Fellini e la nave

Obra-prima de Federico Fellini (1920-1993), "E la nave va" é um filme italiano de 1983, cujo tema também aborda, de um modo que só o gênio de Fellini conseguiria, a ópera. No filme são mostrados os eventos ocorridos a bordo de um navio luxuoso, o Gloria N., onde os amigos de uma falecida cantora de ópera se reúnem para acompanhar o seu funeral.

Na abertura é mostrada uma cena, em julho de 1914, imediatamente antes do lançamento ao mar do navio, toda feita em tons de sépia, como se houvesse sido filmado realmente naquela época, e sem nenhum outro som além do ruído do projetor. Gradualmente, a sépia vai dando lugar ao filme colorido onde já se pode ouvir o diálogo dos personagens [1]. O filme acontece como um documentário, no qual o Sr. Orlando, um velho jornalista italiano, encara a câmera e explica que a viagem tem o objetivo de dispersar as cinzas da cantora lírica Edmea Tetua em torno da ilha de Erimo, onde ela nasceu. Ele a apresenta como a maior cantora de todos os tempos, portadora de voz de uma deusa. Entre os passageiros estão presentes cantores, músicos, amigos, colegas de trabalho da diva e pessoas importantes da época. Há um clima de tensão, mas os passageiros escondem as suas disputas internas para prestar sua homenagem à diva. Tudo corria bem, até o capitão resgatar do mar dezenas de refugiados sérvios, que fugiam do início da primeira Grande Guerra.

Quer saber mais? Veja o filme :) Nele encontrará, como de costume, o desfile de personagens exóticos saídos da mente do cineasta. "E la Nave va" foi todo rodado em estúdio e Fellini revela essa sua opção para o espectador quando, pouco antes da cena final, põe à mostra os equipamentos utilizados no set de filmagem. Vale a pena conferir esse filme, é outra bela amostra do gênio de Fellini, aquele mestre irônico e irreverente de sempre, mas que nesse filme deixou algo de muito especial. Há nele uma coleção de cenas que bem merecem ser recordadas, e apresento agumas delas abaixo.

Divirta-se:

 

 

 

Nem são necessários comentários, as cenas já falam por si.

Walace Rodrigues (4-mai-2008)

Anotações:
  1. Para mais informações sobre o filme, clique aqui. []

Brevíssima introdução sobre a Ópera e o Humanismo

A palavra "ópera" vem do italiano, que por sua vez a recebeu do latin, plural de "opus", significando "trabalho". Sem mais delongas, uma "ópera" é uma peça teatral cantada com acompanhamento musical. O termo sugere o trabalho artístico do canto solo ou coral, acompanhado de declamações, atuações e danças, e conduzido pela música de orquestra. Tudo isso integrado acaba por criar o verdadeiro espetáculo cultural que é a Ópera.

A Ópera surgiu no final do século XVI, em Florença, como resultado do esforço de um grupo de artistas da renascença que decidiu recriar a experiência do drama grego, através de poesia cantada, dança e acompanhamento musical. Esse grupo de artistas, que ficou conhecido como a Camerata Florentina, reunia vários intelectuais humanistas que, fascinados com a teoria dramática descrita por Aristóteles em sua Poética — especialmente o argumento que indicava que o teatro tinha potencial para melhorar o caráter das audiências —, idealizaram o projeto de reviver a experiência grega para educar através da arte e do entretenimento. O "trabalho" da Ópera é filho, portanto, do velho ideal iluminista de que a razão tem poder para transformar o mundo, educar as consciências e ajudar a criar uma nova era de progresso.

A herança medieval

Alguns historiógrafos [1] falam do Renascimento como uma época que viu surgir uma nova cultura oposta à medieval. Cada vez mais, entretanto, essa interpretação é contestada, ao ponto de hoje haver muita dúvida se o "Renascimento" constituiu uma realidade histórica de fato, ou foi uma invenção construída pela historiografia do século XIX.  Muitos autores observam que as várias características consideradas como típicas do Renascimento também podem ser encontradas, sem dificuldade, na Idade Média. Assm seria possível falar de vários "renascimentos", a partir do século XI, mas sobretudo nos séculos XII e XIII. Da minha parte, acredito que não existe erro em se falar de um período histórico nomeado Renascimento, os próprios autores humanistas da época falavam de "fazer renascer o mundo antigo" etc. O erro está em julgar a Idade Média como um tempo de barbárie, como uma "idade das trevas" onde não existia sabedoria nenhuma. É errado, por exemplo, pensar que antes do século XVI não existia interesse pelas artes, pela língua clássica, pela poesia, pela música e pela razão.

Os pressupostos teóricos mais importantes da filosofia tradicional, contra os quais os humanistas têm que enfrentar, estão contidos na tese apresentada por Dante Alighieri (1265-1321), no primeiro capítulo do seu "De monarchia", dedicado à política:

in: "De monarchia", I,2,4

Dado que toda verdade não primeira se manifesta em virtude de uma originária verdade principal, deduz-se necessariamente daí que qualquer tipo de investigação tem que se remontar ao conhecimento da primeira verdade e recorrer analiticamente a ela mesma, para desse modo confirmar a certeza de todas as proposições que têm suas raízes nela.

O verdadeiro e primordial problema da filosofia tradicional é, pois, a definição racional do ente (res) e não da palavra (verbum). Para a filosofia medieval , tal como compendiada por Dante, é a ratio que determina a res, e o verbum só merece crédito pela referência à ratio. A natureza da linguagem, dentro desse quadro, seria ahistórica.

Em princípio, Dante adota idêntica posição ao considerar no "De monarchia" a atividade racional como a mais elevada do homem, sendo sua realização a tarefa do verdadeiro político. Deriva daí sua teoria do monarca universal, que se diferencia dos reis particulares por imperar sobre eles, e que tem por missão manter a ordem eterna, identificada por meio do conhecimento intelectual [2]. Em "De vulgari eloquentia", ele reafirma a necessidade de uma linguagem ahistórica e universal, que não se prenda a lugares e tempos, e identifica essa linguagem com o latin — por esse ter se firmado no consenso de muitos povos, e assim não estar submetido ao arbítrio de ninguém. Entretanto, ainda no "De vulgari eloquentia", Dante começa a refletir, também como orador e poeta, para afirmar a necessidade de um tipo de linguagem por meio do qual vivemos, amamos e atuamos, e isso no âmbito do "aqui" e do "agora", de uma linguagem que é diferente em cada país. Desse modo, gradativamente ele começa a inverter os pressupostos da filosofia tradicional.

É assim que Dante, agora defendendo a importância do vulgar, vai renunciar à ontologia como pressuposto da linguagem. Falando como orador político, que fala sobre um objeto com uma referência no lugar e no tempo, ele valorizará a linguagem histórica. Depois, falando também como poeta, dirá:

in: "Convivio", I,XIII,4

Se a olhos vistos saem labaredas de fogo da janela de uma casa, e alguém pergunta se talvez esteja ocorrendo um incêndio no interior do edifício e outro responde que sim, não saberia de qual dos dois eu teria que rir mais. De igual teor seria a minha reação se alguém me perguntasse se há dentro de mim amor a minha língua.

Para Dante, a linguagem cotidiana é o fogo por meio do qual o homem forja os instrumentos para criar o seu mundo, e o sinal foi logo percebido por seus contemporâneos. Albertino Mussato (1261-1329) vai falar da poesia como teologia primogênita, como verdadeira altera philosophiaColuccio Salutati (1331-1406), em "De Laboribus Herculi" vai defender  tese de que a ciência não tem primeiramente as suas raízes numa atividade "racional", mas sim no âmbito da linguagem metafórica. A valorização da linguagem, das artes clássicas, da razão, características que costumam ser apontadas como sinais do renascimento, já existiam a muito na Idade Média. E, não fosse isso o bastante, bastaria examinar o Trivium (linguagem, lógica e retórica) e o Quadrivium (geometria, aritmética, astronomia e música), ou, talvez, agora já pensando na proposta da ópera, recordar Isidoro de Sevilla (560-636), bispo católico, santo e doutor da igreja, que séculos atrás já defendia que nada pode existir sem ordem musical, que há algum tipo de harmonia em todos os movimentos do universo, e que, portanto, é a música que primeiro influi no ânimo e desencadeia as paixões: "Sine musica nulla disciplina potest esse perfecta… Musica movet affectus, provocat in diversum habitum sensus." [3].

Mas chega, por hora, porque muito mais haveria para ser dito e desejo chegar logo às óperas.

