Perdoar tem sua origem, etimologicamente, no latim perdonare, composto da partícula intensiva “per”, que indica cumprimento, e “donare”, que significa conceder, doar. Literalmente, portanto, perdoar significa doar completamente, isto é, absolver da pena por uma culpa, responder com graça a uma ofensa. Dois adjetivos associados ao ato são “generoso”, freqüentemente atribuído a quem perdoa com facilidade, e “implacável”, dito de quem não perdoa nada. Para além da mera análise etimológica do termo, para compreender como se dá a ação do ato de perdoar, passamos a examinar o cenário no qual evoluem os atores, o enredo, e, naturalmente, a cena crucial do conflito.
O perdão em Israel/Palestina
“Perdoar
é cada vez mais um acto de amizade e amor nos tempos em que estamos. Em todo o mundo acontecem diariamente fomes e guerras. Nós que nos encontramos num mundo em que os inimigos são mais que os amigos, ou pelo menos, verdadeiros amigos, o PERDÃO é possivelmente um dos maiores actos de humanidade, e quem souber perdoar certamente é alguém com sentimentos nobres. Neste mundo onde o perdão já não se usa, quem ainda acredita na magia dessa palavra tem de fazer alguma coisa para que o PERDÃO seja de novo um acto presente no coração de cada um.” — Autor desconhecido.
A cena crucial: a ofensa
Vamos partir de um caso, para exemplificar, e buscar então examinar para ver como o mecanismo funciona. Na parábola do cordeiro que bale, Nietzsche escreveu:
IN: “A genealogia da moral”
Que cordeiros tenham horror das grandes aves de rapina é algo que não surpreenderá ninguém; mas nem por isso se deve querer mal às grandes aves de rapina devido ao fato de elas atacarem os cordeirinhos. — Nietzsche
O cordeiro sofre por causa das aves de rapina que o devoram, e diz a si mesmo que, se as águias não o devorassem, as coisas seriam melhores. Tudo que elas têm que fazer, portanto, é não devorá-lo, e, se o fazem, é porque são más. O paralogismo construído pelo cordeiro reside em duas coisas: a primeira é a idéia de que a águia poderia se impedir de agir e, se não o faz, é porque ela é má; e a segunda vem expressa neste enunciado: “Essas aves de rapina são más; e aquele que tem o mínimo possível de ave de rapina e que talvez seja mesmo o oposto de uma, um cordeiro, não seria ele bom?”. A inversão faz da minha impotência uma escolha, e da ação do outro por sua própria conta a vontade de me prejudicar. Não se pretende aqui legitimar a injustiça ou a falta de delicadeza, mas colocar em questão uma ficção que muitas vezes aparece como dogma dizendo que “o que é dado a um é retirado do outro”[1]. Ora, percebe-se que a falta não se refere tanto ao fato em si quanto à maneira como ele é “sentido”, e à significação que assume a situação para aquele que pensa a si mesmo como “vítima” dela. Parte do raciocínio é que houve uma falta, forçosamente, porque houve uma vítima; e se há uma falta, alguém a cometeu; e, como sou eu a vítima, tenho certeza (!) de não ser o culpado. É óbvio que, se o exemplo acima pode ter sido útil para iniciar a reflexão, dificilmente poderíamos nele enquadrar todos os casos. Aliás, tem-se a impressão, quase, de que ele é paradigma daquilo que não ocorre, e não deve ocorrer, nos casos em que procuramos o perdão. O exame da situação nos casos habituais parece revelar que ocorre, em algum lugar, um erro de comunicação. Entretanto, se tudo se resumisse somente em uma dificuldade de linguagem, o perdão poderia ser conseguido com o devido esforço, o que parece contradizer a práxis. O erro a que se faz referência aqui é, tipicamente, de investimento. Investimento em um objeto por sua utilidade ou seu peso afetivo sentimental; e sob o qual é considerado que ocorreu um ataque à pessoa. A “coisa” a propósito da qual se entra em desacordo com o outro pode ser, e freqüentemente o é, totalmente imaterial. Fica-se contrariado com o outro porque ele não agiu como se esperava; ocorrendo, de algum modo, uma decepção que exige (?) reparação.
