
Agostinho escreveu um enorme número de obras: um total de 113 tratados e mais de 500 sermões, sem contar as cartas – das quais se conservaram mais de 200 até hoje. Qualquer tentativa de resumir, portanto, o pensamento de Agostinho implicaria num trabalho hercúleo. E não bastasse o volume da obra, o caráter polêmico de muitos de seus escritos, que surgiram em resposta às preocupações que atormentavam a Igreja do seu tempo, fazem necessária a leitura de mais que umas poucas obras por quem desejar enxergar uma visão melhor do conjunto. Agostinho esteve diretamente envolvido em muitas das polêmicas da época, principalmente contra os maniqueus (que defendiam a existência de dois princípios criadores distintos e em conflito, considerando de origem maligna tudo que é material), os donatistas (que atribuíam a eficácia dos sacramentos unicamente à santidade do ministro, só reconhecendo como válidos os sacramentos ministrados por eles, razão pela qual rebatizavam todos os que se lhes agregassem) e os pelagianos (que defendiam que o homem se salva por suas próprias forças, sem precisar da graça de Deus). Além das obras destinadas a combater os adversários e inimigos da Igreja, Agostinho escreveu muitas outras de conteúdo exegético, dogmático e pastoral. Em todas elas encontramos conteúdo filosófico, pois para Agostinho a sabedoria não separava teologia de filosofia.
O otimismo agostiniano
Sempre identifiquei na filosofia agostiniana um otimismo de fundo que contrasta com o pessimismo, em relação à situação do homem, de alguns intérpretes que se disseram leitores de Agostinho. De fato, em algumas passagens, Agostinho insistiu de tal modo na degradação da humanidade, causada pelo pecado, que uma leitura isolada delas poderia supor um grande pessimismo de sua parte. Um olhar mais atento para o conjunto da obra, entretanto, revelará uma grande confiança no gênero humano. Apesar de reconhecidas as fraquezas do gênero humano, Agostinho não perdeu a esperança no homem, sempre chamado à conversão.
In: "A Trindade" (XIV,4,6)
É necessário, porém, procurar na alma do homem, ou seja, em sua mente racional e inteligente, essa imagem do Criador, inserida imortalmente nesta nossa natureza imortal.
É em certo sentido que se fala da imortalidade da alma, pois a alma também tem a sua morte, quando se priva da vida bem-aventurada, que é a sua verdadeira vida. Diz-se, porém, que ela é imortal, porque não deixa de viver, qualquer que seja essa vida, seja mesmo a mais mísera. Assim também, embora a razão ou a inteligência esteja por vezes como que adormecida, ora pequena ora grande, a alma humana, contudo, sempre será racional e inteligente. Donde se segue, que ela foi criada à imagem de Deus, no sentido de que pode usar da razão para conhecer e contemplar a Deus, conseqüentemente, essa natureza tão sublime e admirável, desde que começou a existir, sempre existirá, mesmo se ficar tão deteriorada que pareça quase não existir e seja obscurecida e disforme, ou seja clara e bela.
Afinal, a Escritura divina, deplorando a deformidade da dignidade da alma, diz: "Ainda que o homem caminhe como uma imagem, é em vão que se afadiga; entesoura, e não sabe quem desfrutará" (Sl 38,7) A Escritura não atribuiria a vacuidade à imagem de Deus, o fatigar-se em vão, se não a visse deformada. E contudo, demonstra claramente que essa deformidade não é tão forte a ponto de fazer apagar-se a imagem de Deus, ao dizer: "O homem caminha como uma imagem". Pelo que, essa sentença, pode ser proclamada verdadeira de duas maneiras; pois, assim como foi afirmado: "Ainda que o homem caminhe como uma imagem e em vão se afadigue", pode-se inverter as proposições e dizer também: "Ainda que o homem se deixe cansar em vão, ele caminha como uma imagem".