Óperas

Pelo projeto de educar pela arte e pela herança grega, é natural que as primeiras óperas tenham se inspirado em temas da mitologia grega. Ora ressaltando as mais nobres virtudes humanas, ora expressando com vigor emoções não tão nobres,  é sempre esperado que a audiência saia melhor do que entrou, alimentada por algum exemplo edificante ou purificada pela catarse bem conhecida das tragédias gregas.

As óperas dividem-se em duas categorias: a ópera séria, ou melodramática, e a cômica, ou bufa. As primeiras óperas, "Dafne" (1597) e "Eurídice" (1600), foram compostas por Jacopo Peri (1561-1633), versando sobre temas da mitologia grega. Entre os maiores compositores operísticos destacam-se, entre outros: na itália, Scarlatti, Rossini, Cherubini, Donizetti, Verdi e Puccini; na França, Lully, Rameau, Gounod, Bizet e Massenet; na Alemanha, Gluck, Carl Maria von Weber, Wagner e Richard Strauss; na Áustria, Mozart; na Inglaterra, Henry Purcell; na Rússia, Glinka, Mussorgski e Borodin; no Brasil, Carlos Gomes.

Agora, chega de escrever, vamos logo á Ópera! A melhor forma de conhecer é ver, ouvir e curtir :) Quero começar com o Barbeiro de Sevilla, porque foi a primeira que conheci e que depois me animou a conhecer outras.

Divirta-se!

 

É impossível falar de ópera sem falar de Maria Callas (1923-1977). A voz dessa diva é impressionante:

 

Outra soprano que merece uma visita é Cecilia Bartoli (1966-):

 

Há um "mix" interessante que apresenta as duas divas juntas. Para quem se interessar está abaixo:

 

Agora, outro tipo de voz, passamos das sopranos para os tenores. Franco Corelli (1921-2003) é um ótimo exemplo [4].

O inesquecível Luciano Pavarotti (1935-2007) também merece uma olhadela :)

 

 Não quero deixar passar sem falar do Fausto, já que depois quero escrever sobre esse tema. Então, seguem apresentações com o Fausto:

 

 

 

Ops! Perdoem-me a caída. Vou compensá-los com o próximo vídeo:

 

Não faz sentido responder quem diz que não faz sentido acompanhar uma ópera sem tradução. Há algumas traduções disponíveis, mas nunca são confiáveis, como se pode perceber do exemplo:

 

Ópera não admite tradução. Tradução é crime e o crime não compensa. Quer dizer… esquece. Mas acredite, não compensa, prefira sempre o original.

 

Walace Rodrigues (2-abr-2008)

Anotações:
  1. A famosa obra de Jabob Burckhardt, "A cultura do Renascimento na Itália", de 1860, impôs-se como modelo durante muito tempo. Nela, falando do Renascimento, o autor escreve: "…é a síntese do novo espírito que se criou na Itália com a própria Antigüidade — é o espírito que, rompendo definitivamente com o espírito da época medieval, inaugurou a época moderna". []
  2. Ernerto Grassi, "La filosofía del humanismo", Anthropos, 1993. []
  3. Isidoro de Sevilla, "Etymologiae", III, XVII, PL 82. []
  4. Para mais informação sobre Franco Corelli, clique aqui. []

Mais um aninho e mais uma fase de nostalgia

Cá estou de volta à casa, depois de um tempo quebrando castanhas. Mês complicado. Já estava eu com saudades de escrever e se tudo correr bem espero publicar mais agora. Foi um mês corrido, embora premiado com alguns feriados, e coroado com mais um aniversário. Como de costume, o evento  veio acompanhado pela costumeira fase de nostalgia: então ouvi mais concertos e óperas,  voltei a alguns autores,  revisitei  amigos.  Tomara que essa crise de nostalgia se alongue.

Também aproveitei para ouvir os grupos de rock que eu gostava (e ainda gosto). No meio de muita coisa, escolhi um deles para trazer para cá [1]. A primeira música, uma homenagem a Hendrix, é do album "Shades of Deep Purple" (1968) e representa bem o estilo do grupo. Não se assuste com o dragãozinho, é manso, seja generoso e deixe uns amendoins para ele.

Já a segunda música, se não der muita atenção para o visual daquela moda horrorosa da década de 70, vai poder curtir melhor o som. É outra que lembra bem o estilo da época.

Então um abraço para os amigos, obrigado pelos emais e telefonemas, já estou de volta à casa. Vocês ajudaram a fazer deste mais um feliz aniversário :)

Walace Rodrigues (28-abr-2008)

Anotações:
  1. Os clássicos e as óperas vão merecer outro tipo de tratamento e vão demandar mais tempo. []

A última grande aula do Professor Randy Pausch

Esses dias têm sido muito corridos, recheados de correções de trabalhos e provas, e uma chata de uma gripe que insiste em incomodar, mas da qual nem posso reclamar porque, como a coisa anda neste país, já sou um felizardo por não ser dengue. Nesse meio tempo então aproveito para partilhar com vocês a última aula do Professor Randy Pausch, da Carnegie Mellon University. Ele está morrendo de câncer no pâncreas, mas encontrou um outro modo de provar que preparar-se para a morte é viver. Lembrei-me, é claro, de Platão ensinando que viver é preparar-se para a morte.

Assista à brilhante aula do Professor Randy, "Really Achieving Your Childhood Dreams" (1:16:26), ministrada em 18 de setembro de 2007, onde fala aos seus alunos e dá conselhos sobre como levarem as suas futuras carreiras e os seus objetivos pessoais.

Uma versão bastante resumida da aula (0:10:07) foi depois apresentada no programa da Oprah e pode ser encontrada abaixo.

Depois há muito mais material na página do próprio Professor Randy Pausch, encontrada aqui.

Obrigado ao Professor Randy Pausch.

Walace Rodrigues (06-abr-2008).

Chinês também tem senso de humor

Mantendo a milenar tradição chinesa do 1° de abril, o Partido Comunista Chinês mostrou que não é apenas capaz de fazer as pessoas chorarem, também consegue fazer piada.

China assegura que ‘Jogos Olímpicos não são um show político’

PEQUIM - A China criticou nesta terça-feira os políticos que decidiram não assistir aos Jogos Olímpicos como forma de expressar sua rejeição à política do regime comunista, e assegurou que o evento esportivo não é um ’show’ político.

- A China se opõe ao boicote, os Jogos não são uma plataforma para discutir questões políticas ou para armar um show político - disse em entrevista coletiva a porta-voz do Ministério de Assuntos Exteriores, Jiang Yu.

Vários governantes não descartaram a possibilidade de boicotar os Jogos, como o presidente da França, Nicolas Sarkozy.

- Se não vêm, por favor, não tratem de prejudicar os Jogos Olímpicos’, apontou a porta-voz, que considera que o evento será um sucesso.

fonte: JB Online

O Partido Comunista Chinês aderiu completamente ao espírito do 1° de abril. Será que isso desmente a tese de que ditadores chineses só riem enquanto torturam as pessoas?

Walace Rodrigues (01-abr-2008)

Coisas que se podem fazer com a voz

Não há muito para comentar. Apenas veja, ou melhor, ouça.

Achou interessante? Então o que dirá do coral abaixo?

Lindo!

Walace Rodrigues (01-abr-2008)

A existência de Deus em Agostinho - parte 2

Agostinho escreveu um enorme número de obras: um total de 113 tratados e mais de 500 sermões, sem contar as cartas – das quais se conservaram mais de 200 até hoje.  Qualquer tentativa de resumir, portanto, o pensamento de Agostinho implicaria num trabalho hercúleo.  E não bastasse o volume da obra, o caráter polêmico de muitos de seus escritos, que surgiram em resposta às preocupações que atormentavam a Igreja do seu tempo, fazem necessária a leitura de mais que umas poucas obras por quem desejar enxergar uma visão melhor do conjunto. Agostinho esteve diretamente envolvido em muitas das polêmicas da época, principalmente contra os maniqueus (que defendiam a existência de dois princípios criadores distintos e em conflito, considerando de origem maligna tudo que é material), os donatistas (que atribuíam a eficácia dos sacramentos unicamente à santidade do ministro, só reconhecendo como válidos os sacramentos ministrados por eles, razão pela qual rebatizavam todos os que se lhes agregassem) e os pelagianos (que defendiam que o homem se salva por suas próprias forças, sem precisar da graça de Deus). Além das obras destinadas a combater os adversários e inimigos da Igreja, Agostinho escreveu muitas outras de conteúdo exegético, dogmático e pastoral.  Em todas elas encontramos conteúdo filosófico, pois para Agostinho a sabedoria não separava teologia de filosofia. 

