Navegação









      Creative Commons License

    Pesquisa

    Explore o Blog:






    Cadastro

  • Register

  • Usuários Online


    Visitas à página



    Seguidores

    Siga o Blog



    Shoutbox

    Deixe sua mensagem
    Ultima Mens:
    3 days, 20 hours
     ago
    • Info : Por favor, resolva a soma abaixo antes de postar qualquer comentário...
    • Ramiro : Caro Wagner, aguardamos com expectativa um post seu de todos os assuntos; plantas, inclusive. Esteja sempre conosco. Obrigado. Você é fera, pelo que sei, sobre plantas. Grande abraço, Ramiro.
    • Guest_4805 : Ramiro: As profecias de Drucker sobre o "execivo efetivo" vão ser alvo de minhas leituras. Vou tentar entender a verdade sobre essas profecias e se realmente Thomas Hobbes foi o Peter Drucker do Século XVII. O assunto defesa natural em plantas (Trofobiose) V. deve ter visto sobre o que me esforço por entender. Ainda vou me inscrever como membro do Filosofix e daí poderei tentar dizer algo sobre isso. Já considero atvidade obrigatória em minha rotina diária, consultar seu Blog e o do P
    • Ramiro : Caro Wagner, eu sabia mas não podia arriscar. Obrigado, novamente, por sua gentileza. Fantástico notar como duas pessoas que não se conhecem pessoalmente se sintam IRMÃOS. Pena que eu não posso e não sei ler sobre FITOALEXINAS e PLANTAS em geral. Por que você não publica algo no FILOSOFIX como breves lições a todos nós? Seria genial. Grand'abraço.
    • Guest_534 : Presado Ramiro: escrevi outro dia para lhe dar parabéns pelas um milhão e meio de visitas ao blog Filosofix e não me identifiquei. Sou um leitor assíduo do Filosofix e aprecio muito as Fábulas do Lobo de três pernas e tudo que V. escreve.Gostei muito da crônica do dia dos pais. Wagner Luiz Polito
    • Ramiro : Obrigado, Guest_534. Abraços :)
    • Guest_534 : Ramiro: Como admirador incondicional de seu trabalho, parabenizo mais uma vez pelo enorme número de visitas. Cada vez mais. e espero por isso, continue com seu trabalho.
    • Ramiro : É você, MARRECO? o Guest_4099? Se for, um grande abraço, DR. Marreco, grande amigo! Se não é você, outro grande abraço, guest_4099 :) Seja quem for, somos ambos loucos, e vamos bater o recorde mundial do NÃO às safenas! :)
    • Guest_4099 : adorei este blog...
    • Guest_4099 : Adorei este blog...abraços !!!
    • Guest_4099 : maravilha...
    • Guest_4099 : vcs são malucos...

    Para ler as Mensagens
    todas  CLIQUE AQUI











    Imagens

    Slide Show do
    Sponholz 2009
    Get the Flash Player to see the slideshow.



    Para ver as imagens
    em tamanho natural

    Visite a Galeria
    (aqui)


    Links



    Categorias



    Arquivos



    Calendário

    Setembro 2010
    S T Q Q S S D
    « Ago    
     12345
    6789101112
    13141516171819
    20212223242526
    27282930  


    WebMail

    Acesso exclusivo ao
    Servidor de Emails

    Filosofix WebMail
    (aqui)


    O Membro do Blog,
    se artigo publica,
    WebMail de graça
    com direito fica

    you@filosofix.com.br

    Um exclusivo peça
    (aqui)


    Lembretes

    Se você me avisar,
    um link eu posso criar,
    os blogs vão se falar,
    e sós não iremos ficar.



    Prêmio

    Um dos poucos a
    ganhar charges do

    Sponholz!

    sponholz
    sponholz
    sponholz (clique para expandir)

    Mais o que?


    Máximas a pensar

    Não peças a quem pediu nem sirvas a quem serviu
    Provérbio português


    Exponha

    Exponha o logo de
    SEU BLOG

    Fale comigo - publique no Filosofix Desenvolve seu Blog no Filosofix Jogue Xadrez no Filosofix Online Chess Club
    Rent This AdIcon. Current Price: $50,00 (US) lifetime - 5 (US)/month Rent This AdIcon. Current Price: $50,00 (US) lifetime - 5 (US)/month Compre este espaço
    Compre este espaço Rent This AdIcon. Current Price: $50,00 (US) lifetime - 5 (US)/month Rent This AdIcon. Current Price: $50,00 (US) lifetime - 5 (US)/month
    Rent This AdIcon. Current Price: $50,00 (US) lifetime - 5 (US)/month Rent This AdIcon. Current Price: $50,00 (US) lifetime - 5 (US)/month Compre este espaço
    Rent This AdIcon. Current Price: $50,00 (US) lifetime - 5 (US)/month Rent This AdIcon. Current Price: $50,00 (US) lifetime - 5 (US)/month Compre este espaço
    AdIcons by AFH





    Imagens

    Para ver as imagens
    em tamanho natural

    Visite a Galeria
    (aqui)



    Camisas Pólo
    do Filosofix
    Get the Flash Player to see the slideshow.

    Para ver
    a Pólo Filosofix,
    (aqui)



    Slide Show dos
    Meus Recortes
    Get the Flash Player to see the slideshow.


















Estilo do Blog: [ Astex ] [ Crome ] [ Green ] [ Lotus ] | Twitter do Blog: AQUI ⇓  | Xadrez: AQUI ⇓
(site melhor visto em resolução 1280 x 800 com Firefox)

As ideias políticas de Robin Hood não estão ultrapassadas. Na verdade, o personagem mítico inglês faz parte do imaginário popular; poderíamos dizer, inclusive, que é um dos arquétipos que fazem sombras ao inconsciente coletivo.

Aliás, se assim for, teremos material para compreender alguns ângulos do modo de ser dessa gente. Sem perdermos de vista o inconsciente coletivo - nos moldes um tanto toscos, se comparados aos arquétipos de Jung -, façamos algumas aproximações entre o personagem dos bosques e os seres nem tão imaginários de nossa época.

Robin era um fora da lei. Nas fronteiras de todo movimento de hoje que seja fora da lei, invadem-se propriedades - inclusive a propriedade privada, cujo comunismo de Marx abomina -, com o lema propalado por Robin, o de roubar, ou tomar, dos ricos e dar aos pobres: se não foi daí que surgiu a expressão “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, pelo menos nisso a tese popular se consolidou.

Robin era amigo de Frei Tuck! Isto seria fantástico, se não fosse irônico 700 anos após… e mais assustadora a semelhança, era a amizade de Robin com João, o Pequeno!

E, como se vê, o mundo dá mesmo voltas surreais.

Robin viveu, se viveu, em torno do século XIII (e o número 13 sempre reaparece em chamas flamejantes).

Coincidência, dirão os céticos.

Robin foi uma espécie de escudeiro de Ricardo Coração de Leão.

Coeur de Lion, Oc et No, que seguiu para matar homens e mulheres árabes daqueles tempos: era chamado de Melek-Ric, por estes. E embora não tenha nada a ver, quase nada, com Ricardo III, da Casa de York, Ricardo Coração de Leão foi o comandante da Terceira Cruzada à Terra Santa. O último, Ricardo III, é parte da obra de William Shakespeare, e disse: “Meu reino por um cavalo”!

Foi daí, inclusive, que surgiu o conceito de utilidade marginal e de carência de abundância, que os economistas de hoje relacionam com a ideia de tornar a Economia a “ciência da escassez”, aquilo que é fruto das paixões e dos desejos humanos incontidos.

Então, nesta salada verdadeiramente russa, entre desejos, paixões, utilidade marginal, carência de abundância, Ricardo Terceiro, Ricardo Coração de Leão, vemos todos que há um espaço enorme para um fora da lei atuar: Robin Hood. E o terreno fértil torna-se, de certa forma, canteiro para “heróis”. O que rouba do rico e dá ao pobre.

Na verdade, Robin, em sua santa inocência bondosa, queria voltar a ser nobre.

Pouco tempo após Ricardo partir para as cruzadas - e lá ficou, diga-se de passagem, até concluir sua obra mortífera ou retornar vencido -, Robin, um de seus escudeiros, voltou à Inglaterra. Por que ele teria abandonado o rei é uma especulação a mais. Acontece que o príncipe John, herdeiro do trono, toma o lugar do irmão e segue-se daí uma série de injustiças. O Barão Locksley, pai de Robin, perde sua posição de nobreza e acaba por ser morto por John.

Como Robin não tinha onde morar, foi para os bosques, onde arregimentou um bando para atacar as terras da região da floresta de Sherwood.

O poema escrito por William Langand, em 1377, conta isto: Piers Polwman.

Robin usava um chapéu pontudo, com uma pena acima, que se chamava Hood.

Robin Hood at Blog Filosofix
 

No mito de Robin, há até uma mulher, Maid Marian, que é descendente de Ricardo.

Diz-se que ainda hoje, na região de Nottingham (centro da Inglaterra), há quem “veja” o espírito de Robin vagando. Até a árvore onde Robin reunia o “conselho dos ladrões” parece estar lá, para delírio ecológico.

