou de sujeito de direito) já é defendida por professores como Alan Dershowitz e Laurence Tribe da Harvard Law School - para maiores referências, visite Direito dos Animais. [↩]
- Para uma primeira abordagem sobre a psicologia de grupo recomendo a leitura do interessante artigo “A psicologia analítica e o emprego do termo grupo”. [↩]
- UNAMUNO, Miguel de, “Obras completas”, v.I, p.1178, Madrid, 1966 [↩]
- UNAMUNO, Miguel de, “Obras completas”, v.III, p.879, Madrid, 1966. [↩]
- Martin Buber, “Que es el hombre?”, 1964. [↩]
- Para uma descrição das notas características de todo encontro pessoal, ver: Lain Entralgo, “Teoria y realidad del otro”, 2.ed., Madri : Revista de Occidente, 1968. [↩]
- José Maria Castillo, “El seguimiento de Jesus”, Salamanca, 1986. [↩]
- M.Scheler, “Esencia y formas de la simpatia”, Colônia, 1923. [↩]
- Blaise Pascal, “Pensamentos”, art.XXI,II - A miséria do homem. [↩]
Bem-vindo ao






Categoria:
Comentários ao final (Leave comments below)

