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    • Ramiro : Caro Wagner, eu sabia mas não podia arriscar. Obrigado, novamente, por sua gentileza. Fantástico notar como duas pessoas que não se conhecem pessoalmente se sintam IRMÃOS. Pena que eu não posso e não sei ler sobre FITOALEXINAS e PLANTAS em geral. Por que você não publica algo no FILOSOFIX como breves lições a todos nós? Seria genial. Grand'abraço.
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A Felicidade, a Liberdade e a Vontade Invocada

Categoria: Artigos | Comentários ao final (Leave comments below)

O problema da felicidade, especialmente vinculado à liberdade, traz consigo uma demanda: pode ser universalizado e valer como regra geral, ou para cada caso haverá uma solução exclusiva? Se a felicidade, para mim, resulta em ter um lar amado e isto baste, pode ser que alguém prefira a vida seminarista e pastoral correndo de missão em missão a pregar o Evangelho do Cristo; ou ainda, realizar-se como piloto de carros de corrida; e são tantas as possibilidades que parece, num primeiro momento, uma questão insolúvel esta de responder como se vincula a felicidade à liberdade. E, ainda mais, teria a filosofia uma “receita pronta” que pudesse dar conta, pelo menos, das coisas em geral como ponto de partida para as decisões pessoais?

Afinal, quais são as relações entre a Felicidade e a Liberdade, esta que não pode deixar de ser, antes de tudo, uma “liberdade individual”, como, de resto, antes de mais nada, aquela não pode deixar de ser também uma “felicidade individual”?

Se olharmos a história da Filosofia, desde Tales até nossos dias, verificamos que muitos autores pensaram sobre a Felicidade e o conceito varia de acordo com o sistema; por exemplo, F. já foi relacionada ao prazer, às virtudes, ao sumo bem e diversas outras noções que, de alguma maneira, se tornam coerentes com as ideias que ela, a F., adere. Porém, de todas as reflexões a respeito, penso que Kant deu, não a palavra final, mas o limite extremo para além do qual só mesmo um “super-filósofo” haverá de transpor, ouso provocar; foi Kant quem fundamentou o conceito de F. como vinculado ao uso prático e teórico da razão, e o fez de tal modo que, daí em diante, um certo desinteresse emergiu na Filosofia pelo assunto! A não ser Jeremy Bentham   a acrescentar algo, baseado na fórmula de Cesare Beccaria  , segundo “a máxima Felicidade possível do maior número possível de pessoas” que desaguou em Stuart Mill; e, por fim, Bertrand Russel   (A Conquista da Felicidade) a procurar eliminar do conceito o sentido de egocentrismo, nesta linha da “tradição”, não há mais muita coisa.

Sem dúvida, há outras reflexões a respeito, que podem (e devem, pensou eu) ser retomadas a partir de visitas sérias ao insuperável Platão, a Aristóteles, ou Epicuro, por exemplo. Mas, fiquemos por aqui que já é muito.

No Crítica da Razão Pura (CrP, doravante), Kant surpreende-nos, bem ao final da obra, com o Livro II - Doutrina Transcendental do Método -. Após o capítulo I (A disciplina da razão pura), o Senhor de Könnigsberg arranca do bolso do colete o capítulo II (O Cânone da Razão Pura), que se subdivide na Primeira Seção (Do fim último do uso puro da nossa razão) e na Segunda Seção (Do ideal do Sumo Bem como fundamento determinante do fim último da razão pura)… e segue adiante até encerrar a obra com apenas mais dois capítulos.

Obviamente que seria bom tom ter ao lado, nesta breve leitura que faremos de certo trecho da Segunda Seção do Livro II da CrP, outros textos fundamentais de Kant, como os das obras Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Crítica do Juízo e Crítica da Razão Pura Prática. Convém notar, ademais, na leitura que se segue, os exatos instantes onde o conceito de “liberdade” surge para suportar a reflexão kantiana sobre a “felicidade”.