O otimismo agostiniano

Sempre identifiquei na filosofia agostiniana um otimismo de fundo que contrasta com o pessimismo, em relação à situação do homem, de alguns intérpretes que se disseram leitores de Agostinho. De fato, em algumas passagens, Agostinho insistiu de tal modo na degradação da humanidade, causada pelo pecado, que uma leitura isolada delas poderia supor um grande pessimismo de sua parte. Um olhar mais atento para o conjunto da obra, entretanto, revelará uma grande confiança no gênero humano. Apesar de reconhecidas as fraquezas do gênero humano, Agostinho não perdeu a esperança no homem, sempre chamado à conversão.

In: "A Trindade" (XIV,4,6)

É necessário, porém, procurar na alma do homem, ou seja, em sua mente racional e inteligente, essa imagem do Criador, inserida imortalmente nesta nossa natureza imortal.

É em certo sentido que se fala da imortalidade da alma, pois a alma também tem a sua morte, quando se priva da vida bem-aventurada, que é a sua verdadeira vida. Diz-se, porém, que ela é imortal, porque não deixa de viver, qualquer que seja essa vida, seja mesmo a mais mísera. Assim também, embora a razão ou a inteligência esteja por vezes como que adormecida, ora pequena ora grande, a alma humana, contudo, sempre será racional e inteligente. Donde se segue, que ela foi criada à imagem de Deus, no sentido de que pode usar da razão para conhecer e contemplar a Deus, conseqüentemente, essa natureza tão sublime e admirável, desde que começou a existir, sempre existirá, mesmo se ficar tão deteriorada que pareça quase não existir e seja obscurecida e disforme, ou seja clara e bela.

Afinal, a Escritura divina, deplorando a deformidade da dignidade da alma, diz: "Ainda que o homem caminhe como uma imagem, é em vão que se afadiga; entesoura, e não sabe quem desfrutará" (Sl 38,7)  A Escritura não atribuiria a vacuidade à imagem de Deus, o fatigar-se em vão, se não a visse deformada. E contudo, demonstra claramente que essa deformidade não é tão forte a ponto de fazer apagar-se a imagem de Deus, ao dizer: "O homem caminha como uma imagem".  Pelo que, essa sentença, pode ser proclamada verdadeira de duas maneiras; pois, assim como foi afirmado: "Ainda que o homem caminhe como uma imagem e em vão se afadigue", pode-se inverter as proposições e dizer também: "Ainda que o homem se deixe cansar em vão, ele caminha como uma imagem".

Acho importante ressaltar esse otimismo para rebater interpretações reducionistas e bastante pobres que têm sido atribuídas a Santo Agostinho. É o mesmo otimismo que se apresenta de novo em Agostinho, quando ele mostra confiança na razão humana. É curioso, um homem que passou por tantas crises, incluindo de ceticismo, tenha chegado a depositar, depois de sua conversão, tanta confiança na razão, ao ponto de supor nela a força para chegar até Deus: porque cria que também a razão é obra da graça presenteada ao homem no instante da sua criação. A afirmação anterior, entretanto,  não será de todo verdadeira se for esquecido o papel importantíssimo que Agostinho atribuía à fé no processo de aprendizado da verdade. Se, por um lado, confiava na razão; por outro, defendia a necessidade imperiosa da fé para orientar os esforços da razão para permitir alcançar a verdade última manifestada no conhecimento do Cristo. Muito a grosso modo poderíamos resumir assim: se um homem, fazendo bom uso da razão, consegue percorrer o caminho e chegar aos muros da fortaleza, é pela força da fé que se lhe abrirá a porta do castelo.

In: "Contra os acadêmicos"

Essa é, com efeito, a minha atual disposição: desejo aprender sem demora as razões do verdadeiro, não só com a fé, mas também com a inteligência.

É necessário perceber: o eixo central de toda a obra agostiniana é a conversão. A conversão de Agostinho à fé católica não apenas mudou seu modo de viver, abriu-lhe também novos horizontes para o pensar. Com efeito, Agostinho elevou a filosofia cristã a um outro patamar, estabelecendo novas fronteiras para o filosofar-na-fé. Com Agostinho nasceu um ideal de pensamento que perdurou toda a idade média. Afastando-se do fideísmo, ele propôs um novo tipo de "dialética vertical" resumida nas fórmulas: "crer para entender" e "entender para crer". Para Agostinho, fé e razão se complementam. A fé não substitui a inteligência, ela a estimula e promove. A razão não elimina a fé, ela a fortalece e clarifica.

O filosofar na fé

A conversão é o pressuposto do pensamento agostiniano. Somente na conversão é que se torna certa a fé, que não é necessitada por nada e não pode ser transmitida através de nenhuma doutrina, mas lhe é dada em dom por Deus. Quem não experimentou por si mesmo a conversão sempre encontrará algo de estranho em todo o pensamento que nela se fundamenta — K. Jaspers [1]

Quero dizer apenas mais umas palavras sobre o otimismo agostiniano. No artigo anterior [2], disse que Agostinho considerava o mundo sensível como lugar de erro e de dispersão para o espírito, o que pode ter lançado a suspeita de um certo pessimismo, representado no desprezo ao mundo. Da minha parte, entendo que essa suspeita não procede. Agostinho valorizava o mundo, era para ele o lugar de conversão, e isso se pode perceber na leitura de muitas de suas passagens:

In: "Sermão 21", 3-7

Toda criatura é boa e nela não há pecado, a não ser que a uses mal. Escuta-me, pois, ó homem. Tu dizes: Por que Deus fez o que me proíbe de amar? Se essa criatura pudesse ter voz quando a amas mal porque não amas a ti mesmo, te responderia: quiseras que Deus não me houvesse feito para não ter de amar? Nisso mesmo demonstras a tua iniqüidade e ficas preso em tuas próprias palavras. Quererias que Deus tivesse feito somente a ti mesmo e nenhum outro bem. Porém, como Deus fez boas todas as coisas, por isso a escritura diz: "Ordena em mim o amor" (Cant. 2,4) Quando pecas, senão quando tratas desordenadamente as coisas que recebeste para fazer uso delas? Usa bem as coisas inferiores e gozarás retamente do bem superior.

In: "Sobre a Epístola de João", 7,8

Os espinheiros também apresentam flores. Há atitudes aparentemente ásperas e até duras, mas que contudo são inspiradas pela disciplina da caridade. Uma vez por todas, foi-te dado somente um breve mandamento: Ama e faze o que quiseres. Se te calas, cala-te movido pelo amor; se falas em tom alto, fala por amor; se corrige, corrige com amor; se perdoas, perdoa por amor. Tem no fundo do coração a raiz do amor: dessa raiz não pode sair senão o bem!

Fica claro que Agostinho considerava o amor como a medida de todas as coisas. Não é sem razão que suas palavras tocaram a vida de milhões de pessoas, elas não falam apenas à mente, mas também ao coração:

In: "Evangelho segundo João", 26,6,A

Mostra-me um amante e entenderás o que eu digo. Mostra-me um que sinta desejos, fome, sede e cansaço nessa peregrinação solitária e que suspire pela fonte da eterna pátria. Dá-me um sujeito assim e entenderás o que eu digo. Porém, se falo a um morno, não entenderá nada.

 

A metafísica agostiniana

O pensamento agostiniano lembra influência platônica na busca de uma unidade capaz de vencer tanto o ceticismo quanto o relativismo. Essa unidade, entretanto, diferentemente de Platão, Agostinho a foi encontrar no interior do homem, na luz divina que habita em nós.

Seria interessante repassar rapidamente o processo de construção do pensamento para entender um pouco melhor como a busca de Deus levou Agostinho a um novo entendimento da realidade. Com efeito, enquanto foi adepto do maniqueísmo [3], Agostinho professou um materialismo radical, ao ponto de considerar que até Deus fosse também uma substância corporal, ainda que mais sutil [4]:

In: "Confissões" IV, 16

Eu pensava, Senhor Deus e Verdade, que vós fôsseis um corpo brilhante e imenso, e eu uma porção desse corpo.

Reagindo a esse erro, depois de sua conversão Agostinho ensinará a criação ex nihilo. Para ele o mundo só poderia ter se originado de dois modos: ou Deus o tirou da sua própria substância, ou o criou do nada. Ora, a substância divina não pode estar sujeita às mudanças e à corrupção como as coisas materiais neste universo, então só resta a segunda opção. Surge então outro problema: em que momento se deu a criação? Com efeito, esse tipo de questionamento foi feito pelos maniqueus, perguntando o que Deus fazia antes da criação [5]. E eles também poderiam ter perguntado porque Deus criou o mundo em um lugar e não em outro, ou o que existe no espaço fora do mundo criado. Para responder a todas essas perguntas de uma vez, Agostinho vai defender que não há espaço real fora do universo, e nem tampouco há tempo antes "do céu e da terra".