As falsas concepções de perdão
Não parecemos mais próximos de definir o que seja o perdão do que quando iniciamos, mas, antes de pensarmos no ato mesmo de perdoar, é necessário, pelo menos, que nos desprendamos de falsas idéias sobre o perdão. Neste empreendimento que pretendemos filosófico, para socorrer-nos contra a tentação de um desvinculamento completo do plano religioso, vale recordarmos a onipresença da religião, já apontada por Derrida[2], na vida humana. Em particular, vale recordar o que ele diz sobre a experiência de fé como ato performativo, fundamentadora de toda relação de vínculo social. Isto também se aplica ao perdão, na medida em que não posso dizer com seriedade “eu vou te perdoar amanhã”, mas apenas “eu te perdôo”. Além disto, como pretendo mostrar em seguida, todo ato de perdão exige confiança, podendo então ser enquadrado no que Derrida chama de experiência do fiduciário e fiável, o que remete necessariamente à dimensão do sagrado.
- Perdoar não é esquecer – é um erro pensar que a prova do perdão exige o esquecimento; ao contrário, o perdão ajuda a memória a curar a virulência da recordação, de modo a ela não mais infligir dor.
- Perdoar não significa negar – o perdão não exige a negação da ofensa nem dos sentimentos despertados por ela, ele não produz seu efeito curativo enquanto a pessoa se nega a reconhecer a ofensa com a sua seqüela de sofrimento.
- Perdoar requer mais que um ato da vontade – o perdão não é um ato artificial, mágico ou instantâneo porque não é um ato puramente voluntário, mas é um processo.
- Perdoar não pode ser uma obrigação – o perdão ou é livre ou não existe. Por isso, reduzir o perdão a uma obrigação moral é contraproducente, pois, ao fazê-lo, o perdão perderia o seu caráter gratuito e espontâneo.
- Perdoar não significa sentir-se como antes da ofensa – o perdão nem mesmo exige o restabelecimento de uma relação de modo idêntico ao que era antes da ofensa. Podemos perdoar, por exemplo, a uma pessoa ausente ou morta. E, embora a reconciliação seja conseqüência natural do perdão no caso das relações íntimas, perdão e reconciliação são coisas diversas.
- Perdoar não exige a renúncia aos nossos direitos – o perdão não é um tipo de diminuição das exigências da justiça. Foi esse tipo de erro, caracterizado por uma certa tendência a apresentar com demasiada facilidade a “outra face”, que levou Bernard Shaw a afirmar que o perdão era “o refúgio dos tiranos”. Sobre as relações entre justiça e perdão, cabe assinalar que, enquanto a justiça se ocupa de restabelecer os direitos da parte prejudicada, o perdão responde, em primeiro lugar, a um ato de benevolência gratuita, o que não significa que ao perdoar se renuncie à aplicação da justiça. O perdão que não combate a injustiça não é um valor, mas uma fraqueza ou falsa tolerância.
- Perdoar o outro não significa desculpá-lo – a frase “eu te perdôo porque isso não é culpa sua” encerra mais uma concepção errada de perdão, porque o perdão não equivale a uma desobrigação de qualquer responsabilidade moral. Aliás, pretextos para isso não faltariam: influências hereditárias, da educação, da cultura… Desse modo, ninguém seria mais responsável por seus atos, porque ninguém gozaria de suficiente liberdade. Ao contrário do que parece, uma escusa fácil demais contribuiria mais para humilhar o ofensor que para libertá-lo. Gabriel Marcel ilustra bem este ponto em sua obra de teatro intitulada “A Graça”. Françoise, esposa infiel, já não pode suportar o discurso do esposo, Gerard, que tenta em vão desculpá-la. Gerard diz: “Não tenho por que lhe perdoar…, a razão de seus atos não está em ti”. Françoise, humilhada, protesta: “Não! Isso não!… antes a morte!”