Diz-nos Kant (por favor, leia com atenção porque eu não saberia encontrar outras palavras, mais precisas que as dele próprio):

Crítica da Razão Pura, Doutrina Transcendental do Método, Seção II [1]

Do Ideal do Sumo Bem como um fundamento determinante do fim último da Razão Pura.

[...]

Immanuel Kant at Blog Filosofix[A805 - B833] Todo o interesse da minha razão (tanto especulativa como prática) concentra-se nas seguintes três interrogações:

1. Que posso fazer?

2. Que devo fazer?

3. Que me é permitido esperar?

A primeira questão é simplesmente especulativa. Esgotamos (e disso me ufano) todas as respostas possíveis e encontramos enfim aquela com a qual a razão é obrigada a contentar-se e, mesmo quando não se ocupa do interesse prática, também tem motivo para estar satisfeita; [...]

A segunda interrogação é simplesmente prática. É certo que, como tal, pode pertencer à razão pura, mas não é transcendental, é moral, e, por conseguinte, não pode em si mesma fazer parte da nossa crítica. [...]

A terceira interrogação: Se faço o que devo fazer, que me é permitido esperar? é ao mesmo tempo prática e teórica, de tal modo que a ordem prática apenas serve de fio condutor para a resposta à questão teórica e, quando esta se eleva, para a resposta à questão especulativa. Co efeito, toda a esperança tende para a felicidade e está para a ordem prática e para a lei moral, precisamente da mesma forma que o saber e a lei natural estão para o conhecimento teórico das coisas. [A806 B834] A esperança leva, por fim, à conclusão que alguma coisa é (que determina o fim último possível), porque alguma coisa deve acontecer; o saber, à conclusão que alguma coisa é (que age como causa suprema) porque alguma coisa acontece.

Aqui convém lembrar a divisão proposta por Kant no Crítica da Razão Prática, da distinção - Teorema III - entre “imperativos” e “máximas”. E os “imperativos” são dois: hipotéticos ou categóricos. Lá, a “felicidade” é posta como imperativo hipotético e chega a afirmar que ela é fruto de um desejo que orienta a ação material e, sendo assim, se a ação tem em vista um “objeto” desejado, ela é, necessariamente, realizada como um “imperativo hipotético”.

E Kant diz mais, - (abre aspas) “por incrível que pareça” (fecha aspas) - é muito mais fácil procurar a moralidade que a felicidade! Pois a felicidade, diz Kant, é algo mais complexo de se atingir.

Mas, no caso do “imperativo categórico, a determinação da vontade, não importa se o efeito é agradável ou não, deve ser realizada. Trata-se da Lei Fundamental nr. 7:

“Age de tal modo que a máxima da tua vontade seja sempre e ao mesmo tempo princípio de uma legislação universal”.

Mas, retomando a CrP:

Crítica da Razão Pura, Doutrina Transcendental do Método, Seção II

A felicidade é a satisfação de todas as nossas inclinações (tanto extensive, quanto à sua multiplicidade, como intensive, quanto ao grau e também protensive, quanto à duração). Designo por lei pragmática (regra da prudência) a lei prática que tem por motivo a felicidade; e por moral (ou lei dos costumes), se existe alguma, a lei que não tem outro móbil que não seja indicar-nos como podemos tornar-nos dignos de felicidade. A primeira aconselha o que se deve fazer se queremos participar na felicidade; a segunda ordena a maneira como nos devemos comportar para unicamente nos tornarmos dignos de felicidade. A primeira funda-se em princípios empíricos; pois, a não ser pela experiência, não posso saber quais são as inclinações que querem ser satisfeitas, nem quais são as causas naturais que podem operar essa satisfação. A segunda faz abstração de inclinações e meios naturais de as satisfazer e considera apenas a liberdade de um ser racional em geral e as condições necessárias pelas quais somente essa liberdade concorda, segundo princípios, com a distribuição da felicidade e, por consequências, pode pelo menos repousar em simples ideias da razão pura e ser conhecida a priori.