A questão do tempo

Não havendo mundo, haveria apenas Deus, que, sendo perfeição infinita, seria imutável — eternidade imóvel. Sendo o tempo uma unidade de mudança, não havendo mudança nenhuma não seria possível determinar um antes e um depois, e assim não haveria tempo. Deus é eterno e criou tudo, inclusive o tempo e o espaço. Deus assim nos escapa quase que completamente, porque nós, submissos até em nossos pensamentos à lei do devir, somos incapazes de representar para nós o modo de ser do permanente [6].

Agostinho considera tempo e espaço não como realidades separadas, mas como propriedades inerentes ao ser criado, e assim responde não somente às questões comentadas, mas também apresenta uma solução para outro problema mais complexo.

A questão sobre o instante da criação não se colocava para os gregos, que acreditavam ter o mundo sempre existido, e por consequência ser o tempo um ciclo eterno de períodos que se sucedem numa ordem fixa que se perpetua. Mas a hipótese do eterno retorno trazia outro problema sério para a filosofia, porque deixava de haver lugar para a beatitude  propriamente entendida num universo desse gênero. Ora, sendo a felicidade a posse estável e assegurada do bem soberano, que possibilidade restaria para obtê-la num mundo onde a perderíamos periodicamente, apenas para reencontrá-la antes de perdê-la novamente, e isso indefinidamente? Como amar sem reservas o que sabemos estar condenado a escapar um dia? A resposta de Agostinho foi simples e direta: só Deus é eterno, Ele criou o mundo do nada, e criou também a ordem do tempo e o espaço.

A eternidade não é um período perpétuo de tempo, porque a essência do tempo é ter uma existência fragmentária. O passado de algo que dura não existe mais no instante em que esse algo dura, o seu vir a ser ainda não existe, enquanto que o seu presente só pode consistir num instante indivisível: o passado já não é, o futuro ainda não é, e o presente se dissipa rapidamente para dar lugar a outro instante.

In: "Confissões" XI, 14

Não houve tempo nenhum em que não fizésseis alguma coisa, pois fazíeis o próprio tempo.

Nenhum tempo Vos é coeterno porque Vós permaneceis imutável, e se os tempos assim permanecessem já não seriam tempos. Que é, pois, o tempo? (…) Se ninguém me perguntar, eu sei; se quiser explicá-lo a quem me fizer a pergunta, já não sei. Porém, atrevo-me a declarar, sem receio de contestação, que, se nada sobrevivesse, não haveria tempo futuro, e se agora nada houvesse, não existia o tempo presente.

De que modo existem aqueles dois tempos — o passado e o futuro — se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente e não passasse para o pretérito, já não seria tempo mas eternidade. Mas se o presente, para ser tempo, tem necessariamente de passar para o pretérito, como podemos afirmar que ele existe, se a causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir? Para que digamos que o tempo verdadeiramente só existe porque tende a não ser?

Deixado o materialismo para trás, Agostinho passou a dar mais atenção que antes às realidades não materiais. O próprio tempo ele o considerou, sob um aspecto psicológico, como um ser de razão, uma propriedade do pensamento, ainda que com fundamento na realidade.

In: "Confissões" XI, 15

Contudo, dizemos tempo longo ou breve, e isto só podemos afirmar do futuro ou do passado. Chamamos longo ao tempo passado, se é anterior ao presente, por exemplo, cem anos. Do mesmo modo dizemos que o tempo futuro é longo, se é posterior ao presente, também cem anos. Chamamos breve ao passado, se dizemos, por exemplo, "há dez dias"; e ao futuro, se dizemos "daqui a dez dias". Mas como pode ser breve ou longo o que não existe? Com efeito, o passado já não existe e o futuro ainda não existe. Não digamos: "é longo"; mas digamos do passado: "foi longo"; e do futuro: "será longo".

Nesta questão, escarnecerá do homem a Vossa Verdade, ó meu Deus e minha Luz? O tempo longo, já passado, foi longo depois de passado ou quando ainda era presente? Só então podia ser longo (nesse momento presente), quando existia alguma coisa capaz de ser longa. O passado já não existia; portanto não podia ser longo aquilo que totalmente deixara de existir.

Não digamos pois "o tempo passado foi longo" porque não encontraremos aquilo que tivesse podido ser longo, visto que já não existe desde o instante em que passou. Digamos antes: "aquele tempo presente foi longo", porque só enquanto foi presente é que foi "longo". Ainda não tinha passado ao não-ser, e portanto existia uma coisa que podia ser longa. Mas logo que passou, simultaneamente deixou de ser longo, porque deixou de existir.

Vejamos, portanto, ó alma humana, se o tempo presente pode ser longo. Foi-te concedida a prerrogativa de perceberes e medires a sua duração. Que me responderás? Porventura cem anos presentes são muito tempo? Considera primeiro se cem anos podem ser presentes. Se o primeiro ano está decorrento, este é presente, mas os outros noventa e nove são futuros, portanto ainda não existem. Se está decorrendo o segundo ano, um é passado, outro presente, e os restantes futuros. (…)

Uma hora compõe-se de fugitivos instantes. Tudo o que dela já debandou é passado. Tudo o que ainda resta é futuro. Se pudermos conceber um espaço de tempo que não seja suceptível de ser subdividido em tais partes, por mais pequeninas que sejam, só a este podemos chamar tempo presente. Mas este voa tão rapidamente do futuro ao passado, que não tem nenhuma duração. Se a tivesse, dividir-se-ia em passado e futuro. Logo o tempo presente não tem nenhum espaço. Onde existe, portanto, o tempo que podemos chamar longo?

Por detrás do aspecto psicológico do tempo oculta-se um problema metafísico: o que está sujeito à sucessão é incapaz de existir plenamente, tudo que está sujeito ao tempo não pode realizar de uma só vez todo o seu ser. Em sua reflexão sobre o tempo, Agostinho conclui que somente o presente é que pode existir. Desse modo, ainda que não o perceba, o homem vive num eterno presente. Isso é digno de nota, porque essa percepção agostiniana tem valor inestimável para a ética cristã, para não falar da importância teológica, relacionada ao perdão dos pecados, mas esses assuntos terão que ficar para outra oportunidade.

In: "Confissões" XI, 18

Se existem coisas futuras e coisas passadas, quero saber onde elas estão. Se ainda não posso compreender, sei todavia que em qualquer parte onde estiverem, aí não são futuras nem pretéritas, mas presentes. Pois, se também aí são futuras, ainda lá não estão; e, se nesse lugar são pretéritas, já lá não estão. Por conseguinte, em qualquer parte onde estiverem, quaisquer que elas sejam, não podem existir senão no presente. Ainda que se narrem os acontecimentos verídicos já passados, a memória relata não os próprios acontecimentos que já decorreram mas sim as palavras concebidas pelas imagens daqueles fatos, os quais, ao passarem pelos sentidos, gravaram no espírito uma espécie de vestígios. Por conseguinte, a minha infância que já não existe presentemente, existe no passado que já não é. Porém a sua imagem quando a evoco e se torna objeto de alguma descrição, vejo-a no tempo presente, porque ainda está na minha memória.

Confesso-Vos, meu Deus, que não sei se a causa pela qual se prediz o futuro equivale ao fenômeno de se apresentarem ao espírito as imagens já existentes das coisas que ainda não existem. Sei com certeza que nós, na maior parte das vezes, premeditamos as nossas ações futuras e essa premeditação é presente, ao passo que a ação premeditada ainda não existe, porque é futura. Quando empreendermos e começarmos a realizar o que premeditamos, então essa ação existirá, porque já não é futura, mas presente. De qualquer modo que suceda este pressentimento oculto das coisas futuras, não podemos ver senão o que possui existência. Ora, o que já existe não é futuro, mas presente. Por conseguinte, quando se diz que se vêem os acontecimentos futuros, não se vêem os próprios acontecimentos ainda inexistentes — isto é, os fatos futuros — mas sim, as suas causas ou talvez os seus prognósticos já dotados de existência. Portanto, com relação aos que os vêem, esses acontecimentos não são futuros, mas sim presentes.

 

A questão do espaço

Por ter sido antes um materialista, depois de convertido Agostinho se interessou por demonstrar a existência de outra realidade que a realidade material. Penso que ele acreditava dever isso aos amigos, a quem antes tinha atraído ao maniqueísmo, muitos dos quais teve depois a alegria de reencontrar na igreja católica.