De todos os fatos e controvérsias acerca de Robard, Robin, ou quem quer que seja, uma coisa é certa: ele era - e continua sendo - o bandido injustiçado que fez escola - repito: fez escola -, isto é: os pobres consideram-no a personificação do bem e os ricos alguém a temer.

Robin vive rodeado de “amigos” que o ajudam a cada nova ameaça; e não há nenhum motivo para crer que Robin também não era especialista em montar dossiês…

Mas, o que é mais intrigante na lenda de Robin, aquele que usava um Hood, é a lógica “comunista” que utilizava, que é a seguinte:

- Roubava dinheiro dos ricos e dava um pouco do produto roubado aos pobres.

Esta lógica é de uma estupidez sem tamanho! Porque “não faltará quem duvide” (sentença utilizada por Aristóteles no Categorias) de isto não funcionar a contento. Todos sabem, ou deveriam saber, que alguém com dinheiro na mão não faz outra coisa a não ser comprar algo que o dinheiro possa pagar (ou guarda no cofrinho, como sugeria Benjamin Franklin, citado por Max Weber no Ética protestante e o “espírito” do capitalismo). Mesmo que seja algo absolutamente necessário, como, por exemplo, comida ou remédios.

E quem vende?

Noutras palavras, tudo é questão de tempo, para que a renda volte a ser concentrada nas mãos de quem tem para vender.

A este respeito, era bom ler Oscar Wilde, que reproduzo. Ele critica a fala exacerbada e meticulosamente montada, num texto de 1891, sob o título:

Desobediência: A Virtude Original do Homem

Pode-se até admitir que os pobres tenham virtudes, mas elas devem ser lamentadas. Muitas vezes ouvimos que os pobres são gratos à caridade. Alguns o são, sem dúvida, mas os melhores entre eles jamais o serão. São ingratos, descontentes, desobedientes e rebeldes - e têm razão. Consideram que a caridade é uma forma inadequada e ridícula de restituição parcial, uma esmola sentimental, geralmente acompanhada de uma tentativa impertinente, por parte do doador, de tiranizar a vida de quem a recebe. Por que deveriam sentir gratidão pelas migalhas que caem da mesa dos ricos? Eles deveriam estar sentados nela e agora começam a percebê-lo. Quanto ao descontentamento, qualquer homem que não se sentisse descontente com o péssimo ambiente e o baixo nível de vida que lhe são reservados seria realmente muito estúpido.

Qualquer pessoa que tenha lido a história da humanidade aprendeu que a desobediência é a virtude original do homem. O progresso é uma consequência da desobediência e da rebelião. Muitas vezes elogiamos os pobres por serem econômicos. Mas recomendar aos pobres que poupem é algo grotesco e insultante. Seria como aconselhar um homem que está morrendo de fome a comer menos; um trabalhador urbano ou rural que poupasse seria totalmente imoral. Nenhum homem deveria estar sempre pronto a mostrar que consegue viver como um animal mal alimentado - o que para muitos é uma forma de roubo. Quanto à mendicância, é muito mais seguro mendigar do que roubar, mas é melhor roubar do que mendigar. Não! Um pobre que é ingrato, descontente, rebelde e que se recusa a poupar terá, provavelmente, uma verdadeira personalidade e uma grande riqueza interior. De qualquer forma, ele representará uma saudável forma de protesto. Quanto aos pobres virtuosos, devemos ter pena deles, mas jamais admirá-los. Eles entraram num acordo particular com o inimigo e venderam os seus direitos por um preço muito baixo. Devem ser também extraordinariamente estúpidos. Posso entender que um homem aceite as leis que protegem a propriedade privada e admita que ela seja acumulada enquanto for capaz de realizar alguma forma de atividade intelectual sob tais condições. Mas não consigo entender como alguém que tem uma vida medonha graças a essas leis possa ainda concordar com a sua continuidade. Entretanto, a explicação não é difícil, pelo contrário. A miséria e a pobreza são de tal forma degradantes e exercem um efeito tão paralisante sobre a natureza humana que nenhuma classe consegue realmente ter consciência de seu próprio sofrimento. É preciso que outras pessoas venham apontá-lo e mesmo assim muitas vezes não acreditam nelas. O que os patrões dizem sobre os agitadores é totalmente verdadeiro. Os agitadores são um bando de pessoas intrometidas que se infiltram num determinado segmento da comunidade totalmente satisfeito com a situação em que vive e semeiam o descontentamento nele. É por isso que os agitadores são necessários. Sem eles, em nosso estado imperfeito, a civilização não avançaria. A abolição da escravatura na América não foi uma consequência da ação direta dos escravos nem uma expressão do seu desejo de liberdade. A escravidão foi abolida graças à conduta totalmente ilegal de certos agitadores vindos de Boston e de outros lugares, que não eram escravos, não tinham escravos nem qualquer relação direta com o problema. Foram eles, sem dúvida, que começaram tudo. É curioso que dos próprios escravos eles só receberam pouquíssima ajuda material e quase nenhuma solidariedade. E, quando a guerra terminou e os escravos descobriram que estavam livres, tão livres que podiam até morrer de fome livremente, muitos lamentaram amargamente a nova situação. Para o pensador, o fato mais trágico da Revolução Francesa não foi que Maria Antonieta tenha sido morta por ser rainha, mas que os camponeses famintos da Vendée tivessem concordado em morrer defendendo a causa do feudalismo. [1]

Assim sendo, roubar dos ricos e dar aos pobres é uma forma anormal - ou até mesmo uma tentativa paranormal - de regular o mercado das paixões, da carência de abundância, e de continuar fazendo com que aquilo que era “utilidade marginal” continue a ser. Porque, não é o dar aos pobres o que havia sido possuído pelos ricos: o problema está no roubar! Da mesma forma que roubar terras dá no mesmo, uma vez que ou todos usufruem dos produtos da terra, ou vendem o excedente para os ricos comprarem, e entra-se no ciclo vicioso da concentração de renda afinal.

Mas não é privilégio inglês, europeu ou até norte-africano, as lendas dos Robin Hoods. A América do Sul tem alguns exemplos de Robin Hoods que são, inclusive, considerados símbolos sexuais por candidatas às presidências de suas repúblicas. Tais Robins identificam-se com os mais diversos ornamentos: houve um que no lugar do Hood usava uma Boina e matava por encomenda; há outro que usa Roupas de Guerra, dessas de exércitos; há quem use Batinas; há quem use Ponchos; e há até quem use uma fantasia originalíssima - Cuecas Recheadas de Dinheiro e Pastas de Executivos com Dossiês!

E se formos olhar bem, eles aparecem também na América do Norte, com Dilinger, Al Capone, e tantos outros que mataram índios à vontade, com carabinas como quem mata bisão, “sem ferir nenhum preceito cristão”, como disse o famosíssimo filósofo: “Destruir pessoas com mais respeito pelas leis da humanidade seria impossível”, afirmou certa vez Alexis de Tocqueville. Estava dedicado a observar as características indispensáveis da “ciência e do espírito militar”, de origem cultural europeia, quando do movimento no exército americano que expulsava os índios de suas moradias em pleno inverno, dando lugar para a “marcha triunfal da civilização através do deserto”. Os colonizadores, “cowboys” que do velho oeste haviam nascido, e que entre os bravos se criaram, cujos nomes lendas se tornaram, tais como Bat Masterson, Billy the Kid, Bufalo Bill, nada teriam a ver com Hegel, exceto por este possível amor pelas guerras e pelas conquistas de territórios virgens, habitados apenas por selvagens, exterminados, ainda segundo Tocqueville, “com singular ventura, tranquilidade, legalmente, filantropicamente, sem derramamento de sangue e sem violar um único grande princípio aos olhos do mundo”[2].

Robin Hood! “Sem perder a ternura”!

No fim das contas, Robin casou-se com Marian e voltou ao posto de nobreza, para lá alçado por Ricardo, do Coração de Leão.

E os pobres? Continuaram pobres, mas jogavam flores ao chão, toda vez que Robin e Marian passavam, felizes da vida, exatamente como Oscar Wilde traduziu e toda e qualquer eleição traduzirá, sempre que algum Robin Hood for candidato. Se houvesse eleições, no século XIII, Robin Hood teria, com toda certeza, 80 % de aprovação popular e, também com toda certeza, filósofos como Alexis de Tocqueville diriam dele:

- Um homem que age “com singular ventura, tranquilidade, legalmente, filantropicamente, sem derramamento de sangue e sem violar um único grande princípio aos olhos do mundo”.

É que, neste emaranhado mundo do inconsciente coletivo jungiano, especialmente num país de maioria esmagadora cristã, irônico é ver um comunista aplicar o mesmo princípio cristão de que “quem dá aos pobres empresta a Deus”, com dizem Freis Tucks.

Mas, na versão Crística, a história é outra:

Evangelho de Mateus, 19,23-30

É mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus.