- Perdoar não é uma demonstração de superioridade moral – alguns atos de “perdão” mais humilham que libertam. Nestes casos, o perdão (precisa de um autor), sob um ato de aparente magnanimidade, freqüentemente dissimula uma suprema arrogância ou instinto de poder. Possivelmente uma tentativa de dissimular uma humilhação com a superioridade do “cavaleiro ferido” mas cheio de generosidade e misericórdia. O verdadeiro ato de perdão tem lugar na humildade, enquanto o falso procura reforçar uma relação dominante-dominado.
Considerações positivas
Depois de procurar definir melhor o que seja perdão, pela via negativa, daquilo que ele “não é”, tentaremos apontar positivamente para aquilo que se faz necessário para que ele aconteça. É provável que nossa opção pela não definição positiva do que seja o perdão incomode a alguns, mais ainda tendo em vista os enganos e dificuldades apontadas acima. De fato, uma reação negativa diante dessa opção poderia ser a afirmação de que um perdão, como apresentado, aqui, não existe ou só seria possível para Deus. Nossa resposta já foi, de certo modo, apresentada acima quando apontamos para o fato de que o perdão é um processo, e como tal acontece em etapas de maior ou menor profundidade, sendo difícil, ou mesmo impossível, demarcar com precisão o seu início ou o seu ápice. Continuemos:
- O perdão começa com a decisão de não se vingar – perdoar é romper as engrenagens da violência e negar-se a combater com as armas do ódio.
- O perdão requer introspecção – o perdão passa necessariamente pela tomada de consciência de si mesmo e pelo descobrimento da própria limitação interior revelada pelos sentimentos de vergonha, repulsa, agressividade e vingança.
- O perdão aposta numa nova visão das relações humanas – o perdão cria um espaço na lógica imanente das equivalências judiciais, não é o esquecimento do passado, mas é uma aposta na possibilidade de um futuro distinto do imposto pelo passado ou pela memória. Para Christian Duquoc, o perdão é um “convite à imaginação”. O perdão tem, portanto, seu talante utópico, forma parte do imaginário e implica uma vontade de criação, ou melhor, de re-criação. Se criar é construir algo a partir do nada, para o perdão, esse nada é o vazio introduzido pela ofensa na relação. O perdão inverte a situação e cria uma relação nova.
- O perdão aposta no valor do ofensor – para perdoar é indispensável seguir crendo na dignidade daquele(a) que nos feriu, oprimiu ou atraiçoou.
- O perdão reflete uma experiência do sagrado – a matriz religiosa é parte integrante da história da idéia de perdão, e fomos já alertados acerca da tentação de nos desvincularmos completamente dela. A tradição religiosa cristã ocidental coloca a experiência de perdoar como reflexo da misericórdia divina, situando-a num ponto de conjunção do humano e do divino, uma experiência espiritual, portanto. De fato, essa visão nos permite descartar mais algumas concepções falsas como a do psicólogo behaviorista que assimila o perdão com uma manobra defensiva, determinada pelo medo das represálias e da destruição mútua; ou a de Sêneca, que via na piedade o principal motivo do perdão: “Perdoa o mais fraco que ti por piedade por ele, e o mais forte que ti por piedade de ti”. Sobre a conjunção do humano com o divino, essa concepção permite negar tanto os erros de uma prerrogativa exclusiva de Deus, que deixaria pouco espaço para a iniciativa humana, quanto um excessivo voluntarismo ou um desejo de controlar a situação, que exporia a gratuidade ao risco.
Walace Rodrigues (13/05/2007)[3] — republicado em 05-fev-2010.
- Lamentavelmente, constata-se com freqüência que muitos chegam a conceber até o amor desse modo. [↩]
- Derrida, “Fé e Saber. As duas fontes da ‘religião’ nos limites da simples razão”: in “A Religião”, Capri, 1994. [↩]
- Excerto de “Tudo compreender é tudo perdoar?”, escrito por mim em abril de 2002. [↩]
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