Considerando os corpos materiais, Agostinho observou que são sempre divisíveis; por isso um corpo nunca poderia ser realmente um, se não houvesse nele certa propriedade, em algum grau, que lhe conferisse a unidade relativa. Concluiu que a unidade relativa é dada pela semelhança, e que um corpo só é um corpo em razão da homogeneidade de suas partes constitutivas: para que a água seja água é necessário que todas as suas partes sejam de água, e o mesmo se pode dizer de qualquer outro elemento. Para que um corpo seja definido como tal, é necessário, portanto, que se realize numa certa espécie, sendo que a unidade de uma espécie consiste apenas na semelhança dos indivíduos que a compõem. Assim, a noção de árvore ou de animal, por exemplo, não teria nenhum sentido fora da similitude das árvores ou dos animais entre si.

In: "A verdadeira religião" V 34,63

Se a beleza das coisas visíveis nos enganam é porque elas contêm certa unidade, sem contudo a realizar plenamente. Compreendamos, se formos capazes, o que nos leva ao engano: não o que seja o objeto, mas o que ele não é. Todo corpo é verdadeiro corpo, mas com unidade falha. Não é o Uno supremo. Não o reproduz plenamente. E contudo, não seria um corpo se não tivesse essa certa unidade. Finalmente, ele não poderia ter essa unidade, se não a recebesse daquele que é o Uno supremo.

Para entender melhor a questão que se vai colocando, é importante saber que, na linguagem agostiniana e filosófica, corpo é sinônimo de matéria, e isso engloba tanto a matéria constituída quanto os efeitos da matéria (luz, calor, energia etc). Agostinho tratou desses assuntos em várias de suas obras: os corpos, ou matéria, fazem parte do mundo sensível [7]; é próprio da matéria a mutação [8]; e toda matéria é sujeita à medida e dimensão:

In: "Da grandeza da alma" 4

Agostinho — A alma parece não ser nada por não ter extensão material?

Evódio — Não posso dizer até agora que a alma não é nada, por não ter dimensões, como comprimento, largura ou volume. Mas você ainda não me explicou como ela é. É possível qie haja muita coisa digna de consideração e que não se limita materialmente. Não sei dizer se a alma pertence ao mesmo gênero destas coisas.

Agostinho — Eu sei que ainda resta esclarecer este assunto, e anteriormente prometi explicar a questão. Na verdade é questão em si muito sutil, e exige olhos mais capazes, os da mente, uma visão muito mais ampla do que a empregada nos olhos corporais, para as coisas de cada dia. Sugiro que, acompanhando a orientação que lhe dou, observe a direção do raciocínio. Não leve a mal que, por vezes, o caminho pareça um tanto cansativo, e se demoram a chegar as conclusões. E se isso decorre de um modo menos rápido que o seu desejo de resposta.

Pergunto inicialmente: Podemos supor a existência de algo corporal e que, de acordo com sua natureza, não tenha longitude, latitude e profundidade?

Evódio — O que deseja significar com profundidade?

Agostinho — Aquilo que nos permite imaginar as dimensões internas de um corpo, ou até perceber visualmente como em transparência. Porque, se retirarmos tal propriedade, não sabemos de sua existência. Quero a sua opinião sobre isso.

Evódio — Não há corpo sem as três dimensões.

Agostinho — E então? É possível admitir que tais dimensões sejam encontradas em algo que não é corporal?

Evódio — Não sei como isso seria possível.

Ao definir a matéria pela propriedade que os corpos têm de ter extensão — as três dimensões —, para provar a existência de uma realidade não-material, Agostinho vai provar a existência de uma substância que não é sujeita às relações de tempo e espaço. Em outras palavras, Agostinho vai provar que a alma não está sujeita às relações de tempo e espaço, mesmo quando o corpo atua no tempo e no espaço.

In: "Da grandeza da alma" 5

Agostinho — Supõe você que sua alma está situada apenas no seu corpo?

Evódio — Assim penso.

Agostinho — Está internamente como líquido que enche o recipiente, ou externamente como um envoltório? Ou ainda, das duas maneiras?

Evódio — Penso que da maneira referida por último. Se não estivesse internamente, meus órgãos internos não teriam vida. Se não estivesse externamente, minha pele não poderia sentir uma picada em qualquer parte do corpo.

Agostinho — Neste caso, para que deseja saber da quantidade da alma, se já admitiu ser tanta quanto permitem as partes do corpo?

Evódio — Se a razão me disser isso já é suficiente.

Agostinho — Faz bem em conceder que não se exija mais do que diz a razão. Entretanto, acha que o acima afirmado é razão suficiente?

Evódio — Sim, até que encontre outra. Em hora oportuna perguntarei ainda se a alma separada do corpo conserva esta mesma forma. (…)

Agostinho — Você está inteiramente errado. Antes, porém, vamos definir bem o que é quanta (aplicado à alma). Pois é este o tema que agora nos preocupa. E também aprenderei com isso, se assim lhe agrada.

Evódio — Pergunte como preferir, pois esta sua fingida dúvida me deixou hesitante sobre o que eu pensava estar resolvido.

Agostinho — Explique, por favor: pensa que a palavra memória é um termo sen sentido?

Evódio — E a quem pode parecer desta forma?

Agostinho — A memória é potência da alma, ou do corpo?

Evódio — A dúvida seria ridícula. Ninguém pode crer ou entender que um corpo morto tenha memória.

Agostinho — Lembra-se da cidade de Milão?

Evódio — Lembro bastante.

Agostinho — E, agora que nos referimos a ela, recorda suas dimensões e sua topografia?

Evódio — Certamente lembro, e nada existe mais completo e recente que tal lembrança.

Agostinho — Portato, agora que não pode ver Milão com os olhos, pode ver com a alma?

Evódio — Assim é.

Agostinho — Penso também que recorda a imensa distância entre nós, aqui em Roma, e a cidade de Milão?

Evódio — Certamente.

Agostinho — Ora, estando a alma aqui onde está seu corpo, e não se estendendo para fora deste corpo, como já foi dito, como pode abranger todas estas coisas, a visão da cidade, e a distância entre dois lugares?

Evódio — Parece que a memória pode fazer isso sem estar naquelas partes.

Agostinho — Logo, a memória conserva a imagem do lugar e do espaço?

Evódio — Penso que sim, porque agora eu não sei o que está acontecendo em Milão, e se minha alma pudesse chegar até lá eu não ignoraria coisa alguma.

Agostinho — Parece-me correto o que você diz. Mas, tais imagens certamente são de coisas corporais.

Evódio — Certamente, cidades e espaços são coisas corpóreas.

Agostinho — Já se olhou num espelho pequeno, ou já viu seu rosto na pupila alheia?

Evódio — Muitas vezes.

Agostinho — E sua imagem não parecia muito menor do que é seu rosto?

Evódio — Claro, queria que fosse maior que o espelho?

Agostinho — É necessário, portanto, que as imagens dos corpos sejam pequenas, quando os corpos que as representam são também pequenos?

Evódio — É de todo necessário.

Agostinho — Como explicar então que a alma, ligada ao pequeno espaço do corpo, é capaz de representar imagens imensas, muito maiores do que o corpo, cidades, campos, distâncias, e tudo mais que deseje, por maiores que sejam os objetos? Quero que reflita amplamente, e por mais tempo, quantas coisas são contidas na memória, e ali podem ser conservadas, e que, por isso mesmo, situam-se na alma. Que imensa profundidade e amplitude. Entretanto, como a razão nos mostra, a alma está ligada ao corpo, e é superior a ele.

Evódio — Já não sei dizer, nem consigo explicar o que tais noções produzem no meu entendimento. Chego a rir de mim mesmo por ter suposto a alma como uma quantidade do tipo corpóreo.

O diálogo é longo e continua de modo curioso.  Quem se interessar por lê-lo encontrará Agostinho refutando idéias estranhas como a de que ao crescimento do corpo acompanha o crescimento da alma, ou que a alma tem a forma do corpo. E não pense o leitor que essa discussão é inútil, porque até hoje ainda existe quem creia nesse tipo de coisa. Também são tratados outros assuntos relacionados com as habilidades da alma, como sejam o aprendizado da linguagem e da geometria [9]. No processo, Agostinho mostrará que sentir é diferente de entender — enquanto o sentir é próprio do corpo, o entender o sentido é próprio da alma —, que quando dizemos que a alma está no corpo o fazemos apenas pela sua atuação, e não por dimensão, e vai concluir que a alma é imaterial, porque sua atividade nunca é limitada em dimensão ou tempo; e assim mostrará que a alma é diferente dos corpos materiais, sempre limitados pela extensão tempo-espaço.

