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Descartes e o caminho para Deus

Categoria: Artigos | Comentários ao final (Leave your comments below)

Em Meditações Sobre Filosofia Primeira, René Descartes traça uma série de reflexões sobre Deus, desde a Primeira até a Sexta Meditação.

Há algo, contudo, que merece ser considerado. Encontro ali um singular esforço do filósofo, que está, antes, nas entrelinhas de sua geometria analítica, para além (ou aquém) dessas meditações.

Veja a figura abaixo:

Observe os pontos A, B e C, que formam, ademais, um triângulo retângulo. Agora, suponha que haja uma esfera no ponto B e que ela esteja no início de um movimento de queda, a rolar pelo plano inclinado BC.

Pois bem: o grande Isaac Newton formulou a tese segundo a qual uma reta não é um conjunto de pontos, mas sim um ponto navegando de A a B.

Em nosso caso, acima, quero evidenciar que a reta BC, na verdade, é representada por um ponto (ou uma esfera) que navega de B a C.

Isto posto, considere o seguinte:

Há um conceito, o de Topotesia, que expressa a ideia de descrição de um lugar imaginário, mas que também foi tratado, em certo instante, como a relação biunívoca e bicontínua de uma coisa invariante.

Se você observar a figura, verá as coordenadas Xa e Xc que representam a projeção dos pontos B e C no eixo X; ao passo que as coordenadas Ya e Yb representam a projeção dos pontos B e C no eixo Y.

Assim, a relação biunívoca é a projeção do ponto B em Xa e Yb, enquanto a outra relação biunívoca é a projeção do ponto C em Xc e Ya.

Ao mesmo tempo, é bícontínua, porque se imaginarmos uma esfera “navegando” de B a C, haverá uma relação bicontínua de projeções nos eixos X e Y.

Pois essa Topotesia, a rigor, vem a ser a Topologia, isto é, a ciência que debate sobre os problemas geométricos e as propriedades das figuras que sejam invariantes, mesmo que haja uma transformação biunívoca e bicontínua – esta é, enfim, a chamada Geometria da Continuidade, proposta por Euler, salvo engano.

Mas, voltando a Descartes: perguntemo-nos, afinal, o que possa ser uma coisa invariante.

Invariante é o ponto. Uma “coisa” da matemática, muito necessária aliás, sem a qual talvez eles, os matemáticos, não pudessem ir muito longe. Friso o talvez, porque essa gente extra-terrena, os matemáticos, é tão fantástica e genial que se não existisse o ponto, possivelmente, criaria algo semelhante para substituí-lo. Aliás, ponto não existe, tecnicamente – é uma ideia! Matemático sem o ponto é algo parecido a filósofo sem a interrogação!

(E aqui peço a eles, os matemáticos, mil desculpas pelos impropérios “matemáticos” que estou a dizer, consciente da ousadia – e algo me diz, lá no fundo confesso, que devo pedir desculpas aos filósofos também 8) ).

Eis agora o Cruzado de Direita que preparei para seu queixo amigo (que amigo!) – em guarda:

Descartes, ao meu modo de ver, conseguiu encontrar outra “coisa” invariante, além do ponto:

Deus.

Isto é, quero dizer: com sua Geometria Analítica, nas primeiras luzes de uma Topologia, Descartes preparava-se para encontrar os caminhos matemáticos que conduzem a Deus.

Aqui, obviamente, você, com aquela perspicácia que lhe é peculiar, logo se lembrará de Spinoza e da Ética demonstrada geometricamente, além de um sem-número de filósofos que buscaram caminho tão espinhoso – das matemáticas a Deus.

O estudante duma escola jesuíta (La Fléche) amadureceu, por fim, seus pensamentos. O único livro que o filósofo de Tours escreveu, de natureza matemática, foi o La géométrie, que encontra-se no terceiro apêndice do Discours.

Mas, o nome completo do Discours é Discours de la Méthode pour Bien Conduire sa Raison et Chercher la Vérité dans les Sciences (!). No corpo desse tratado, estavam os apêndices La dioptrique, Les météores e La géométrie. Contudo, o que é mais relevante, em meu ponto de vista, é que Descartes, com o Discours, a bem da verdade, preparava-se para o Meditationes, que visava esclarecer o que ele havia iniciado (pensado) no primeiro.

Noutras palavras: você há de perdoar-me, mas eu quero dizer que Descartes não fez outra coisa senão procurar por Deus, o invariante!

Seu La géométrie é dividido em três partes; a primeira trata de princípios algébricos, a segunda fala da superação das curvas e do método de construção de tangentes e, por fim, a terceira parte trata da resolução de equações de grau maior que dois.

Penso eu que o leitor debruçado, agora, sobre as Meditações em Filosofia Primeira, que mantiver na linha do horizonte essa – diria eu – pretensão matemática de Descartes, haverá de faze-lo com outros olhos.

Encontra-se lá (Segunda Meditação) a seguinte afirmação:

[1] Segunda Meditação

Em tantas dúvidas fui lançado pela meditação de ontem que, não sou capaz de as esquecer, nem vejo todavia o modo de as resolver. E, como se de repente houvesse caído em um poço profundo, minha perturbação é tal que nem posso firmar o pé no fundo, nem vir à tona. Esforçar-me-ie, contudo, para retornar ao caminho onde ontem ingressei, a saber, fazendo a remoção de tudo o que comporte a mais mínima dúvida, como se o descobrisse de todo falso. E prosseguirei até conhecer algo certo ou, na falta de outra coisa, que pelo menos reconheça como certo que nada há que seja certo. (grifo meu)

(DESCARTES, R. Meditações sobre Filosofia Primeira. Texto bilíngue. Trad e notas de Fausto Castilho. Campinas, IFCH, Traduções. 1999)

O dilema de Descartes parecia, portanto, doloroso, como se vê. Pois o nada não pode ser certo, de tal maneira que não há nada que seja certo. O certo é o Todo, ou o uno.