[A807 B935] Admito que há, realmente, leis morais puras que determinam completamente a priori o fazer e o não fazer (sem ter em conta os móbiles empíricos, isto é, a felicidade), ou seja, o uso da liberdade de um ser racional em geral e que estas leis comandam de uma maneira absoluta (não meramente hipotética, com o pressuposto de outros fins empíricos) e portanto são, a todos os títulos, absolutas. Posso pressupor esta proposição, recorrendo não só às provas dos moralistas mais esclarecidos, mas ao juízo moral de todo o homem, quando quer pensar claramente semelhante lei.

A razão pura contém assim, é verdade que não no seu uso especulativo, mas num certo uso prático, a saber, o uso moral, princípios da possibilidade das experiências, isto é, ações que, de acordo com os princípios morais, poderiam ser encontradas na história do homem. Com efeito, como ela proclama que esses atos devem acontecer, é necessário também que possam acontecer e deve também ser possível uma espécie particular de unidade sistemática, a saber, a unidade moral, enquanto a unidade sistemática natural não pode ser demonstrada segundo princípios especulativos da razão; efetivamente, se a razão tem causalidade com respeito à liberdade em geral e não relativamente a toda a natureza, e se os princípios morais da razão podem produzir atos livre, as leis da natureza não o podem. [A808 B836] Por conseguinte, os princípios da razão pura, no seu uso prático e nomeadamente no seu uso moral, possuem realidade objetiva.

Chamo mundo moral, o mundo na medida em que está conforma a todas as leis morais (tal como pode sê-lo, segundo a liberdade dos seres racionais e tal como deve sê-lo, segundo as leis necessárias da moralidade). O mundo é assim pensado apenas como mundo inteligível, pois nele se faz abstração de todas as condições (ou fins) da moralidade e mesmo de todos os obstáculos que esta pode encontrar (fraqueza ou corrupção da natureza humana). Neste sentido é, pois, uma simples ideia, embora prática, que pode e deve ter realmente a sua influência no mundo sensível, para o tornar, tanto quanto possível, conforme a essa ideia. A ideia de um mundo moral tem, portanto, uma realidade objetiva, não como se ela se reportasse a um objeto de uma intuição inteligível (não podemos conceber objetos deste género), mas na medida em que se reporta ao mundo sensível, considerado somente como um objeto da razão pura no seu uso prático e com um corpus misticum dos seres racionais que nele se encontram, na medidaem que o livre arbítrio de cada um, sob o império das leis morais, tem em si uma unidade sistemática completa tanto consigo mesmo, como com a liberdade de qualquer outro.

Esta é a resposta à primeira das duas questões ra razão pura que dizem respeito ao interesse prático: Faz o que pode tornar-te digno de ser feliz [A809 B837]. A segunda pergunta diz o seguinte: Se me comportar de modo a não ser indigno da felicidade, devo também esperar poder alcançá-la? Para a resposta a essa pergunta é preciso saber se os princípios da razão pura, que prescrevem a priori a lei, também lhe associam necessariamente esta esperança.

Por conseguinte digo que, da maneira que os princípios morais são necessários, segundo a razão considerada no seu uso prático, também é necessário admitir segundo a razão, no seu uso teórico, que cada qual tem motivo para esperar a felicidade na medida precisa em que dela se tornou digno pela conduta e que, portanto, o sistema da moralidade está inseparavelmente ligado ao da felicidade, mas somente na ideia da razão pura.