Fico por aqui. Podemos resumir dizendo que o pensamento agostiniano reconhece tempo e espaço, não como idéias abstratas, mas como coisas reais. O tempo é inerente ao ser criado, por isso não há tempo onde não há criatura, assim como também não há criatura sem tempo. A mesma coisa se dá com relação ao espaço, uma vez que este indica a limitação e a localização do ser criado. Apenas uma última curiosidade: a moderna definição de matéria, que foi utilizada por Einstein, de que "matéria é tudo que está sujeito à relação espaço-tempo", coincide com a de Santo Agostinho.

A filosofia não envelhece

O leitor já deve ter notado a semelhança entre a separação que Agostinho fez entre as coisas — entre as coisas materiais, definidas pela extensão, e as coisas não-materiais, percebidas pelo pensamento e ligadas à razão e ao espírito — e a separação feita por Descartes, séculos depois, entre "res extensa" e "res cogitans". Se achou isso curioso, talvez se surpreenderá ainda mais em saber que também os termos latinos utilizados foram os mesmos, isto é, embora seja verdade que Agostinho tratou desses assuntos em várias de suas obras, é possível encontrar em algumas delas os termos latinos posteriormente utilizados por Descartes. Coincidência? Deixo isso para o julgamento do leitor.

O cogito cartesiano apresenta também semelhanças com o cogito agostiniano? Para refutar os questionamentos dos acadêmicos e mostrar o equívoco dos céticos, Agostinho anunciou que existem verdades que são de todo incontestáveis, e afirmou que, ainda que alguém duvide, é verdade que se duvida, existe. Esta afirmação, depois conhecida como cogito agostiniano, pode ser resumida assim: "duvido, logo existo", ou melhor, "se duvido, penso; se penso, existo".

In: "A Cidade de Deus" XI, 26

Tais verdades desafiam todos os argumentos acadêmicos, que dizem: Quê? E se te enganas? Pois, se me engano, existo. Quem não existe não pode enganar-se; por isso, se me engano, existo. Logo, se existo, se me engano, como me engano, crendo que existo, quando é certo que existo, se me engano? Embora me engane, sou eu que me engano e, portanto, no que conheço que existo, não me engano. Como conheço que existo, assim conheço que conheço.

A argumentação reaparece de modo brilhante no livro X de "A Trindade", onde Agostinho afirma: "Quem duvidará que vive, que recorda, que entende, que quer, que pensa, que sabe e que julga? Pois, se duvida, vive; (…) se duvida, sabe que está duvidando; (…) se duvida, pensa; (…) se duvida, julga que não deve assentir temerariamente". E assim conclui que até para duvidar é preciso que a pessoa tenha certeza de alguma coisa. De fato, sempre achei a reflexão agostiniana, nessa questão, mais profunda que a de Descartes, além de guardar maior originalidade. Na passagem abaixo, aparece o termo latino que depois foi utilizado por Descartes:

In: "Solilóquios" II, 1

- Tu, que desejas te conhecer, sabes que existe?

- Eu o sei.

- Sabes se pensas? (Cogitare te scis?)

- Sim, sei.

- Então, é verdade que pensas? (Ergo verum est cogitare te?)

- Por certo.

 Não é sem razão que o pensamento de Agostinho moldou todo o ocidente cristão e prevaleceu por mais de mil anos como a referência teológica e filosófica. Suas reflexões se estenderam por diversas áreas do saber, o que espero ter ajudado a mostrar com o muito pouco que apresentei aqui. Num  próximo artigo  quero  abordar o método filosófico agostiniano, mostrando a passagem da reflexão do exterior para o interior e daí para a transcendência. E no momento  aproveitarei para tentar resumir a dita "prova da existência de Deus", executada nos moldes agostinianos.

Walace Rodrigues (30-mar-2008)

Anotações:
  1. K. Jaspers, "Os Grandes Filósofos". In: Dario Antiseri, Giovanni Reale, "História da Filosofia: Antigüidade e Idade Média", Ed. Paulus, 1991. []
  2. Veja o artigo anterior, aqui mesmo no blog. []
  3. Veja o artigo anterior, aqui mesmo no blog. []
  4. Nesse caso, não se trata de panteísmo, o dualismo radical da doutrina maniqueísta jamais o aceitaria, mas de uma confusão entre a alma e Deus. []
  5. Santo Agostinho, "Confissões", XI, 12 []
  6. Étienne Gilson, "Introdução ao estudo de Santo Agostinho", Ed. Paulus, 2007. []
  7. Santo Agostinho, "De immortalitate animae", 7,12. []
  8. Santo Agostinho, "Confissões", XII,6 []
  9. O tema da memória foi tratado também no livro X das Confissões, onde há uma síntese bem elaborada da psicologia racional. []

Feliz Páscoa!

Para a surpresa de alguns, os que ainda não se acostumaram comigo, dediquei uma parte do tempo da semana santa para ajudar nos serviços na igreja. Foi um modo de colaborar com a reforma deste morador, para combinar melhor com o quarto recém reformado. Já uma outra parte do tempo, investi na limpeza do meu quarto e organizando meus livros. Resumindo, tudo isso junto resultou em menos tempo do que eu esperava para terminar meus artigos pendentes para o blog. Sorry.

Tenham paciência, afinal, foi para uma boa causa :)

 

Feliz Páscoa

Walace Rodrigues (23-mar-2008)

A existência de Deus em Agostinho - parte 1

O homem por sua finitude está sujeito à experiência do abandono e da insegurança. Ele se encontra imerso na temporalidade, disperso entre o fluxo das imagens e as ondas dos desejos, lançado no mundo terreno, constantemente em risco de ser arrastado na variedade mutável dos prazeres sensíveis, ameaçado de cair do deleite de “bens eternos” para “bens temporais”.  Mesmo assim, fraco, meio cego e doente, o homem carrega dentro de si o sinal divindade, é amado do Criador e herdeiro da promessa. Assim provavelmente nos falaria Santo Agostinho, irmão por quem tenho carinho especial porque a leitura dos seus escritos tiveram um papel importante na minha conversão.

"A letargia é indolor; tira a sensação de dor, e quanto mais se tornar insensível, tanto pior. Igualmente a imortalidade é indolor; absorvida toda a corrupção, o corpo corruptível reveste-se de incorrupção, e o que é imortal reveste-se de imortalidade. Não sente, portanto, dor alguma o corpo imortal, nem sente o corpo em letargia. Que ninguém se considere imortal, entretanto, por ser insensível. Está mais perto da imortalidade o saudável homem que se retorce com dores do que o letárgico homem que não quer saber de sua enfermidade." [1]

Aurelius Augustinus (354-430 d.C.), Aurélio Agostinho ou como é mais conhecido Santo Agostinho, nasceu em Tagaste, cidade da Numídia, situada onde hoje é a Argélia, filho de um pai pagão e de uma a mãe cristã, católica fervorosa que depois também foi canonizada como exemplo de virtude cristã, Santa Mônica (333-387 d.C.).  Depois de um longo trajeto até a sua conversão e depois de uma intensa preparação, num dia abençoado, Agostinho foi batizado cristão, mais tarde foi sagrado bispo de Hipona, mas ele nunca deixou de ser filósofo. Sua experiência de conversão manifestou-se ao mesmo tempo como uma autêntica conversão filosófica. De fato, a conversão de Agostinho está associada com uma crítica radical de todo esquema cosmológico, porque, de acordo com o pensamento agostiniano, tempo e o espaço, enquanto limitações do mundo sensível, manifestam-se como lugares de erro e dispersão para o espírito. Assim, diferentemente de outros filósofos que procuravam a solução dos problemas filosóficos no estudo da realidade externa, na busca da verdade Agostinho voltou sua atenção para o mundo interior no homem, porque procurar o conhecimento do absoluto no mundo sensível seria como que procurar o verdadeiro fora da verdade.

"Não saias de ti, volta a ti mesmo, a verdade habita no homem interior" [2]

A busca de Deus resultou em Agostinho numa nova forma de ver o mundo. Neste artigo tentarei apresentar ao leitor um pouco da vida, para depois falar do pensamento, desse cristão notável, Santo Agostinho de Hipona.