Acho importante ressaltar esse otimismo para rebater interpretações reducionistas e bastante pobres que têm sido atribuídas a Santo Agostinho. É o mesmo otimismo que se apresenta de novo em Agostinho, quando ele mostra confiança na razão humana. É curioso, um homem que passou por tantas crises, incluindo de ceticismo, tenha chegado a depositar, depois de sua conversão, tanta confiança na razão, ao ponto de supor nela a força para chegar até Deus: porque cria que também a razão é obra da graça presenteada ao homem no instante da sua criação. A afirmação anterior, entretanto, não será de todo verdadeira se for esquecido o papel importantíssimo que Agostinho atribuía à fé no processo de aprendizado da verdade. Se, por um lado, confiava na razão; por outro, defendia a necessidade imperiosa da fé para orientar os esforços da razão para permitir alcançar a verdade última manifestada no conhecimento do Cristo. Muito a grosso modo poderíamos resumir assim: se um homem, fazendo bom uso da razão, consegue percorrer o caminho e chegar aos muros da fortaleza, é pela força da fé que se lhe abrirá a porta do castelo.
In: "Contra os acadêmicos"
Essa é, com efeito, a minha atual disposição: desejo aprender sem demora as razões do verdadeiro, não só com a fé, mas também com a inteligência.
É necessário perceber: o eixo central de toda a obra agostiniana é a conversão. A conversão de Agostinho à fé católica não apenas mudou seu modo de viver, abriu-lhe também novos horizontes para o pensar. Com efeito, Agostinho elevou a filosofia cristã a um outro patamar, estabelecendo novas fronteiras para o filosofar-na-fé. Com Agostinho nasceu um ideal de pensamento que perdurou toda a idade média. Afastando-se do fideísmo, ele propôs um novo tipo de "dialética vertical" resumida nas fórmulas: "crer para entender" e "entender para crer". Para Agostinho, fé e razão se complementam. A fé não substitui a inteligência, ela a estimula e promove. A razão não elimina a fé, ela a fortalece e clarifica.
O filosofar na fé
A conversão é o pressuposto do pensamento agostiniano. Somente na conversão é que se torna certa a fé, que não é necessitada por nada e não pode ser transmitida através de nenhuma doutrina, mas lhe é dada em dom por Deus. Quem não experimentou por si mesmo a conversão sempre encontrará algo de estranho em todo o pensamento que nela se fundamenta — K. Jaspers []
Quero dizer apenas mais umas palavras sobre o otimismo agostiniano. No artigo anterior [], disse que Agostinho considerava o mundo sensível como lugar de erro e de dispersão para o espírito, o que pode ter lançado a suspeita de um certo pessimismo, representado no desprezo ao mundo. Da minha parte, entendo que essa suspeita não procede. Agostinho valorizava o mundo, era para ele o lugar de conversão, e isso se pode perceber na leitura de muitas de suas passagens:
In: "Sermão 21", 3-7
Toda criatura é boa e nela não há pecado, a não ser que a uses mal. Escuta-me, pois, ó homem. Tu dizes: Por que Deus fez o que me proíbe de amar? Se essa criatura pudesse ter voz quando a amas mal porque não amas a ti mesmo, te responderia: quiseras que Deus não me houvesse feito para não ter de amar? Nisso mesmo demonstras a tua iniqüidade e ficas preso em tuas próprias palavras. Quererias que Deus tivesse feito somente a ti mesmo e nenhum outro bem. Porém, como Deus fez boas todas as coisas, por isso a escritura diz: "Ordena em mim o amor" (Cant. 2,4) Quando pecas, senão quando tratas desordenadamente as coisas que recebeste para fazer uso delas? Usa bem as coisas inferiores e gozarás retamente do bem superior.
In: "Sobre a Epístola de João", 7,8
Os espinheiros também apresentam flores. Há atitudes aparentemente ásperas e até duras, mas que contudo são inspiradas pela disciplina da caridade. Uma vez por todas, foi-te dado somente um breve mandamento: Ama e faze o que quiseres. Se te calas, cala-te movido pelo amor; se falas em tom alto, fala por amor; se corrige, corrige com amor; se perdoas, perdoa por amor. Tem no fundo do coração a raiz do amor: dessa raiz não pode sair senão o bem!
Fica claro que Agostinho considerava o amor como a medida de todas as coisas. Não é sem razão que suas palavras tocaram a vida de milhões de pessoas, elas não falam apenas à mente, mas também ao coração:
In: "Evangelho segundo João", 26,6,A
Mostra-me um amante e entenderás o que eu digo. Mostra-me um que sinta desejos, fome, sede e cansaço nessa peregrinação solitária e que suspire pela fonte da eterna pátria. Dá-me um sujeito assim e entenderás o que eu digo. Porém, se falo a um morno, não entenderá nada.
