Editorial

Bem-vindo ao Blog Filosofix.
Obrigado por sua presença. Aqui é o recanto do si-mesmo como um outro.
Exatamente assim, de chofre, para empregar uma expressão bem ao molde de Paul Ricouer.
Blogs se apresentam como um local onde pessoas postam suas reflexões e esperam, sobretudo, uma interação com o leitor no plano das idéias. Neste caso, não é outra a nossa intenção: buscar uma identidade na mudança - uma espécie de ipseidade que agora se instala na web (virtual).
Note: se aquela ipseidade já era algo quase inaudito, anunciada lá atrás por João Duns Scoto e retomada por Ricoeur, agora ela ressurge na web (com o nome de Blog!), é dizer:
- para nós, Blog é nickname da ipseidade (ria se puder!). Não está longe no tempo, por volta de 1998: ainda encontrávamos resistências ao uso das ferramentas de comunicação na WEB; amigos nossos, muitíssimo preparados e com pensamentos sofisticados, opunham-se a trocar mensagens pelo então já velho ICQ. A Internet (web) soava-lhes como um absurdo sem fim e nada mais era superior ao contato olho-no-olho. Pois bem, destes amigos, hoje, continuamos a desfrutar das reflexões graças, principalmente, aos seus blogs.
Uma identidade na mudança: malgrado o tempo e o espaço - e acrescentamos, também a web -, continuamos os mesmos naquela parcela que nos dá a marca registrada, mas acrescentada das boas leituras em seus blogs. Seria como se disséssemos que fala e blog resistem contra o silêncio de intelectuais.
Alguns blogs têm rompido barreiras, de uma forma ou de outra, construídas pelas conjunturas… Lembremo-nos, por exemplo, do estardalhaço provocado pelas reflexões de certos intelectuais na louvação à ascenção ao poder das ditas “esquerdas”; parecia que Gramsci e seu pensamento, a cada conquista social, eram confirmados - chegaremos ao poder de uma forma ou de outra - e vivíamos às portas da plena descarga de todos os ressentimentos.
A imagem do diálogo Fedro apresenta-se agora. Naquela passagem onde Toth oferece a escrita a Tamuz, que a recusa (Fedro, 274-e e ss); ao mesmo tempo, no mesmo diálogo de Platão, por outro lado, a imagem de Sócrates a lembrar Fedro sobre os oráculos feitos por um carvalho, em Dodona:
“Sócrates - Dizem, caro amigo, que os primeiros oráculos no templo de Zeus, em Dodona, foram feitos por um carvalho! É evidente que os homens daquele tempo não eram tão sábios como os da nossa geração e, como eram ingênuos, o que um carvalho ou um rochedo dissessem tornava-se muito importante, conquanto lhes parecesse verídico!” (idem, 275-c)
De um lado, a escrita recusada. De outro lado, os oráculos escritos em pedra ou em madeira… mandamentos!
Nada como o tempo, enfim, para mostrar quem é quem!
Hoje, quando calam-se quase todos, dos discursos inflamados em prol das ditas esquerdas, reina silêncio; dos desconfiados, nada se sabe. Enrubecem-se as faces - ou talvez nem estejam preocupados; todos muito bem instalados, alguns sob as benesses do Poder, seguem a vida, uma publicação de apreço, e ponto final.
Pois eis o tema: silêncio ou blog no trombone (isto é, boca no trombone)?
Afinal, como dizia Martin Luther King, “o que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons”.
Dos amigos, com os quais muito aprendemos, temos, hoje em dia, a grata satisfação de ve-los também com a tal boca (blog) no trombone (aliás, como já o faziam antes, a confirmar quem eram, são e continuarão a se-lo), graças ao bom Deus. Seus blogs encurtam a distância física que nos separa, alimentam a distância intelectual que aflige, no combate ao simplismo e ao oportunismo da pior espécie.
Nesse rumo, achamos que todo blog, como esses dos amigos, torna-se a forma de representação de uma subjetividade solitária em trânsito.
Mas acontece que ao romper o silêncio (que envergonha diante das atrocidades politicas e éticas no mundo e em especial no país), os bons blogs estão a afirmar, nas entrelinhas, algo como “sou eu que estou a dizer, para que não se diga que eu não disse, e se você quiser, no lugar de elogiar-me, faça algo semelhante antes que se diga que você não disse”.
No Filosofix, portanto, fica declarada a recusa à rendição diante do silêncio.
Ainda que essa ruptura se dê como subjetividade solitária em trânsito, como identidade na mudança, sempre estaremos a buscar uma certa “moral da história”.
Por fim, justificadas as razões de um blog - dentro de nosso Portal Filosofix -, resta apontar para que rumo pretendemos seguir.
De tantas as opções que poderíamos escolher, dentre aquelas que de alguma forma pudéssemos sustentar, queremos refletir sobre o que possa vir a ser uma filosofia descomplexada.
Filosofia descomplexada: vamos lá…
Em primeiro lugar, não é mais época de ressentimentos, nem do discurso eivado de farpas. Já não é mais tempo das afirmações bombásticas e daquela arrogância acadêmica que só afirma sobre as costas dos gigantes. Apresenta-se o momento das perguntas, das sentenças terminadas por reticências, do escarafunchar que resulte em mais e mais dúvidas. Parece que chega (!) de sapiência, esbanjamento de sabedoria e de sabismos…
Em segundo lugar, um pouco mais de modéstia não faz mal a ninguém, mas muita faz mais mal ainda. De tal sorte que talvez seja o caso de perguntarmo-nos se algo passou despercebido dos “grandes” intérpretes da natureza, inclusive a humana.
Em terceiro lugar, seria o momento certo para a prática daquela chamada dúvida hiperbólica. Um dos amigos insistiu, tempos atrás, para que fizéssemos uma consulta ao precioso A Filosofia em Questão (da ed. Paz e Terra) de Pierre Fougeyrollas. Queriam ambos, o amigo e Fougeyrollas, mostrar-nos que se deve dar um basta também a essa forma temerária de silêncio, onde só se faz repetir e tagarelar o que disseram outros… e que é preciso avançar, seguir um certo instinto, buscar o novo, ensaiar.
Invocamos uma passagem do Massa e Poder, de Elias Canetti (ed. Cia das Letras, p. 288):
- ” Uma pergunta colossal é aquela que diz respeito ao futuro. Poder-se-ia chamá-la a pergunta suprema; é também a mais intensa de todas. Os deuses, aos quais ela é dirigida, não são obrigados a dar uma resposta. A pergunta que se faz ao mais forte é uma pergunta desesperada. Os deuses jamais se deixam aprisionar; não se pode penetrá-los. [...] Em contraposição a isso, o interrogatório restabelece o passado, e, aliás, em sua totalidade. Ele é dirigido contra os mais fracos.”
Nosso interesse: do passado, evitar o interrogatório; do futuro, indagar aos superiores…
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Como o mundo mudou, não?
O que permanece intacto é o jeito de ser si-mesmo como um outro. E, creia, é aí que reside a esperança.
Obrigado e volte sempre.
Ramiro.
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