Naquele tempo: 23 Jesus disse aos discípulos: ‘Em verdade vos digo, dificilmente um rico entrará no Reino dos Céus. 24 E digo ainda: é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus.’ 25 Ouvindo isso, os discípulos ficaram muito espantados, e perguntaram: ‘Então, quem pode ser salvo?’ 26 Jesus olhou para eles e disse: ‘Para os homens isso é impossível, mas para Deus tudo é possível.’ 27 Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: ‘Vê! Nós deixamos tudo e te seguimos. O que haveremos de receber?’ 28 Jesus respondeu: ‘Em verdade vos digo, quando o mundo for renovado e o Filho do Homem se sentar no trono de sua glória, também vós, que me seguistes, havereis de sentar-vos em doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel. 29 E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos, campos, por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá como herança a vida eterna. 30 Muitos que agora são os primeiros, serão os últimos. E muitos que agora são os últimos, serão os primeiros.

postado por Ramiro Corrêa (07/09/2010)

  1. Cf. WOODCOK, G. Citando WILDE, O. The soul of man under socialism. In: Os grandes escritos anarquistas. pp. 66-68 []
  2. Cf. CHOMSKY. Camelot, os anos Kennedy. Citações a A. Tocqueville de Chomsky, p. 14 []


Outra conferência de Armand Abécassis ocorrida em Paris neste mês de setembro de 2010 e publicada em vídeo no site da Akadem - Paris (AQUI).

Armand Abécassis, marroquino de 4 de abril de 1933, tornou-se escritor premiado em França e professor de filosofia geral e comparada na Université Michel-de-Montaigne (Bordeaux III). Sua linha de pesquisa principal volta-se para o diálogo fecundo entre o judaísmo e o cristianismo.

Dentre as principais obras de Abecassis destacam-se as seguintes:
 
- Armand Abécassis, Judas et Jésus une liaison dangereuse (Editions 1, 2001)
- Armand Abécassis, Judaïsmes : De l’hébraïsme aux messianités juives (Albin Michel, 2006)
- Armand Abécassis, En vérité je vous le dis : une lecture juive des Evangiles (Le Livre de Poche, 2001)
- Armand Abécassis, L’Univers Hébraïque : Du monde païen à l’humanisme biblique (Albin Michel, 2003)
- Armand Abécassis, Puits de guerre, sources de paix : Affrontements monothéistes (Seuil, 2003)
- Armand Abécassis, Les temps du partage (Albin Michel, 1993)
- Armand Abécassis, La lumière dans la pensée juive (Berg International, 1992)
- Armand Abécassis & Georges Nataf, Encyclopédie de la mystique juive (Berg, 1977)
- Armand Abécassis, La mystique du Talmud (Berg, 1994)
- Armand Abécassis et Josy Eisenberg, A Bible ouverte (Albin Michel, 1978)

Nesta conferência, Abécassis analisa a Lei como fonte da vida, nas palavras de Moisés.

O título da conferência é:

Le testament de Moïse notre maître

 
Haazinou: penser le sens de la mémoire (40 mn)
Armand Abecassis, Philosophe, écrivain
Séfarim - Paris, septembre 2010

Clique abaixo para ouvir:

postado por Ramiro (07/09/2010)



postado por Ramiro (06/09/2010)



Eu iria ganhar, de aniversário, a Ilíada, de Homero.

Mas não seria uma Ilíada qualquer, dessas que de qualquer não tem nada, porque não há Ilíada qualquer, por qualquer que seja. Seria uma Ilíada em Grego! E Português! Bilíngue! Dessas em que o tradutor traduz, e de tão bom que é coloca ali ao lado o texto em Grego, como quem diz: - Duvida? Então traduza você mesmo, ora essa!

Já imaginou? Eu iria ganhar uma Ilíada dessas!

Eu teria um problemaço com essa Ilíada; um, não; aliás, dois problemas: o primeiro deles seria que eu viveria, o resto de minha vida (que já é resto mesmo, não falta muito), para ler e memorizar, memorizar e “cantar”, como se fazia antigamente, bem antigamente mesmo, “pelo que ouvi dizer”.

A minha Ilíada quem traduziu foi o Carlos Alberto Nunes [1], em verso. Belíssima! Já é velhinha, quase tanto quanto a própria Ilíada. Toda usada, revirada, amassada e, sobretudo, amada.

Canto I

“Canta-me a cólera - ó deusa! - funesta de Aquiles Pelida,

causa que foi de os Aquivos sofrerem trabalhos sem conta

e de baixarem para o Hades as almas de heróis numerosos

e esclarecidos, ficando eles próprios aos cães atirados

e como pasto de aves. Cumpriu-se de Zeus o desígnio” [...]

 

Cumpriu-se de Zeus o desígnio, como disse Homero; e, então, eu iria ganhar uma Ilíada em Grego! Isto é, Grego e Português! Não porque eu quisesse conferir, cotejar, verificar traduções, nada disso. Mas tentar ouvir, de lá de longe, os sons dos versos!

Foi aí que descobri tudo: minha filha daria o presente a mim; mas, como ela é especialista nisso de ver o pai embaraçado, resolveu que me daria minha Ilíada a partir do volume II…

Mas, que graça tem ganhar a Ilíada da metade para o fim? E onde ficam os versos iniciais? Aqueles em que o Aquiles briga com o Agamêmnon, por culpa da Briseide? No volume I?

Por que minha filha faria uma maldade tamanha dessas, logo comigo? Um presente de Tróia, como vingança pelo cavalo que Odisseu ofereceu aos troianos? E eu que pago o pato?

E disse-lhe assim:

- Não quero mais a minha Ilíada! De aniversário, não! Você me dê uma caneta Parker daquelas antigas, que só se acham em relicários ou coisas do gênero! Mas a minha Ilíada, assim dividida - e dividida mesmo -, eu não quero mais!

- E onde eu vou encontrar uma caneta Parker, tinteiro, antiga, igual à de meu avô? Onde?, ela perguntou-me.

- Pergunte ao Homero, ora essa! O Homero deve ter escrito a Ilíada dele com uma Parker 51, tinteiro, daquelas que pouca gente pode ter, que seu avô tinha, e que me foi roubada sabe lá Deus por quem!

Então, ficamos assim! Fico sem minha Parker 51, sem minha Ilíada porque não quero a minha Ilíada assim. Eu até queria a minha Ilíada, fosse dada por quem fosse, se quem me desse a minha Ilíada pudesse ler, imediatamente, comigo, o volume I; mas o volume II, para ser lido após minha filha formar-se (isso de esperar filhos estabilizados?), com neto no colo, ler em Grego pra ele, ensinando ao neto palavras aqui, versos acolá, ao meu neto, eu e ele, ele e eu, lendo a minha Ilíada? O volume II? Só no futuro?

Olha aqui: lá eu estarei olhando o que passou; aqui eu estou olhando o que virá? Não! Não quero, não! Eu sofreria demais de tanto esperar.

Tanto o volume II quanto o volume I, de minha Ilíada, não quero mais! Assim, de jeito nenhum!

Vou procurar uma Parker 51, com tampa folheada a ouro. Ainda acho! Mas minha Ilíada, fico com a que tenho, já velhinha e toda amassada, rabiscada, amada inclusive: é só minha mesmo.

Marina que se vire! Que arranje um jeito de, no meu dia, tentar me encontrar, pelo menos recitar um verso de “minha” Ilíada pelo telefone celular. Ouvirei calado; um calado inenarrável! Pode ser do volume II mesmo. Ouvirei.

E imaginarei Homero escrevendo o volume I com uma Parker 51, talvez aquela que me foi roubada e que me pertenceu, por herança.

Postado por Ramiro (05/09/2010)

  1. Coleção UNIVERSIDADE, EDIOURO []


Premio Dedo de Pilatos at Blog Filosofix

Prêmio Dedo de Pilatos ao novo integrante do bando!
 


Enquanto isso:

Premio Dedo de Pilatos at Blog Filosofix
 


E enquanto isso:

Premio Nun Fallen Chin at Blog Filosofix

Prêmio Nun Fallen Chin ao novo integrante do bananal!
 


postado por Ramiro (03/09/2010)



postado por Ramiro (01/09/2010)



Um dos personagens que mais estudei ao longo dos anos foi o Bobo da Corte. Este senhor é espetacular e pode ser encontrado pelos quatro cantos do mundo, em várias literaturas, sempre com o mesmo nome, isto é, Court Jester, Fou du Roi, Narr, e semelhantes.

O que eu não sabia - para grata surpresa - é que Sigmund Freud também admirava o personagem.

Repito, assim, um artigo que publiquei em março do ano passado, aqui no Filosofix. Tem um certo sentido, quase hermético, mas, seja como for, dá bem a ideia de quem é o Bobo. Ao final, comento sobre as leituras de Freud a respeito.


Conselhos do Bobo da Corte para Profissionais

O que é um amador? É alguém que faz, para si mesmo, a apologia da própria tribo.

Há dois tipos e meio de amadores: o amador profissional (o parasita), o amador com profissão (o hospedeiro) e o indefinido, que ainda não tem certeza da opção (o agregado).

O amador com profissão (hospedeiro) é aquele que luta a semana toda, ano após ano, para ser sem profissão momentaneamente. Seu sonho é ser parasita de seus parasitas. Em suas horas de folga, vê a importância e a dimensão de sua hotelaria, pois é quando, dispensado de servir, de ordenar e obedecer, veste a roupa de parasita e conclama seus parasitas para serem hospedeiros.

Todos juntos, assim, nunca sabem, realmente, a quem cabe o papel de Bobo da Corte que, no mundo exterior, é destinado àqueles que se atrevem por uma aproximação ao bando. Geralmente, a arte do Bufão é destinada ao matriarcado; esta, por sua vez, naquelas reverências desmesuradas, no dobrar de colunas exagerado, atua com predisposição e aguarda, ansiosamente, a hora em que poderá, novamente, despir-se da bufonaria e tornar-se novamente parasita. Com ares de sabedoria, sempre diz sem nada dizer:

- Sou mais sábia que tu, meu Rei!