Ora, num mundo inteligível, isto é, num mundo moral, em cujo conceito fazemos abstração de todos os obstáculos à moralidade (as inclinações), pode pensar-se também como necessário semelhante sistema de felicidade, proporcionadamente ligado com a moralidade, porque a liberdade, em parte movida e em parte restringida pelas leis morais, seria ela mesma a causa da felicidade geral e, portanto, os próprios seres racionais, sob a orientação de semelhantes princípios, seriam os autores do seu próprios bem-estar durável e ao mesmo tempo do bem-estar dos outros. Mas este sistema da moralidade que se [A810 B838] recompensa a si própria é apenas uma ideia, sua realização repousa sobre a condição de cada qual fazer o que deve, isto é, de todas as ações dos seres acontecerem como se brotassem de uma vontade suprema, que compreendesse nela ou subordinasse a ela todos os asbítrios particulares. Ora, como a obrigação da lei moral permanece válida para todo o uso particular que cada um faz da sua liberdade, mesmo quando os outros não se comportem em conformidade com essa lei, resulta daqui que nem a natureza das coisas do mundo, nem a causalidade das próprias ações e sua relação à moralidade determinam a maneira como as suas consequências se reportam à felicidade; e o laço necessário, acabado de apontar entre a esperança de ser feliz e o esforço incessante de se tornar digno de felicidade, não pode ser conhecido pela razão, se tomarmos a natureza simplesmente por fundamento; só pode esperar conhecer-se se uma razão suprema, que comanda segundo as leis morais, for posta ao mesmo tempo como fundamento enquanto causa da natureza.

Designo por ideal do sumo bem a ideia de semelhante inteligência, na qual a vontade moralmente mais perfeita, ligada à suprema beatitude, é a causa de toda a felicidade no mundo, na medida em que esta felicidade está em exata relação com a moralidade (com o mérito de ser feliz). [...]

Traduzindo em miúdos - feliz ou infelizmente: :?

A Felicidade é uma “coisa” inalcançável, exceto no mundo sobrenatural e, ainda assim, desde que haja uma “intervenção” do Onipresente!

Eu diria que faz muito bem todo aquele que lida com a Felicidade por “invocação”.

E é bom “invocar” mesmo. Porque para ser feliz, é preciso antes ter fé.

Pena, não? Será?

Quer saber, estimada (o) Navegante? É melhor assim! Você faça o que puder, moralmente falando, para ser digno da Felicidade e o resto, se me permite a expressão vulgar, Ele que se vire! Esta é que é a verdade! Mais kantiano que isso, impossível!

E vou dar um exemplo:

Ainda hoje, à tarde, fui solicitado a dar uma “aula” particular para uma ex-aluna que participará de um concurso público; ela queria algumas dicas sobre redação, sobre certas formas de raciocínio, e durante duas horas - de 16 até 18 - aproveitei para falar algo bem básico (que é apenas o que sei) sobre umas coisinhas de Max Weber, de John M. Keynes, de John Rawls e até mesmo de Kant.

Espero que ela tenha sucesso.

Mas, ao final, à saída da biblioteca da Universidade, ela perguntou-me, delicadamente, quanto devia pagar pela “aula particular”.

Respondi, com o coração limpo: - Reza uma Ave Maria pra minha filha! Pode ser?

Ela disse sim, humildemente.

Sabe o que aconteceu, neste exato instante, Navegante?

“Por incrível que pareça”, diria Kant - no exato instante da promessa de uma simples Ave Maria pra minha filha, da ex-aluna -, recebi um telefonema em meu celular que dizia assim:

- Seu Ramiro? Aqui é a Fulana de Tal, do local Assim-e-Assado, em Belo Horizonte… estou ligando pra dar uma boa notícia ao senhor: falei aqui com o Fulano de Tal e ele vai abrir a oportunidade pra sua filha assim e assado, assado e assim…

Invocação?

Kant?

Nossa Senhora?

Eu diria: fé?

Faça, Navegante, o que deve ser feito e deixe o resto por conta Dele!

postado por Ramiro Corrêa (28/01/2010, no dia do aniversário do avô de minha filha!)

  1. KANT, I. Crítica da Razão Pura. Trad. de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. 2. ed. Lisboa, Calouste Gulbenkian, 1989, p. 639-643 []




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