O longo caminho até a conversão

Filho de Mônica, o jovem Agostinho cresceu ouvindo falar de Cristo pela boca da mãe. Aos 8 anos de idade foi atacado por um mal súbito do estômago, uma doença incomum que quase o levou à morte. Temendo por sua vida, Agostinho pediu o batismo, fato incomum naquela época, pois ainda era criança e não era costume batizar alguém sem uma longa e intensa preparação. Sua mãe, entretanto, dirigiu-se à igreja e pediu que fosse ministrado o sacramento ao filho. Era uma situação de emergência e temiam por sua vida, por isso os preparativos foram feitos às pressas; entretanto, pouco antes de darem início à cerimônia, a dor sumiu tão repentinamente quanto tinha aparecido. Passado pouco tempo, já estava Agostinho curado e, em vista do acontecido, decidiram transferir o batizado para mais tarde, para quando o menino tivesse mais idade, segundo o costume.

in: "Confissões" 10,27

Tarde vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim, e eu lá fora a procurar-Vos. Disforme, lançava-me sobre essas formosuras que criastes. Estáveis comigo, e eu não estava convosco.

Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós. Porém me chamastes com uma voz tão forte que rompeste a minha surdez! Brilhastes, cintilastes e logo afugentastes a minha cegueira! Exalastes perfume: respirei-o suspirando por Vós. Eu vos saboreei, e agora tenho fome e sede de Vós. Vós me tocastes e ardi no desejo da Vossa paz.

Agostinho crescia cheio de vivacidade e, desejando um melhor futuro para o filho, seus pais o enviaram para estudar em Madaura. Contudo, se a escola de lá tinha bons professores, muito mais danosas foram as más companhias. A gente da cidade era corrupta e pagã, as orgias eram freqüentes e muito comuns os festins em homenagem aos deuses pagãos, tudo isso junto exercia uma péssima influência sobre um jovem adolescente. Aos 16 anos, Agostinho já estava entregue de todo à busca dos prazeres e à satisfação dos sentidos. Seus pais perceberam a mudança e, tentando dar um melhor destino à vida do filho, decidiram enviá-lo para Cartago, na certeza de que lá ele encontraria um ambiente mais sadio.

A família de Agostinho não era rica, mas seu pai recebeu a ajuda do amigo Romaniano que lhe emprestou o necessário. Agostinho viajou para Cartago, aplicou-se nos estudos e logo se tornou o melhor aluno da escola.  Foi em Cartago que teve contato pela primeira vez com a obra de Cícero, e se encantou com a filosofia helenista.  A leitura do Hortênsio, que proclamava a existência de uma sabedoria imortal, causou um profundo impacto sobre o jovem Agostinho, e sem dúvida foi um dos motivos que o encaminharam definitivamente para a filosofia. Não é sem razão que, falando do tempo de estudos em Cartago, Agostinho nos diz:

in: "Confissões" 3,4

Seguindo o programa do curso, cheguei ao livro de Cícero, cuja linguagem, mais que o coração, quase todos louvam. Chama-se Hortênsio. Ele mudou o alvo das minhas afeições e encaminhou para Vós, Senhor, as minhas preces transformando as minhas aspirações e desejos. Imediatamente se tornaram vis, a meus olhos, as vãs esperanças. Já ambicionava, com incrível ardor do coração, a Sabedoria imortal.

Aconteceu que o ardor despertado com a leitura do Hortênsio fez lembrar a Agostinho a sua herança materna, seu cristianismo adormecido, e com isso ensaiou um estudo das Sagradas Escrituras. Aquela primeira experiência com a Bíblia, entretanto, foi quase desastrosa, conforme ele mesmo deixou relatado nas Confissões. De fato, enquanto escrevia sobre suas impressões com o Hortênsio, dizia:

in: "Confissões" 3,4

Uma só coisa me magoava no meio de tão grande ardor: não encontrar aí o nome de Cristo. Porque este nome, segundo disposição da Vossa Misericórdia, Senhor, este nome do meu Salvador e Filho Vosso, bebera-o com o leite materno o meu terno coração, e dele conservava o mais alto apreço. Tudo aquilo que de estivesse ausente este nome, ainda que fosse uma obra literária burilada e verídica, nunca me arrebatava totalmente.

Determinei, por isso, dedicar-me ao estudo da Sagrada Escritura, para a conhecer.

Vi então uma coisa encoberta para os soberbos, obscura para as crianças (…) A sua simplicidade repugnava ao meu orgulho e a luz da minha inteligência não lhe penetrava no íntimo. Na verdade, a agudeza de vista cresce com as crianças, porém eu de nenhum modo queria passar por criança e, enfatuado pelo orgulho, tinha-me na conta de grande!

 

Perdido entre os maniqueus

Depois de recusada a água da fonte, a busca inquieta de Agostinho pela verdade o conduziu ao maniqueísmo, doutrina marcada por um racionalismo materialista e um dualismo radical entre o bem e o mal, entendidos como princípios cósmicos.

Agostinho andou com os maniqueístas durante anos, até o dia em que se encontrou com o bispo maniqueu Fausto, considerado a maior autoridade da seita naquele tempo. Agostinho começou a entrevistá-lo no encontro, "numa ocasião em que não nos era indecoroso discutir",  e como Fausto não respondia a nenhuma das suas dúvidas, inclusive admitindo abertamente a sua ignorância, convenceu-se da insustentabilidade da doutrina maniqueísta. Falando do encontro e de Fausto nas Confissões, Agostinho elogia a habilidade retórica do maniqueu,  que "não era totalmente imperito na sua imperícia", porque para não se ver enredado em questões que não sabia responder preferira admitir sua ignorância esperando ganhar o adversário sob o manto da humildade. Mas, se é verdadeiro que "a piedade é sabedoria" (Jó 28,28 ), Agostinho nos diz, também é verdadeiro que quem atacava os católicos, pavoneando-se de conhecer a verdade quando se esforçava para atrair seguidores,  não dava mostras de ter alcançado uma verdadeira piedade. Agostinho, finalmente, libertava-se do maniqueísmo.

in: "Confissões" 5,7

Deste modo aquele Fausto, que tinha sido para muitos outros um laço mortal, começara involuntária e inconscientemente a afrouxar aquele com que eu fora capturado. As vossas mãos, meu Deus, ocultas nos segredos da vossa Providência, não abandonavam minha alma. Noite e dia, minha mãe Vos oferecia por mim, em sacrifício, o sangue do seu coração transformado em lágrimas. Vós procedestes comigo de modo admirável. Fostes Vós, meu Deus, quem dispôs deste modo as coisas, pois "o Senhor é quem dirige os passos do homem e lhe inspira o caminho".  Quem nos salvaria senão a vossa mão, restauradora da obra que fizestes?

Quando Agostinho partiu de Cartago para Roma, seu coração já não era mais maniqueu. (Uma outra batalha tivera início.) Ele tinha se tornado professor de retórica, e ouvira dizer que  o ambiente em Roma era melhor para lecionar. Os alunos eram "mais sossegadamente refreados pela regrada disciplina", enquanto os de Cartago eram destemperados, desavergonhados e  com insolência incrível cometiam "mil impropérios que deveriam ser punidos, se o costume não os patrocinasse".

Apenas chegado em Roma, caiu de novo Agostinho doente, dessa vez sozinho e em terra estranha. Com o agravamento da febre, viu-se novamente ameaçado pela morte, mas não era entretanto a mesma pessoa que agora sofria no leito…

in: "Confissões" 5,9

Nem sequer num perigo tão iminente desejava o Vosso batismo. Quando criança era mais santo do que agora, porque então solicitei da piedade de minha mãe, como já antes recordei e confessei. Crescera em anos para a minha desonra, e, na minha loucura, zombava dos remédios da Vossa medicina, que, em tal estado, não me permitiu morrer duas vezes. Se o coração de minha mãe fosse golpeado por esta ferida, nunca mais sararia! (…) não vejo como poderia fechar esse ferida se o punhal da minha morte traspassasse as entranhas do seu amor. Onde estariam esses orações, tão prolongadas, frequentes e nunca interrompidas? Em nenhuma parte senão em Vós. Seria possível que Vós, o Deus das misericórdias, desprezásseis "o coração contrito e humilhado" de uma viúva casta e sóbria, esmoler, obediente e obsequiadora dos Vossos santos, que não deixava passar dia algum sem levar oferenda ao Vosso altar?

Duas vezes ao dia, de manhã e à tarde, sem exceção, se dirigia à vossa igreja, não para gastar o tempo em vãs conversações e tagarelice de velhas, mas sim para escutar Vossas palavras e ser por Vós ouvida em suas preces. E poderíeis Vós desdenhar das lágrimas com que ela Vos pedia, não o ouro e a prata ou qualquer outro bem desprezível e frágil, mas a salvação da alma do seu filho? (…) Já que "a Vossa misericórdia não tem fim", condescendeis em tornar-Vos, por Vossas promessas, devedor daqueles a quem perdoastes todas as dividas.