Imensa ironia!

Invertidos ou não os papéis, o amador com profissão (o hospedeiro) é aquele que, então, baba ovos dos outros amadores profissionais (os parasitas), estes que não conseguem (ou não querem) ganhar o próprio sustento como amadores com profissão. Os amadores, todos eles, parasitas e hospedeiros, são aqueles que se dizem: vivo minha vida para sustentar os parasitas e os hospedeiros que somos, uns por uns, todos por todos e nenhum por nenhum.

O amador é aquele que precisa ser amador, caso contrário sentir-se-ia ultrajado por, como profissional, sustentar amadores.

Sua virtude primeira é o sentido de ultraje: para amadores, parasitas ou hospedeiros, tudo pode menos uma coisa: ser ultrajado por um dos seus na função que exerce. O parasita jamais aceitará que se lhe diga: seja hospedeiro de si mesmo! O hospedeiro jamais aceitará que se lhe diga: seja parasita de si mesmo!

Firmada a regra moral interna do ultraje, tudo o mais é possível: que se acusem mutuamente, que tenham amantes e sejam ignorados convenientemente, tudo é passível de perdão. Menos a quebra da regra do ultraje. Que transgridam hábitos e costumes, que se ofendam a toda hora. Nada importa, desde que os laços de dependência mútua permaneçam fortes o suficiente para que, ao mudarem, perpetuem para sempre o estar e ser parasitas e hospedeiros.

Os amadores não fazem cerimônia quanto a isto: se alguém lhes quiser mostrar a autonomia, eles, mais que depressa, mostram a estrada onde se dá o passeio.

Os amadores trocam muitos carinhos entre si: parasitas e hospedeiros gostam de espremer cravos uns nos outros, têm preferência por certos tipos de cortes de unhas e cabelos, usam roupas uns dos outros, bebem nos mesmos copos, tomam banhos juntos e se esfregam em todas as partes, mesmo que um dos parasitas tenha trazido para o meio um outro parasita do mundo exterior (conhecido como agregado) que aceitou ser corrompido em troca de alguns trocados para as despesas do fim de mês.

Os amadores, comumente, dormem juntos e nus na mesma cama; ali também fazem sexo, que eles tratam com o título distintivo de Amor. Via de regra, não têm uma cama exclusiva e toda cama é cama para se deitarem. Juntos ou separados, as experiências devem ser partilhadas necessariamente, até mesmo no bom dia aguardado, no café da manhã. Enrolados em roupões, cabelos molhados do banho reconfortante, conversam, nessas horas, sobre amenidades. Reina a paz dos amadores, tão duramente conquistada ao preço da manutenção daquele sentido de ultraje. Sexo, entre amadores, pode ser feito e é muito apreciado, mas desde que todos saibam que hora de sexo, é hora de sexo. Por isso, nas gavetas dos amadores existem coleções de camisinhas, que são usadas indiscriminadamente. Geralmente, quando uma das camas dos amadores está ocupada para sexo, os demais, com muito recato e elegância, para não incomodar, dão as costas. Tudo é feito na maior tranquilidade, ao sabor das pipocas e de algum filme de guerra ou de aventura, no aparelho de dvd. Nunca poderá existir espaço exclusivo para atividade solitária e, por isso, são incentivadas as conversas ao telefone a qualquer hora, especialmente nas madrugadas, quando qualquer amigo ou parente do grupo pode pedir e deve interferir no silêncio macabro que ponha em risco o pensar subversivo contra o estado de coisas nadificante do um em detrimento do todo.

São exemplos perfeitos de Édipos, Jocastas, Laios, Crisipos, Etéocles, Polinices.

Procure-se lá, naquele meio, alguma Antígona e não será encontrada.

Geralmente, o hospedeiro é algum tipo de Édipo, com algum problema evidente, como o rei de Tebas tinha os pés inchados (Oidípus, aquele dos pés inchados). Geralmente, os parasitas se apiedam dessa condição miserável e encenam a peça trocando papéis, num eterno exercício de parasitagem e hospedagem.

Na verdade, o amador, seja qual for, parasita ou hospedeiro, é aquele que ama a dor dos amadores que não conseguem se profissionalizar porque tornaram o amadorismo a melhor das profissões: aquela de sustentar seres que sustentam e aquela de sustentar os sustentados.

Na verdade, o amador é aquele que diz amar, amador, fazedor de amor, o pobre coitado que é sempre coitado nos coitos que ignora, nas alcovas, pelos amadores que ele próprio sustenta. Mas ao dizer-se amador, por incrível que possa parecer, diz aos quatro ventos que amor não existe, exceto o amor do amador.

Em nosso mundo, o sentido da palavra é bem claro e, ao mesmo tempo, obscuro; o indivíduo que tem tempo livre pela frente para tirar a chapinha de profissional do peito, as insígnias, mais que depressa torna-se seu próprio objeto de desejo, porque, afinal, viveu a vida parasitando e engordando a própria vida e precisa, urgentemente, dar alimento aos sangue-sugas, caso contrário explodiria seu próprio ego inflado.

Faz-se de coitado, evidentemente. Passa-se por dedicado, apropriadamente. Diz-se injustiçado, prudentemente. Seu prêmio individual é o diploma de bom hospedeiro, o reconhecimento vindo dos parasitas, que não poderia deixar de ser diferente.

Age de má-fé com o rosto mais cândido do mundo.

Assim, como excepcional chantagista, torna todos os demais amadores na arte de parasitar e na arte de premiar hospedeiros, em especialistas na arte da prostituição.

Mas, de repente, parecem acordar de um lindo sonho que se torna pesadelo: descobrem que as larvas criadas querem sugar em outras paragens. Eis que se levantam, altivos e imponentes, para reclamarem suas partes nas orgias dos vampiros:

- Você não pode me deixar agora! Para onde for, leve consigo a ingratidão em pessoa, que sou eu!

Os amadores, no mais das vezes, se apresentam em público muito bem trajados: um óculos de sol (utensílio fundamental), uma bermuda, um biquini, um tênis, uma sandália leve e a frase estampada na testa: - Mundo! Aqui vou eu!

Claro: eles olham o mundo como uma enorme piscina. Se o virem como oceano, deixam o salto para mais tarde, em terra firme, no fundo do quintal, nas águas mornas do clube ali ao lado.

Suas roupas para as noites de espetáculos também são meticulosamente escolhidas, a dedo, pelo matriarcado. Eles se dão perfumes, bijuterias, jóias, sapatos, automóveis, calcinhas e cuecas. Dão-se salões de beleza e cartões de créditos e débitos. Ao final, enchem o carro com seus amadores prediletos e vão comer pizza na primeira esquina lotada que houver. Têm sempre dinheiro no bolso – conquistado na profissão amadora – para dar aos seus amadores que estão no mundo a passeio. Seus olhos traduzem aquele olhar perverso da lição vulgar e criminosa que diz: você não precisa trabalhar, sugue em mim; você não precisa oferecer seu esforço, deixe que eu o sugue em você.

No fundo, os amadores buscam o prazer, a ferro e fogo. Reside nisto a coisa mais estranha! Vieram ao mundo a passeio, a ferro e fogo. Vivem suas vidas. E não haveria mal algum nisso, de ser amador, se não fosse por um pormenor:

- Amadores, além de tudo, para proveito próprio, são como miragens que atraem quem os vêem, de longe, pensando lá haver um oásis.

Eis que é chegada a hora dos cuidados profissionais:

Há, sempre, o risco de algum profissional envolver-se com tais amadores. O risco, enorme, de algum profissional, inadvertidamente, apaixonar-se por um desses amadores. O risco, enorme, de algum profissional, inocentemente, pensar ser possível receber de amadores um pouco de amor. O risco, enorme, de algum profissional, ingenuamente, tornar-se parte desse jogo absurdo dos ocupados com eles mesmos. Ser comprado por um prato. Perder a vergonha. Acostumar-se. Como fazem os agregados que vinham, tranquilamente, pela vida e sentiram sede na hora errada. Ganharam, em troca, o sumidouro.

Profissionais inadvertidos, inocentes, ingênuos, podem ser sugados para o seio desse bando de desocupados.

Porque, rigorosamente, os profissionais, estes sim são legítimos tolos (amadores no sentido original do termo). Deviam aceitar conselhos. Aos amadores (no sentido pervertido e consagrado do termo), não há conselhos possíveis: eles são espertos demais para os aceitarem.

Profissional:

Court Jester at Blog Filosofix
 

- foge dos amadores.

- não crê em amadores; eles mentem e a mentira começa e termina neles.

- não tenta salvar um amador (nem mesmo o agregado); amadores não precisam de ajuda.

- nem pensa, jamais, que amadores dar-te-iam ouvidos; eles não mudam e sempre dizem: vamos mudar.

- não percas tempo com amadores, pois isto seria anti-cristão. Até Jesus, o Rei dos Profissionais, sugeriu que não se deve lançar pérolas aos porcos.

Esse tipo de gente (parasitas, hospedeiros e agregados) não vale um prato de feijão.