Aqui, está implícita aquela sentença posta pelo cogito ergo sum (penso logo existo) de Descartes. Se tenho dúvida e esta dúvida leva-me à certeza do nada, ou o que pensei é inteiramente falso, ou então não existo – como a deduzir pela máxima do penso logo não existo -. Logo, o método descarta (sem trocadilhos) o raciocínio que impõe dúvida, mas não exclui a coisa em si, necessariamente, porque apenas exclui a conclusão que se quer como ideia da coisa (isto é, a matemática cartesiana não é a coisa, mas a ideia da coisa).

Veja como Descartes continua seu parto doloroso:

[4] idem

Mas, de onde sei que não há algo diverso de todas as coisas cujo censo acabo de fazer e, a respeito de que não haveria a mais mínima ocasião de duvidar? Não há algum Deus, qualquer que seja o nome com que o chame, que tenha posto em mim esses mesmos pensamentos? Por que, na verdade, supô-lo, quanto talvez eu mesmo possa ser o seu autor? Não sou, portanto, eu pelo menos, algo? Mas, já me neguei a posse de todos os sentidos e de todo corpo. Hesito, entretanto.

Forte, não?

A luta que trava dentro de si, para dar a Deus aquilo que deveria ser, supostamente, fruto da razão, encontra em Descartes, aqui, o supremo martírio.

E não duvide da honestidade de propósitos dele!

Estamos, pois, diante de um gigante. Digo mais: Descartes está longe de merecer o título (ou o rótulo) de racionalista. Aliás, penso que é uma maldade, ou ironia de muito mau gosto, tratá-lo como tal.

É sobre isto, dessa busca do Inominável, que ele próprio diz. Veja:

[6] idem, ainda na Segunda Meditação

Sobre o corpo não tinha, na verdade, dúvida alguma e julgava conhecer-lhe a natureza distintamente. Se tentava talvez descrevê-la tal qual minha mente a concebia, explicava-o desta maneira: entendo por corpo tudo o que pode terminar por alguma figura, estar circunscrito em algum lugar e preencher um espaço do qual exclui todo outro corpo. É percebido pelo tato, pela vista, pelo ouvido, pelo gosto e pelo olfato e é, também, movido de muitos modos, não em verdade (à la verité - nota do tradutor) por si mesmo, mas por um outro, que o toca e do qual recebe a impressão (et dont il reçoive l’impression - nota do tradutor). Pois, ter a força de mover-se a si mesmo, de sentir e de pensar, de modo algum julgava pertencer à natureza do corpo. Ao contrário, ficava antes admirado de encontrar tais faculdades em certos corpos.

[7] Ora, eu, quem sou? (moi, qui suis-je – nota do tradutor), agora que suponho haver um enganador poderosíssimo e, se é permitido dizer, maligno, que de propósito empenhou-se, o quanto pôde, em me enganar em todas as coisas?

Onde ele quer chegar?

Na tese segundo a qual o movimento primeiro, pai de todos os movimentos, é promovido por Deus.

Eu, de minha parte, vejo a coisa como se fosse u’a mão de duas vias (e uma via de duas mãos): de lá para cá, Deus a produzir o movimento; daqui para lá, Descartes na busca desse primeiro movimento e, consequentemente, da coisa invariante que o produz – Deus.

Pode ser, admito, que esse movimento cartesiano no rumo do invariante seja uma vontade racional (ou vontade de poder, se você quiser) de compreender o Movimento de Deus. Mas, note, caro (a) Navegante: antes dessa vontade racional, há uma atitude ética que move o filósofo.

Chegamos à seguinte questão: é toda ética precedida de racionalidade?

Resposta: não.

Porque, agora, você deverá defrontar-se com algo bem mais complexo: a virtude!

Estamos, pois, a tratar de honestidade de propósitos, de vergonha, de prudência, de temperança, de justiça, de sentimentos, enfim.

Voltamos, como penso que Descartes voltou, à questão original posta por Platão, no Mênon: – “É possível ensinar a virtude? É a virtude uma ciência?”

Parece que a resposta do velho Sócrates foi: – Não. Virtude vem do hábito.

Concluindo, “Sr. Presidente”:

Ética vem do hábito. Os exemplos são fundamentais para dar ao povo o que ele merece: respeito.

Como dizia Lao Tsé:

Paradoxos creadores

Um governo que não aparece

Faz o povo feliz.

Um governo que tudo quer determinar

Faz o povo infeliz.

Felicidade repousa em renúncia.

Renúncia é a base da felicidade. [...]

(LAO-TSÉ. Tao Te King. Trad. de Huberto Rohden. SP, Alvorada, s/d)

Não sei dizer se Descartes leu o Tao Te King (é quase certo que não). Mas, nessa questão, a atitude ética da renúncia e da busca da felicidade, pode até ser desejada pela Razão, mas o ato de renunciar e o ato de ser feliz, estes se dão numa dimensão que transcende o plano da Física e do fisiologismo.

Como diz o título de Descartes, o problema sempre é o da verdade – Discours de la Méthode pour Bien Conduire sa Raison et Chercher la Vérité dans les Sciences.

Ramiro Corrêa (05/10/2007)

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