A metafísica agostiniana
O pensamento agostiniano lembra influência platônica na busca de uma unidade capaz de vencer tanto o ceticismo quanto o relativismo. Essa unidade, entretanto, diferentemente de Platão, Agostinho a foi encontrar no interior do homem, na luz divina que habita em nós.
Seria interessante repassar rapidamente o processo de construção do pensamento para entender um pouco melhor como a busca de Deus levou Agostinho a um novo entendimento da realidade. Com efeito, enquanto foi adepto do maniqueísmo [], Agostinho professou um materialismo radical, ao ponto de considerar que até Deus fosse também uma substância corporal, ainda que mais sutil []:
In: "Confissões" IV, 16
Eu pensava, Senhor Deus e Verdade, que vós fôsseis um corpo brilhante e imenso, e eu uma porção desse corpo.
Reagindo a esse erro, depois de sua conversão Agostinho ensinará a criação ex nihilo. Para ele o mundo só poderia ter se originado de dois modos: ou Deus o tirou da sua própria substância, ou o criou do nada. Ora, a substância divina não pode estar sujeita às mudanças e à corrupção como as coisas materiais neste universo, então só resta a segunda opção. Surge então outro problema: em que momento se deu a criação? Com efeito, esse tipo de questionamento foi feito pelos maniqueus, perguntando o que Deus fazia antes da criação []. E eles também poderiam ter perguntado porque Deus criou o mundo em um lugar e não em outro, ou o que existe no espaço fora do mundo criado. Para responder a todas essas perguntas de uma vez, Agostinho vai defender que não há espaço real fora do universo, e nem tampouco há tempo antes "do céu e da terra".
A questão do tempo
Não havendo mundo, haveria apenas Deus, que, sendo perfeição infinita, seria imutável — eternidade imóvel. Sendo o tempo uma unidade de mudança, não havendo mudança nenhuma não seria possível determinar um antes e um depois, e assim não haveria tempo. Deus é eterno e criou tudo, inclusive o tempo e o espaço. Deus assim nos escapa quase que completamente, porque nós, submissos até em nossos pensamentos à lei do devir, somos incapazes de representar para nós o modo de ser do permanente [].

Agostinho considera tempo e espaço não como realidades separadas, mas como propriedades inerentes ao ser criado, e assim responde não somente às questões comentadas, mas também apresenta uma solução para outro problema mais complexo.
A questão sobre o instante da criação não se colocava para os gregos, que acreditavam ter o mundo sempre existido, e por consequência ser o tempo um ciclo eterno de períodos que se sucedem numa ordem fixa que se perpetua. Mas a hipótese do eterno retorno trazia outro problema sério para a filosofia, porque deixava de haver lugar para a beatitude propriamente entendida num universo desse gênero. Ora, sendo a felicidade a posse estável e assegurada do bem soberano, que possibilidade restaria para obtê-la num mundo onde a perderíamos periodicamente, apenas para reencontrá-la antes de perdê-la novamente, e isso indefinidamente? Como amar sem reservas o que sabemos estar condenado a escapar um dia? A resposta de Agostinho foi simples e direta: só Deus é eterno, Ele criou o mundo do nada, e criou também a ordem do tempo e o espaço.
A eternidade não é um período perpétuo de tempo, porque a essência do tempo é ter uma existência fragmentária. O passado de algo que dura não existe mais no instante em que esse algo dura, o seu vir a ser ainda não existe, enquanto que o seu presente só pode consistir num instante indivisível: o passado já não é, o futuro ainda não é, e o presente se dissipa rapidamente para dar lugar a outro instante.
In: "Confissões" XI, 14
Não houve tempo nenhum em que não fizésseis alguma coisa, pois fazíeis o próprio tempo.
Nenhum tempo Vos é coeterno porque Vós permaneceis imutável, e se os tempos assim permanecessem já não seriam tempos. Que é, pois, o tempo? (…) Se ninguém me perguntar, eu sei; se quiser explicá-lo a quem me fizer a pergunta, já não sei. Porém, atrevo-me a declarar, sem receio de contestação, que, se nada sobrevivesse, não haveria tempo futuro, e se agora nada houvesse, não existia o tempo presente.