E por mais que estejas infeliz onde estás, profissional, ou a meio caminho da tua liberdade, não entrega teus esforços a amadores. Tu serás corrompido. Tu sofrerás. Tu comerás do pão que o Diabo amassou com o próprio rabo. Tu sentirás na carne viva o sabor da traição, da omissão, da falsidade, da inveja, do desdém. Sobretudo, do desdém. Tu verás que será bem melhor continuares assim como estás, na merda de tua luta honesta, que nutrir esperança e doar-te para algum amador; pois, nisto, a má-fé tomaria, em si mesma, o lugar de tua autonomia.

postado por Ramiro Corrêa (15/03/2009)


Agora, vamos a Freud e o Bobo da Corte, propriamente.

Diz o Pai da Psicanálise, em Interpretação dos Sonhos: [1]

FREUD. Interpretação dos Sonhos, cap. IV A distorção dos Sonhos (p. 176-177)

[...] A polidez que pratico todos os dias é, numa grande medida, uma dissimulação desse tipo; e quando interpreto meus sonhos para meus leitores, sou obrigado a adotar distorções semelhantes. O poeta se queixa da necessidade dessas distorções, com as palavras:

Das Beste, was du wissen kannst,
Darfst du den Buben doch nicht sagen.
 

Dificuldade semelhante enfrenta o autor político que tem verdades desagradáveis a dizer aos que estão no poder. Se as apresentar sem disfarces, as autoridades reprimirão suas palavras - depois de proferidas, no caso de um pronunciamento oral, mas de antemão, caso ele pretenda fazê-lo num texto impresso. O escritor tem de estar precavido contra a censura e, por causa dela, precisa atenuar e distorcer a expressão de sua opinião. Conforme o rigor e a sensibilidade da censura, ele se vê compelido a simplesmente abster-se de certas formas de ataque ou a falar por meio de alusões em vez de referências diretas, ou tem que ocultar seu pronunciamento objetável sob algum disfarce aparentemente inocente: por exemplo, pode descrever uma contenda entre dois mandarins do Império do Meio (na China), quando as pessoas que de fato tem em mente são autoridades de seu próprio país. Quanto mais rigorosa a censura, mais amplo será o disfarce e mais engenhoso também será o meio empregado para pôr o leitor no rastro do verdadeiro sentido.

Freud at Blog Filosofix
 

Notemos bem os termos utilizados por Freud: “mais amplo será o disfarce e mais engenhoso”, “ocultar seu pronunciamento objetável”, “falar por meio de alusões”, “se as apresentar sem disfarces”, etc.

Como sabemos todos que Freud era “devoto” de Shakespeare, é quase certo que ele sabia algo sobre Hamlet e Ottelo. Aliás, foi numa das peças de Shakespeare que Freud teve seu grande “insight” da psicanálise.

E dizia Shakespeare, no Ato III, cena IV, de Otelo, o mouro de Veneza[2], sobre a vítima de intrigas. A belíssima Desdêmona, para salvar a corte e a si mesma, busca informações sobre Cássio; ao que seu Bufão responde:

in Otelo.

“Catequizarei todo o mundo para encontrá-lo, ou seja, farei perguntas e por meio delas darei minhas respostas”.

Claro que em “minhas respostas” está condicionada a decisão do Bufão em dizer o que bem entender. Mas, Desdêmona insiste na urgência de seu pedido, porque quer, e não pode prescindir das intenções de comover seu senhor; o Bufão retruca à dama:

in Otelo.

“Fazer isto entra no círculo das coisas que podem ser abarcadas pelo engenho humano e, portanto, vou tentar realizar”.

No original, a passagem é a seguinte:

Othello, The moor of Venice. Act III, scene IV. - Cyprus. Before the Castle.

Enter Desdemona, Emilia, and Clown.

Des. Do you know, sirrah, where Lieutenant Cassio lies?

Clo. I dare not say he lies anywhere.

Des. Go to: where lodges he?

Clo. To tell you where he lodges is to tell you where I lie.

Des. Can anything be made of this?

Clo. I know not where he lodges; and for me to devise a lodging, and say he lies here or he lies there were to lie in mine own throat.

Des. Can you inquire him out, and be edified by report?

Clo. I will catechize the world for him; that is, make questions, an by them answer.

Des. Seek him, bid him come hither: tell him I have moved my lord on his behalf, and hope all will be well.

Clo. To do this is within the compass of man’s wit; and therefore I will attempt the doing it. [Exit]

É dizer: obter informações é fácil, está no rol da espionagem, da catequese, da interpretação, subsumido até na interpretação dos sonhos; mas, convencer depende da astúcia, do engenho, do terrorismo. E isto, tanto na psicanálise e na interpretação dos sonhos - segundo o próprio Freud - quanto na política.

Somos, na verdade, Bobos da Corte como o Bobo francês do XIII, Robert le Diable, o Bobo Tarlton do reinado de Elizabeth I, Archy, Claus Hinsse do Duque Johann Friedrich von Pomerania, Wamba - Bobo de sir Walter Scott (Ivanhoé) -, Claus Narr, entre outros; como, na Índia, era Tenali Rama, Bobo do Rei Krsnadevaraya; na Pérsia, o Bobo Karim Shir’ei, do autocrático Xá Naseredin (1848-96) que se divertia com seus cortesãos a tremerem diante de seu Bobo que ridicularizava a todos, inclusive o xá. Ou mesmo somos como aparições de Chicot, de Henrique IV; de Armstroong, de Carlos I; de Triboulet, de Francisco I; de Rigoletto, do Duque de Mântua; bobos que se julgam os absurdos e as inconfidências às que têm acesso, somos os Bobos das Cortes absurdos vivos porque confidentes; temos funções de conselheiros e críticos (psicanalistas ou críticos da ausência de ética na política), distintos de artistas prestidigitadores, que tornam segredos de Estado como segredos ambulantes, dos dossiês fajutos, das razões mais íntimas dos corações, dos motivos de pilhérias.

Das razões mais íntimas dos corações, como o texto que reproduzi ao início.

Das razões mais íntimas.

Acontece que entre rei e súditos, destaca-se o jogo de revelação dos segredos de uns e outros, ações recorrentes de terrorismo e espionagem que fundam o cotidiano do aparelho de Estado.

Numa palavra: anamorfose - ou a arte de revelar escondendo e de esconder revelando.

E para que servirá o conhecimento pelo Bobo da Corte e como desfazer-se de tal saber? Qual é a utilidade posta como necessidade de ocultamento ou exposição ao ridículo?

Chama a atenção o fato de nós, os Bobos, termos pouco a ganhar, em face de todas as imprecauções, ou quase nada a perder, dadas as nossas poucas posses materiais. A aparência enganosa de que tais personagens seriam periféricos ao jogo político, poderia assegurar aos reis e aos senhores - os tais “amadores profissionais” que gostam dos bajuladores e dos parasitas - a vantagem da aproximação às conspirações: se as palavras ou os ouvidos dos truões avançassem no rumo indesejável, a regra do isolamento – intangibilidade do rei, no embate entre transparência e opacidade – cairia por terra e, cortesãos a ministros, aqueles que pudessem conspirar, que o fizessem ao Bobo da Corte, nunca ao Rei.

A tolice, sim, ressurge não na leviandade que gesta e administra o bem público, mas naquilo que se insinua como corretivo, de um conselheiro sério – “sou mais santo que tu, meu Rei” -, dizia o Bobo.

Dissemos nós. E dizemos porque, quanto mais dizemos, mais aumenta a popularidade do Rei que hoje gira em torno de 80 %; e mais ridículos tornamos o rídiculo. e quanto mais Bobos da Corte, mais nos convencemos que melhor é assim proceder.

A Teoria da Distorção, esboçada (apenas esboçada) por Freud.

Eis nosso perfil:

a) Sermos capazes de subversão de sentença. Sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar. Esta asserção de Wittgenstein, presente no Tractatus, também aplica-se no contexto da corte, já no medievo. O Bobo dela sabe tirar proveito, à medida em que adequa a palavra sem compromisso e não sustentada, no limite do que é sabido. O blefe de sua ação o faz ver a ilação de que há contrário senso à clemência e ao indulto, dada a forma provocativa nos silêncios e entre-olhares de todos, com cinismo e desprezo;

b) Sermos hábeis na exposição ao ridículo. O sarcasmo, a ironia, o complexo, o ressentimento e as farpas devem ser expostas à razão do absurdo, nas suas próprias palavras ou evidenciadas no outro; a prática delituosa é excepcionada por seus maneirismos, deve ser vista em alguém, mas que a assentar-se nesta altura nele, passa demasiadamente ao largo;

c) Sermos mestres na arte da simulação e da dissimulação. Os trejeitos da postura física e os ares da preguiça, a expressão facial e as mesuras também representam um calar-se oportuno, a mais não poder, que passa a se traduzir na linguagem corporal de contornos contraditórios;

d) Sermos representantes da insensatez. Na esteira do procedimento do Bobo, as situações hilárias denotam desafios fracassados; o regozijo em momentos de sucesso, da mesma maneira, a derrogação de todos por todos, partícipes do contrato social. Não é dado encontrar a graça e a anistia, no rol dos gestos e, ambas as contingências – de sucesso ou fracasso -, representam oportunidades de avanço pessoal, do ser acontecente na busca de certa excelência individual;

e) Sermos senhores das mímicas, remedadores das tolas piadas do Rei Apedeuta e imitador das falsas risadas dos Súditos, imitações para o entretenimento público; então, o bizarro no Bobo passa a ser seu caráter esotérico e simbólico, que marca posição e suscita uma interpretação teleológica;

f) Sermos exímios dançarinos, tão capazes de perdermos o passo do compasso quanto retomá-lo a qualquer tempo, com graça e leveza, pois a dança rodopiante, adquirida da tradição dos trovadores, lembra o ritual mágico daqueles que, ao contar uma história “sem pé nem cabeça”, acabam por fazer refletir sobre a incongruência do ser humano, diante da dubiedade conflitiva entre o ser e o estar;

g) Sermos ingênuos o suficiente, para deixarmos transparecer a ingenuidade aparente e inconseqüente, não só para insultar os comentários ásperos e irônicos, mas também para, ao invés de nos pormos como personagem à margem das tramas, fazer-mo-nos centro das atenções.

