Ainda não era meio dia. Um sábado de sol de estalar mamona. E eu, esparramado numa dessas cadeiras de não mais ter o que fazer, procurava nada mais o que pensar.
Na verdade, eu podia dar uns dez passos e cair na piscina, outros cinco passos e passar por uma ducha e sentar-me novamente. A médica recomendara um bronzeador para evitar problemas de pele. E este era o fim de manhã escolhido por mim. Nada mais desse bem bom, um “laissez faire, laissez aller, laissez passer” até merecido dadas as circunstâncias.
Até que passei a ouvir, sem poder evitar, uma conversa.
O pátio das piscinas é dividido em dois patamares; duas delas - uma para crianças e outra para todos - ficam um pouco acima, e a terceira, semi-olímpica, onde eu estava, mais abaixo pouca coisa. Lá, bem numa mesa, protegido do sol por uma sombrinha, daquelas feitas de fibra de vidro e fixadas à mesa de cimento, estava um pai; na piscina infantil, o filho.
Como disse, não pude evitar e ouvi a conversa que se seguiu.
O pai pronunciava o “S” com ênfase, de tal maneira que mais parecia guizo de cascavel.
Vamos tentar? Vou inventar uma frase qualquer com “S’s” e você, leitor (a), procure ler em voz alta e, sobretudo, pausadamente:
- “Para asss coisassss ficarem boasss, vocêsss poderiam essstar a usar assss vassourasss de piaçsssabasss, capazesss de varrer com maisss eficiênciasss que asss comunsss”.
Conseguiu?
Agora, repita a frase, por gentileza, mas dê um leve toque “afrescalhado”, com muita calma, sem pressa (por favor):
- “Para asss coisassss ficarem boasss, vocêsss poderiam essstar a usar assss vassourasss de piaçabasss capazesss de varrer com maisss eficiênciasss que asss comunsss”.
Pois bem! Você já pode imaginar, agora, como era o tom de voz do pai.
Agora vamos ao filho, um garotinho de uns cinco anos. Tente, por obséquio, repetir a energia enclausurada do menino; porém, desta vez, imagine um bater de pés no chão (ou na piscina infantil), bem birrento e aos gritos:
- “Não queroooo… uháááááá… nãoooooo… você é feiooooo… bobooooo…”
Quer repetir, leitor (a)? Pode sentir-se à vontade, pode imaginar-se caindo na água e batendo as palminhas para fazer marolas, o que bem entender. Vamos lá:
- “Não queroooo… uháááááá… nãoooooo… você é feiooooo… bobooooo…”
Conseguiu?
Bom… aquilo já estava ficando, assim, por sobre o muito chato e incomodativo. Eu, de minha parte, não podia fazer nada a não ser nadar; porque, como sabemos, é possível encher os ouvidos de água e não escutar o que se passa lá fora, pelo menos por vinte e cinco metros; quando se chega do outro lado da piscina, basta mergulhar, novamente por mais vinte e cinco metros.
De toda forma, quando se sai da água, ainda resta a oportunidade de o barulho da ducha minimizar os berros, mas isto dura pouco:
- “Não queroooo… uháááááá… nãoooooo… você é feiooooo… bobooooo…”
Até que, sentado novamente e castigado pelo sol, ouvi, sem querer ouvir, o seguinte diálogo:
- Liga o chuveirinho da boca do bichinho (há um sapinho de plástico que jorra água pela boca, como se fosse fonte), ordenou o garotinho.
- Isssso não pode!
- Ligaaaaaa…
- Papai não gosssta de broncasss; osss meninosss todosss essstão vendo suassss birrasss (leia pausadamente, Leitor (a), por caridade).
- Nãooooo! Idiotaaaaa! Burroooo! Você é chatooooo.
- Papai não gosssta de broncasss, eu já te dissssse, filhinhoooo. Quem manda é o papai. Osss seusss modosss ssssão feiosss. Sssenão o papai não te leva embora pra almoçsssar na vovó.
- Nãoooo! Cadê a mamãenhêêê?
- Papai não sssabe. Troca as roupasss, vamosss embora. Papai não gosssta de broncasss e quem manda é o papai.
- Não trocooo! Eu vou fazer xixi aqui…
Em resumo: um cocô! Talvez, dois cocôs!
Eu sei dizer que depois de uns dez minutos, tudo voltou ao silêncio, com a graça de Deus.
Perto de onde eu estava havia também uma mesa com outra sombrinha de fibra de vidro. Porém, pude notar, que aquele cano que sai da mesa até ela fazia um buraco maior do que o normal, na parte de cima, numa espécie de cone invertido, para melhor fixar a cobertura (a sombrinha de fibra).
E não é que dali surgiu um beija-flor?

A avezinha colocou a cabeça para fora do cone invertido, olhou assustada por todos os lados, inclusive para mim que estava ali bem perto, sentado; mirou na direção da conversa entre os dois tiranos - pai e filho - e saiu em disparada na busca, provavelmente, de alimento para os filhotes.
Eu, com o silêncio que reinava, inclusive percebi um certo ruído dentro do cone da sombrinha e pensei: são os filhotes.
Algo caiu lá de dentro sobre a mesa, também. Até me levantei para ver de perto o que era.
Cocô! Cocô de filhote de beija-flor!
Sorri, naturalmente. Pensei na vida e ainda ouvi, lá longe, o pai a tentar fazer o filho entrar no carro:
- Vamosss, filho; papai não gosssta de broncasss…
- Não… burrooo…
Tiranos são como cocôs, não de beija-flores, mas verdadeiros cocôs humanos. São tiranos. Eles apenas mudam de roupa, crescem, tornam-se poderosos, dirigem divisões inteiras de Panzers, de fanáticos religiosos, de corruptos de toda laia, nos meses de “thermidor” ou em outros quaisquer, mas continuam tiranos, verdadeiros cocôs.
Antes de se transformarem em monstros e genocidas, não nos esqueçamos, todos os tiranos foram, antes,
Cocôs!

postado por Ramiro Corrêa (31/01/2010)
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