Vós me restabelecestes daquela doença e salvastes, pelo que respeita ao corpo, o filho de vossa serva para terdes oportunidade de lhe conceder uma saúde melhor e mais firme.

 

Tentado pelo ceticismo

A desilusão com o maniqueísmo, depois de ter investido tanto tempo na seita, deixou Agostinho hesitante. Justamente quando ele se julgava mais perto da verdade, descobriu quanto estava perdido no erro. O mesmo ceticismo que lhe lançara a semente da dúvida, que o ajudara a romper as amarras do maniqueísmo, entretanto, também o levou a questionar como alguém poderia de fato buscar a verdade, ou mesmo se seria possível para alguém encontrá-la.

in: "Confissões" 5,10

Ocorreu-me ao pensamento ter havido uns filósofos chamados acadêmicos, mais prudentes do que os outros, porque julgavam que de tudo se havia de duvidar e sustentavam que nada de verdadeiro podia ser compreendido pelo homem. Ao meu espírito, que ainda não entendia tal doutrina, parecia que tinham raciocinado com esperteza, como vulgarmente se julgava.

Foi um tempo dramático para Agostinho, seus amigos ainda continuavam maniqueus, mas internamente já não se sentia mais um membro da seita. Sentia a dúvida morder cada vez mais forte, mas não sabia aonde ir. Viu-se tentado a abraçar o ceticismo e unir-se aos acadêmicos, mas enquanto respeitava a prudência de alguns de seus filósofos, questionava as práticas, e assim a dúvida se aplicava também a eles. Ademais, não se sentia preparado para seguir com os céticos porque nos seus escritos não encontrava o Cristo.

in: "Contra os acadêmicos" II,9,23

Não sei como introduziram na minha alma a probabilidade de que o homem não pode achar a verdade, que me fiz preguiçoso e completamente indolente, não me atrevendo a buscar o que varões argutíssimos e doutíssimos não lograram descobrir

Mas se o homem fraquejava, a providência não esmorece. Cristo sempre permanecera a estrela guia. Durante todo o tempo, mesmo quando esteve perdido "nas praças da Babilônia, revolvendo-me na lama, como em cinamomo e ungüentos preciosos", brilhava na escuridão o Cristo que o atraía para uma nova vida. Deus trabalhava em favor de Agostinho.

O encontro com Santo Ambrósio

Surgira uma vaga para professor de retórica em Milão, Agostinho candidatou-se e foi logo aprovado para o cargo. Chegado em Milão, por razões profissionais, como homem estudioso da retórica, foi visitar o Bispo Ambrósio, conhecido de todos por sua eloqüência. Nada melhor, entretanto, que dar a palavra ao próprio Agostinho:

in: "Confissões" 5,13

Vós me leváveis a Ambrósio, sem eu o saber, para ser por ele conscientemente levado a Vós.

Este homem de Deus recebeu-me paternalmente e apreciou a minha vinda bastante episcopalmente. Comecei a amá-lo, ao princípio não como mestre da Verdade — pois jamais esperava encontrá-la na Vossa Igreja — mas como um homem benigno para mim. Ardorosamente o ouvia quando pregava ao povo, não com o espírito que convinha, mas como que a sondar a sua eloqüência para ver se correspondia à fama, ou se realmente se exagerava ou diminuía a sua reputação oratória. Estava suspenso por suas palavras, extasiado, porém indiferente, e até zombando do que ele dizia. Deleitava-me com a suavidade do discurso, bem mais erudito do que o de Fausto, porém menos humorístico e sedutor na apresentação. Pelo que se refere ao assunto, não se podem comparar, pois um vagabundeava pelos enganos dos maniqueístas e o outro ensinava com a máxima segurança a salvação.

Mas "dos pecadores", tal como eu era nesse tempo, "está longe a salvação" [3]. Todavia, insensivelmente e sem o saber, me ia aproximando dela.

Não me esforçava por aprender o que o Bispo dizia, mas só reparava no modo como ele falava. Este gosto frívolo da eloqüência permanecera em mim, perdidas já todas as esperanças de que se patenteasse ao homem o caminho para Vós. Contudo, junto com as palavras que me deleitavam, iam-se também infiltrando no meu espírito os ensinamentos que desprezava.

Já não os podia discernir uns dos outros. Enquanto abria o coração para receber as palavras eloqüêntes, entravam também de mistura, pouco a pouco, as verdades que ele pregava. Logo comecei a notar que estas se podiam defender.

Já não julgava temerárias as afirmações da fé católica que eu supunha nada poder retorquir contra os ataques dos maniqueus. Isto consegui-o eu por ouvir muitíssimas vezes a interpretação de textos enigmáticos do Antigo Testamento que, tomados no sentido literal, me davam a morte. Expostos assim, segundo o sentido alegórico já repreendiam o meu desespero que me levava a crer na impossibilidade de resistir àqueles que aborreciam e troçavam da lei e dos profetas.

Não obstante não me julgava obrigado a seguir logo o caminho da fé católica só pelo fato de ela também poder contar com doutos defensores que refutavam as objeções de seus adversários com eloqüência e lógica. Outrossim, não me parecia condenável o partido que eu abraçara, pois eram iguais as armas de defesa. Desse modo a fé católica não me parecia vencida, mas também se me não afigurava vencedora. (…)

Assim, duvidando de tudo, à maneira dos Acadêmicos — como os julga a opinião mais seguida — e flutuando entre todas as doutrinas, determinei abandonar os manqueístas, parecendo-me que não devia, nesta crise de dúvida, permanecer naquela seita à qual já antepunha alguns filósofos. Porém, recusava-me terminantemente a confiar a cura da enfermidade da minha alma a esses filósofos que desconheciam o nome salutar de Cristo.

Por isso, resolvi fazer-me catecúmeno na Igreja católica, à qual meus pais me tinham inclinado, até vir alguma certeza a elucidar-me o caminho a seguir.

 

Entre amigos

Haveria ainda muito para ser dito: o trabalho de Ambrósio, o reencontro com a Bíblia, a alegria de sua mãe, alegria desconfiada em princípio pelas investidas equivocadas do filho, e exultante e ornamentada com lágrimas de júbilo ao ter confirmada a notícia: seu filho Agostinho se encontrava entre os católicos. Faltaria falar do encontro com o neoplatonismo, que chegou a Agostinho pela mão dos cristãos, a conversão de antigos e queridos amigos e a triste perda de outros, suas experiências espirituais, os novos amigos, enfim, ainda uma longa trajetória até a definitiva e verdadeira conversão. Muito mais tarde, e contra a vontade, seria eleito bispo por aclamação. Mas aí já seria outra história.

Fico por aqui. Quem se interessar pode sempre ler as "Confissões" de Agostinho, um clássico da literatura. Uma leitura que, aliás, recomendo. Dizem que é contado entre os livros mais lidos da história, que para cada letra sua se converteram centenas de cristãos, muitos deles santos. A decisão é tua, leitor. Toma e lê.

Terminado este relato, que inclui a título de introdução, quero no próximo texto continuar com algo da filosofia (e teologia) de Santo Agostinho. Até lá.

Walace Rodrigues (17-mar-2008)

Anotações:
  1. Santo Agostinho, "Comentário aos Salmos", 55,6. []
  2. Santo Agostinho, "A verdadeira religião", 39,72. []
  3. Salmo 44, 8 []

King Crimson - Tributo aos dinossauros

Estou reformando meu quarto - está uma confusão, portanto. Recebi os meus cubos.  E o pior de tudo, ter me metido a instalar e configurar e fazer funcionar a contento numa máquina aquela coisa de Windows. Nem bem terminei e já estou com saudades do Linux. Para que inventei de instalar um windows 64bits? A coisa toda é uma ratoeira de bugs! Bem, chega de reclamar que a situação seria ainda pior se fosse o Vista.

Enquanto isso, para fugir do estresse e ganhar tempo para arrumar o quarto e terminar os três artigos que estou escrevendo, vou trazer para cá o som de uma banda inglesa que gosto muito. Outro dos antigos, formada pelo guitarrista Robert Fripp e pelo baterista Michael Giles em 1968, o grupo é um ótimo representante do rock progressivo. O estilo do King Crimson  combina em arranjos finos os elementos da música erudita e do jazz com o rock. Curta o som enquanto termino meu artigo :)

 

 

 

Até amanhã.

Walace Rodrigues (01-mar-2008)