Tal formato de ser já é conhecido de todos. Mas, eis que, onde instantes passados todos riam, momentos após percebem a crítica a eles próprios, sem compreenderem as razões, dada a impossibilidade de atingimento da totalidade. O ridículo e incongruente está no próprio público – que é o grande Bobo – com uma vida de esquisitices e multiplicidades psicológicas repletas de conflitos.

É o que diz Beatrice K. Otto[3], sobre o sentido do termo que denota a idéia de palhaço, jongleur, jogleor, joculator (aquele que relaxa e goza), sot, stultor, scurra, fou, fol, truhan, mimus, histrio, morio, assim como, no alemão, com a mesma raiz, Narr.

Decorreria, segundo a autora, do significado de “ator” que usaria humor para escarnecer e brincar, com um certo privilégio. Combinado com outro significado – de sombras discrepantes - jesterdom poderia elencar talentos musicais.

Num só Bobo, que de Bobo só tem o apelido, portanto, há todo um ministério.

postado por Ramiro Corrêa (31/08/2010)

  1. FREUD, S. Interpretação dos Sonhos. Trad. Walderedo Ismael de Oliveira. RJ: Imago, 1996 []
  2. SHAKESPEARE, William. Othello, The Moor of Venice, in The Complete Works of William Shakespeare, London, Springs Books, 1958, p. 999 []
  3. OTTO, Beatrice K. Fools Are Everywhere: The Court Jester Around the World. Chicago: University of Chicago Press []


postado por Ramiro (30/08/2010)



Apresentamos uma uma conferência de Benjamin Gross, proferida em Jerusalém em setembro de 2008 mas que a AKADEM traz em vídeo agora (AQUI).

Benjamin Gross é professor de Filosofia na Universidade de Bar-Ilan, com obras sobre Filosofia do Judaísmo assim como Messianisme et Histoire Juive (Editeurs Berg International), L’aventure Du Langage - L’alliance De La Parole Dans La Pensée Juive (Albin Michel), entre outros.

O professor Gross trata da escolha da vida, por dois caminhos dados, sobre a missão de Josué e as instruções de Deus. Há sempre dois caminhos a seguir e a escolha do bom caminho está dada. Aliás, em linha com o Evangelho cristão da semana, onde Lucas trata daquela belíssima parábola do Cristo que, convidado a um jantar em casa de fariseus, lembra aos convivas que a melhor escolha é sempre a do último lugar (ver Lucas, 14, 1, 7), que é assim:

Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então contou-lhes uma parábola:

“Quando tu fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: ‘Dá o lugar a ele’. Então tu ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar.

Mas, quando tu fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’. E isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados. Porque quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado”.

E disse também a quem o tinha convidado: “Quando tu deres um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes poderiam também convidar-te e isto já seria a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justo

O título da conferência de agora é:

Le shabbat avant Roch Hachana

 
Nitzavim: “Choisir la vie” (32 mn)
Benjamin Gross, Doyen de la faculté de Bar Ilan (Israël)
Sefarim - Jérusalem, Septembre 2008

Ouça e tome notas. Vale a pena:

postado por Ramiro (29/08/2010)



Quem entra para uma Faculdade de Administração e ali passa seus melhores anos universitários sem ler Peter Drucker, ou dá um tiro no pé ou pede o pé ao “tio”. Mas, quem faz qualquer curso superior, deveria ser forçado - de bom grado! - a ler Drucker, que foi e é considerado um dos Pais da Administração.

Peter Drucker at Blog Filosofix

(Peter Ferdinand Drucker: 19/11/1909 - 11/11/2005)
 

Nascido na Áustria, migrou para os EE.UU na década de 30 e lá alcançou enorme sucesso com suas lições acerca da ciência da Administração, predizendo eventos - pela “simples” dedução - tais como os fenômenos das privatizações e descentralizações, o crescimento do poder econômico japonês, a necessidade do marketing e a importância de um aprendizado contínuo… para quem queira permanecer no mercado.

Visto sobre este ângulo, o “olhar de profeta” parece, aos nossos dias, óbvio demais; mas tolice seria pensar que, numa sociedade em movimento e crescimento, as predições de Drucker não se tornariam aceitas e consagradas.

Há um texto deste eminente pensador (entre vários de seus escritos preciosíssimos) que bem dá a medida do rigor de um pensamento voltado à organização das Organizações - a frase provoca uma leitura com entonação decrescente e é proposital. O texto chama-se THE EFFECTIVE EXECUTIVE e tem seus direitos autorais reservados para Peter F. Drucker [1].

Ali, nosso “filósofo da Administração” aponta conceitos fundamentais; e um deles é sobre a “efetividade” (effectiveness); ele intercala, de propósito, o sentido de “to effect” ao de “to execute”; e, se bem considerarmos, com uma razão de ser, dado que o ato de efetivar - a efetivação - resulta, em última instância, numa espécie de consolidação, de realização plena, de uma meta alcançável. Isto é: efetivar acaba por ser consequência de um executar tenaz.

“Ser efetivo é o trabalho do executivo”, diz Drucker. Numa primeira leitura, imagina-se que se trata de uma referência direta ao executivo da empresa; porém, sendo Drucker quem foi (um pensador considerável por demais), não podemos nos furtar à ideia de uma referência para além das “organizações”, vale dizer: para a “execução” de tarefas que precisem ser “efetivadas” no âmbito de nossas vidas pessoais, na comunidade e… no Estado em geral.

Aliás, o próprio Drucker assim o afirma, literalmente: “Whether he works in a business or in a hospital, in a government agency or in a labor union, in a university or in the army, the executive is, first of all, expected to get the right things done. And this is simply that he is expected to be effective.”

Seja na empresa, no hospital, nas agências governamentais, na universidade e nos exércitos! Tirando isto - tais locais de trabalho -, parece ser possível não ser efetivo. Prefiro crer na prudência de Drucker em não ser repetitivo para ampliar o rol de atividades, com um simples “etc” após “in the army”, ali acima.

De toda maneira, a fascinante lógica de Peter Drucker, composta por uma simplicidade e praticidade alarmantes, mostra como a “efetividade” é o ponto crucial na administração de qualquer tipo de negócio (incluindo o Estado, faço questão de insistir).

Mas, tal efetividade precisa ser vista com mais cuidado. Afinal de contas, o que é, exatamente, ser efetivo? Pode-se argumentar que a efetividade deva passar, necessariamente, pelas considerações de uma Teoria da Prudência, e, aí, o eídolon de Aristóteles ressurge em toda a sua glória. A arte da deliberação, da phrónesis, se faz presente como ferramenta de desbaste das dificuldades do caminho para que algo seja, de fato, ao fim e ao cabo, “efetivado” ou, simplesmente, “executado”.

Drucker não deixa de lembrar que os homens devem empregar características próprias muito apreciadas, tais como a inteligência, a imaginação, o nível de conhecimento, o brilhantismo e, sobretudo, o “insight”, que é fruto de um trabalho metódico e persistente: “They never have learned that insights become effectiveness only through hard systematic work”. É daí que brota, segundo Drucker, a famosíssima “criatividade”.

Para os leitores, digamos, apaixonados por palavras tão diretas e que, no fundo, são formas de incentivo de um laborioso esforço, pode passar despercebido que estas mesmas recomendações já estavam pregadas e estampadas no Leviatã de Thomas Hobbes, quatro séculos antes. Hobbes reflete, no capítulo X (Do Poder), em sua obra sobre o tema e diz: “O poder de um homem (universalmente considerado) consiste nos meios de que presentemente dispõe para obter qualquer visível bem futuro. Pode ser original ou instrumental. O poder natural é a eminência das faculdades do corpo ou do espírito; extraordinária força, beleza, prudência, capacidade, eloquência, liberalidade ou nobreza. Os poderes instrumentais são os que se adquirem mediante os anteriores ou pelo acaso, e constituem meios e instrumentos para adquirir mais: como a riqueza, a reputação, os amigos, e os secretos desígnios de Deus a que os homens chamam de boa sorte”. [2]

Em grande medida, Thomas Hobbes foi o Peter Drucker do século XVII; ou Peter Drucker foi o Thomas Hobbes do século XX (e XXI). Quem lê o Leviatã, dos capítulos X a XV, encontra um manancial para uma Teoria da Prudência e um executivo vir a ser um efetivo: notemos o jogo de palavras com duplo senso - de executivo para efetivo: por exemplo, em “Contratam-se efetivos (no lugar de executivos) para cargos de alta responsabilidade na empresa”.

E Drucker dá-nos uma razão para sua fina e sofisticada reflexão, num subtítulo de seu trabalho; e pergunta:

- “WHY WE NEED EFFECTIVE EXECUTIVES”.

Há, aqui, muitas indagações. A primeira delas é a frase como um todo, em si; passar por cima, atropelado, não é difícil, porque o convite é bem insinuante. Mas, deter-mo-nos nas suas partes é forçoso. Vejamos algumas - apenas algumas - delas.

Primeiro: Por que separar “effective” de “executives”?

Segundo: Por que afirmar que “nós necessitamos”?

Terceiro: Por que “nós”? Quem são estes “somos nós”?

Nós? Que “nós”?

“Nós” somos aqueles que temos mais o que fazer - cuidar de nossas próprias vidas -, enquanto pagamos (inclusive com impostos) a outros que cuidem de nossos interesses secundários: os executivos (especialmente no Estado). E convém lembrar que pagamos - “nós” - não por sermos negligentes, mas até em nome de uma “ordem social” aceitável, tolerável, e absolutamente necessária. Esperamos (pagando), afinal de contas, que pessoas mais capazes em determinadas tarefas, realizem por nós aquilo que precisamos secundariamente, com uma elevada dose de honestidade e profissionalismo.

E não haverá quem duvide que uma sociedade funcione bem desta maneira.

A resposta de Drucker, que também estancou por algum tempo sobre (ou sob) tais questões aparentemente óbvias, é uma, creio eu, esperança incisiva; ele assim o diz: “One reason for this neglect is that effectiveness is the specific technology of the knowledge worker within an organization.”

Traduzo, para quem queira saber como traduzo entrelinhas: “Uma razão desta aparente negligência é que a eficácia é a específica tecnologia do conhecimento, para um trabalhador dentro de uma organização”.

Noutras palavras: há, segundo Drucker (isto é, conforme li), uma “tecnologia do conhecimento” que funciona a todo vapor nas “organizações” e sem a qual não pode haver um “executivo efetivo” (Effective Executive).

Nem é o caso de trazermos à tona o pensamento dos “frankfurtianos”, Adorno, Horkheimer, Marcuse e cia. Drucker, com sua praticidade efetiva, vai ao ponto. A tal necessidade de um aprendizado contínuo, tanto para o sujeito quanto para a organização. Ambos aprendem. Continuamente. Cria-se, assim, uma “tecnologia do conhecimento” ou, se preferirmos um pouco de ironia uma “indústria cultural” específica sobre a “efetividade”.

Os exemplos de Drucker são excelentes:

THE EFFECTIVE EXECUTIVE

Formerly, the manual worker—whether machine operator or front-line soldier—predominated in all organizations. Few people of effectiveness were needed: those at the top who gave the orders that others carded out. They were so small a fraction of the total work population that we could, rightly or wrongly, take their effectiveness for granted. We could depend on the supply of “naturals,” the few people in any area of human endeavor who somehow know what the rest of us have to learn the hard way.

This was true not only of business and the army. It is hard to realize today that “government” during the American Civil War a hundred years ago meant the merest handful of people. Lincoln’s Secretary of War had fewer than fifty civilian subordinates, most of them not “executives” and policy-makers but telegraph clerks. The entire Washington establishment of the U.S. government in Theodore Roosevelt’s time, around 1900, could be comfortably housed in any one of the government buildings along the Mall today.

The hospital of yesterday did not know any of the “health-service professionals,” the X-ray and lab technicians, the dieticians and therapists, the social workers, and so on, of whom it now employs as many as two hundred and fifty for every one hundred patients. Apart from a few nurses, there were only cleaning women, cooks, and maids. The physician was the knowledge worker, with the nurse as his aide.

In other words, up to recent times, the major problem of organization was efficiency in the performance of the manual worker who did what he had been told to do. Knowledge workers were not predominant in organization.

In fact, only a small fraction of the knowledge workers of earlier days were part of an organization. Most of them worked by themselves as professionals, at best with a clerk. Their effectiveness or lack of effectiveness concerned only themselves and affected only themselves.

Se o leitor olhar com atenção os fatos apontados por Drucker, verá algo bastante sério.

Que, de fato, outrora, para o trabalhador braçal - fosse um operador de máquinas ou um soldado na frente de batalha -, a eficácia não era tão fundamental: bastava a “eficiência”, aos moldes tayloristas. Como lembra, o Secretário de Guerra de Abraham Lincoln tinha menos que cinquenta “colaboradores”; que a administração de Theodore Roosevelt tinha um grupo de “colaboradores” que podiam, TODOS, se alojarem numa confortável casa na alameda dos prédios governamentais; que um hospital podia ter não menos que duzentos e poucos funcionários para centenas de pacientes; e que, finalmente, a parcela daqueles funcionários que detinha o “conhecimento” era ínfima em relação à grande maioria.

Traduzido em miúdos: Drucker quer mostrar - salvo engano - que os tempos mudaram; que não é mais possível conviver num local, numa instituição, onde não exista uma maioria absoluta, esmagadora, qualificada, decisivamente apta, a praticar atividades com “eficácia”.

Drucker está certo ou errado?

Convenhamos: certíssimo!

O “Papa” da Ciência da Administração está absolutamente certo. Se uma empresa, uma organização, uma instituição, um Estado, querem ser eficazes, precisam ter “executivos eficazes” e todos, de preferência sem exceção, sem o que se perdem a vantagem competitiva, a qualidade final, a meta, a visão, etc, etc, etc.

Passemos ao caso da “política” brasileira: o que se tem a dizer sobre nepotismo, cargos públicos criados sem concursos, caça-votos, mensalão, dinheiro em cuecas? Que, ao fim, se criou uma pioneira arte dos “executivos efetivos em corrupção”.

Peter Drucker, se vivo estivesse, teria material suficiente para rever sua teoria da “efetividade” - considerando os efeitos colaterais sobre seu pensamento, vindos de uma suposta teoria da “AFETIVIDADE”, bem próxima à teoria da “CORDIALIDADE” de Buarque de Hollanda: seria, aqui, a réplica invertida da conjunção dos verbos “to execute” com “to effect”.

E assim, talvez, compreendêssemos como um candidato à Presidência da República adere à prática da “AFETIVIDADE executiva” - e não “efetividade executiva” - de outros que “aderem trabalhadores” que aprenderam, literalmente, sobre a “tecnologia brasileira do conhecimento” - isto é: o “conhecimento” de quem pode indicar um carguinho público aqui, outro carguinho público acolá, etc e tal (como sempre, aliás, desde sempre).

Nestas paragens, sim, ocorre mesmo o “fim do homo oeconomicus“.

Seria piada de mau gosto, não fosse a tênue linha entre o pensamento de Drucker com outras reflexões seríssimas.

Se, em Marx, a luta era a do proletário e nela, “as armas de que se serviu a burguesia para abater o feudalismo voltam-se agora contra a própria burguesia. Mas a burguesia não forjou apenas as armas que lhe trarão a morte; produziu também os homens que empunharão essas armas – os operários modernos, os proletários” (Manifesto, p. 72), agora a revolução, aqui posta como hipótese, ocorre pelo homo oeconomicus, sem muitos vislumbres de que as armas do saber e da técnica possam ser voltadas contra os empresários. E isto apresenta conseqüências éticas graves, como as que incidem sobre o campo da liberdade individual, política, econômica.

Presente e ressuscitado na antropologia de Bronislaw Malinowski (1922), em sua obra Os Argonautas do Pacífico Ocidental - que Peter Drucker, suponho, seguramente leu e releu -, o homo oeconomicus em questão não será mais o proletário a desfraldar a bandeira da exploração do trabalho, porque já não haverá mais o trabalho clássico: haverá a terceirização e, em nosso caso brasileiro, a terceirização do emprego público partidário. Ela será mantida, será utilizada, será alimentada, paradoxalmente, nas fronteiras mexicanas, paraguaias, timorenses, brasileiras e tantas outras, onde são limítrofes os mais avançados modos de vida, e a miséria mais anacrônica.

No texto de Charles Bowden, prefaciado por Noam Chomsky – Juárez, the laboratory of our future – encontra-se a foto de dois calcanhares femininos, calçados e enterrados em fina areia de deserto, e acima uma citação de Elena Poniatowska (Hasta no verte Jesús mío, 1969), nos seguintes dizeres:

[...] we will never be free, that’s what I tell you, because we will be enslaved all our lives. Want to see it more clearly? Every government official that comes in, bites us, cripples us, leaves us maimed, toothless, lame and with our flesh and bones, builds his house.

O novo homo oeconomicus, antes de Drucker já esboçado em Smith e Ricardo, pratica, em nossos dias, uma nova ética das relações comerciais, exacerbando os princípios da kula de Trobriand, como dizia Démonio:

DÉMONIO, L. A problemática anglo-saxônica: economia política e antropologia. [3]

Ela influencia por meio de um complexo mecanismo, em que o ritual tem um lugar preponderante, o conjunto da estrutura social, num processo ao mesmo tempo simbólico e real, que manifesta todas as suas componentes, tanto a econômica quanto a social (familiar), a mágica e a religiosa. Assim sendo, não diz respeito apenas ao domínio econômico, onde se situa, por exemplo, o tipo de atividade que evocamos anteriormente. Pelo contrário, é evidente a existência de relações sociais em que o limite entre a atividade econômica e as outras da vida social não está claramente definido e em que, aliás, semelhante questão perde todo o significado.

A Ética é “kula”, especialmente no Brasil de hoje. Torna-se mais importante que o próprio homem, a kula. A troca, o escambo, que reforçavam as relações de parentesco nas sociedades primitivas – levando ao fortalecimento do clã e ao consequente acréscimo de poder -; nas sociedades complexas, hoje fortalece o poder de compra e de mando, substanciando a conta bancária de poucos, em detrimento dos demais excluídos, os terceirizados – aqui no sentido pejorativo do termo.

O ser mítico que Malinowski estuda em sua obra – Os Argonautas do Pacífico Ocidental – pode ser relacionado ao ser crítico proletariado do pensamento de Marx; nos Argonautas, está descrito um ser irrefletido, como um Robinson Crusoé ou o pescador primitivo imaginado por Ricardo; no Manifesto se desnuda um ser assolapado, impedido de refletir: ambos são os pais do homo oeconomicus excluído do século XXI. Estes inconvenientes, ou problemas, podem ser basicamente dois, a saber:

a) O primeiro deles é o de um permanente desequilíbrio da personalidade humana, encaminhada em uma direção única e concentrada em torno de poucos interesses e, portanto, incapaz de afrontar situações ou problemas para além de seu restrito horizonte.

Esse desequilíbrio, gravíssimo do ponto de vista individual, pode produzir diferentes tipos de neuroses; do ponto de vista social, impede ou limita a comunicação entre os homens, encerra a cada um ao mundo restrito, sem interesses ou tolerância para com o outro.

b) O segundo problema, ou inconveniente, é o que deixa o homem desarmado frente às exigências que nascem das relações diárias às quais deve se submeter, no mínimo para garantir a própria subsistência.

Quanto mais a fundo é levada uma relação de trabalho - seja ela convencional ou terceirizada - mais numerosos são os problemas resultantes nos pontos de contato - ou de interseção. Se verificarmos que a Cultura se funda na possibilidade de abstrações operadoras - isto é: na capacidade de efetuar eleições ou abstrações que permitam valorações de natureza estável -, poderemos aceitar o conceito proposto por Luckhohn e Kelly [4]:

“A Cultura é um sistema historicamente derivado de explícitos e implícitos projetos de vida que tendem a ser participados por todos os membros de um grupo ou daqueles selecionados”.

postado por Ramiro Corrêa (28/08/2010)

  1. All rights reserved under International and Pan-American Copyright Conventions, by HarperCollins Publishers Inc []
  2. HOBBES, T. Leviatã. Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva, SP: Nova Cultural []
  3. p. 25 e ss. In: POUILLON, F. A antropologia econômica []
  4. LINTON, R. The science of Man in the World Crisis, 1945 []


postado por Ramiro (28/08/2010)



Sonho 1:

Sonho 2:

Sonho 3:

Sonho 4:

Sonho 5:

Sonho 6:

Sonho 7:

Insôniaaaaaaaaaaaa:

Insôniaaaaaaaaaaaaaaaa:

postado por Ramiro (26/08/2010)



Eu tenho muito a aprender com Danny Kaye, se o assunto também é psicanálise.

E caso você queria enfrentar o divã de seu psicanalista, sugiro pensar na hipótese de resgatar algo de essencial: o HUMOR! Veja o que o Mestre tem a dizer a este respeito, nesta genial performance sobre os problemas da existência e da PSICANÁLISE, conforme está postado no YouTube, sobre um “sketch” do Show de Danny kaye.

Divirta-se! E dou uma “Menção Honrosa” para quem traduzir, na íntegra, o monólogo para publicação no Filosofix :)

Danny Kaye: THE PSYCHOLOGIST

postado por Ramiro (24/08/2010)



Queira ouvir a conferência de Henri Cohen-Solal publicada em vídeo no site da Akadem - Paris (AQUI), neste mês de agosto de 2010.

Henri Cohen é psicanalista franco-israelense. Fundou a “Maison Chaleureuse” para jovens em vias ou riscos de marginalização ou delinqüência. Participa de diversas conferências e é autor da obra “Subjectivité et appartenances” (Revue Le Coq-Héron, 2004).

Cohen-Solal apresenta-nos uma reflexão sobre o Deutéronome (ch.26,v.1 à ch.29,v.8), sobre Israel e o povo de Deus, das promessas e das maledicências, no que respeita à guerra e ao exílio. É, sobretudo, um assunto sobre a ÉTICA da propriedade e, apesar da dificuldade de entendimento dos trechos citados em hebráico (para aqueles que não compreendem o idioma, naturalmente, como é o nosso caso), vale conferir acerca deste tema que é atual.

O título da conferência é:

Les dangers de l’installation en Israël

 
Ki Tavo: une éthique de la propriété (39 mn)
Henri COHEN-SOLAL, Psychanalyste
Sefarim - , Août 2010

Clique abaixo para ouvir:

postado por Ramiro (23/08/2010)



Sargento Garcia at Blog Filosofix

Sargento Garcia informa:
 


Filhos “uni-uni-gênitos” do mesmo Pai:


postado por Ramiro (22/08/2010)



Sem comentários


O irônico, nesta charge imediatamente acima, de meu amigo SPONHOLZ é o que nem ele notou (eu acho e sou capaz de apostar), e que um de meus mestres, Sigmund FREUD, trataria como “ato falho”: o “boneco” que quer “mais mentiras” tem NOVE DEDOS!

postado por Ramiro (20/08/2010)



São Judas Tadeu at Blog Filosofix
 

À meia noite, neste início do dia 20 de agosto, e nos próximos 8 dias no mesmo horário, estarei online para fazer a minha Novena a São Judas. E se você não se importar, aceite o convite e esteja comigo nestes próximos dias. Não vai lhe custar nada. Olhe na coluna laranja do Blog, na CATEGORIA “Novena a São Judas Tadeu “. Sempre à meia noite e pouco, você poderá ter a certeza de que estaremos juntos, online no Filosofix, se é que a minha companhia lhe interesse - porque a de Judas Tadeu sei que você não recusaria! :)

Seja bem-vindo.

postado por Ramiro (19/08/2010)



La Boëtie escreveu este Discurso da servidão voluntária [1] e, à certa altura, diz:

- [p 106] “Não pode haver amizade onde há desconfiança, deslealdade, injustiça. Entre os maus, quando se reúnem, é um complô e não companhia. Eles não se entretêm, entretemem-se. Não são amigos mas cúmplices.”

Sim, “não são amigos, mas cúmplices”! Entretemem-se! Participam de um complô: são mães que ensinam filhos a serem “maldosos”, espertos, vivos, “maliciosos”, mas que ao primeiro perigo voltem correndo para o ninho. E, de fato, “não pode haver amizade onde há” esse tipo de “desconfiança”.

Há, ainda, uma clássica passagem, ao começo de sua obra, quando diz: “Homero conta que um dia, falando em público, Ulisses disse aos gregos: ‘Não é bom ter vários senhores, tenhamos um só’. Se tivesse dito apenas: não é bom ter vários senhores, teria sido tão bom que nada poderia ser melhor. Mas em vez disso, e com mais razão, deveria ter dito que a dominação de vários não poderia ser boa, já que o poderio de um só é duro e revoltante quando este toma o título de senhor: ao contrário, vai acrescentar: tenhamos um só senhor.” [2]

Na verdade, há bem mais nessa obra do que suspeita a vã filosofia dos “desleais” com os outros e leais com os de “seus bandos”.

Discurso da Servidão Voluntária

Aqueles a quem o povo deu o poder deveriam ser mais suportáveis; e sê-lo-iam, a meu ver, se, desde o momento em se vêem colocados em altos postos e tomando o gosto à chamada grandeza, não decidissem ocupa-lo para todo o sempre. O que geralmente acontece é tudo fazerem para transmitirem aos filhos o poder que o povo lhes concedeu. Ora, tão depressa tomam essa decisão, por estranho que pareçam, ultrapassam em vício e até em crueldade os outros tiranos; para conservarem a nova tirania, não acham melhor meio que aumentar a servidão, afastando tanto dos súditos a idéia de liberdade que estes, tendo embora a memória fresca, começam a esquecer-se dela.

Etienne de la Boëtie at Blog Filosofix

(E. de la Boëtie - 1530 / 1563 - obra de 1546)
 

O que espanta, contudo, em La Boëtie, é seu modo de mostrar à pessoa singular - muito menos que ao tirano que se arvora para além dos apenas de seu bando, na própria casa. Eis a pérola:

- “Os teatros, os jogos, as farsas, os espetáculos, (…) as medalhas, os quadros e outras bugigangas eram para os povos antigos engodos da servidão, o preço da liberdade que perdiam, as ferramentas da tirania.

postado por Ramiro (18/08/2010)

  1. encontra-se em Português pela Brasiliense, SP, 1982 []
  2. ver também em Boëtie, E. Le discours de la servitude volontaire. Paris: Payot, 1976. 370 p []

















FireStats icon Produzido pelo FireStats