De que modo existem aqueles dois tempos — o passado e o futuro — se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente e não passasse para o pretérito, já não seria tempo mas eternidade. Mas se o presente, para ser tempo, tem necessariamente de passar para o pretérito, como podemos afirmar que ele existe, se a causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir? Para que digamos que o tempo verdadeiramente só existe porque tende a não ser?
Deixado o materialismo para trás, Agostinho passou a dar mais atenção que antes às realidades não materiais. O próprio tempo ele o considerou, sob um aspecto psicológico, como um ser de razão, uma propriedade do pensamento, ainda que com fundamento na realidade.
In: "Confissões" XI, 15
Contudo, dizemos tempo longo ou breve, e isto só podemos afirmar do futuro ou do passado. Chamamos longo ao tempo passado, se é anterior ao presente, por exemplo, cem anos. Do mesmo modo dizemos que o tempo futuro é longo, se é posterior ao presente, também cem anos. Chamamos breve ao passado, se dizemos, por exemplo, "há dez dias"; e ao futuro, se dizemos "daqui a dez dias". Mas como pode ser breve ou longo o que não existe? Com efeito, o passado já não existe e o futuro ainda não existe. Não digamos: "é longo"; mas digamos do passado: "foi longo"; e do futuro: "será longo".
Nesta questão, escarnecerá do homem a Vossa Verdade, ó meu Deus e minha Luz? O tempo longo, já passado, foi longo depois de passado ou quando ainda era presente? Só então podia ser longo (nesse momento presente), quando existia alguma coisa capaz de ser longa. O passado já não existia; portanto não podia ser longo aquilo que totalmente deixara de existir.
Não digamos pois "o tempo passado foi longo" porque não encontraremos aquilo que tivesse podido ser longo, visto que já não existe desde o instante em que passou. Digamos antes: "aquele tempo presente foi longo", porque só enquanto foi presente é que foi "longo". Ainda não tinha passado ao não-ser, e portanto existia uma coisa que podia ser longa. Mas logo que passou, simultaneamente deixou de ser longo, porque deixou de existir.
Vejamos, portanto, ó alma humana, se o tempo presente pode ser longo. Foi-te concedida a prerrogativa de perceberes e medires a sua duração. Que me responderás? Porventura cem anos presentes são muito tempo? Considera primeiro se cem anos podem ser presentes. Se o primeiro ano está decorrento, este é presente, mas os outros noventa e nove são futuros, portanto ainda não existem. Se está decorrendo o segundo ano, um é passado, outro presente, e os restantes futuros. (…)
Uma hora compõe-se de fugitivos instantes. Tudo o que dela já debandou é passado. Tudo o que ainda resta é futuro. Se pudermos conceber um espaço de tempo que não seja suceptível de ser subdividido em tais partes, por mais pequeninas que sejam, só a este podemos chamar tempo presente. Mas este voa tão rapidamente do futuro ao passado, que não tem nenhuma duração. Se a tivesse, dividir-se-ia em passado e futuro. Logo o tempo presente não tem nenhum espaço. Onde existe, portanto, o tempo que podemos chamar longo?
Por detrás do aspecto psicológico do tempo oculta-se um problema metafísico: o que está sujeito à sucessão é incapaz de existir plenamente, tudo que está sujeito ao tempo não pode realizar de uma só vez todo o seu ser. Em sua reflexão sobre o tempo, Agostinho conclui que somente o presente é que pode existir. Desse modo, ainda que não o perceba, o homem vive num eterno presente. Isso é digno de nota, porque essa percepção agostiniana tem valor inestimável para a ética cristã, para não falar da importância teológica, relacionada ao perdão dos pecados, mas esses assuntos terão que ficar para outra oportunidade.
In: "Confissões" XI, 18
Se existem coisas futuras e coisas passadas, quero saber onde elas estão. Se ainda não posso compreender, sei todavia que em qualquer parte onde estiverem, aí não são futuras nem pretéritas, mas presentes. Pois, se também aí são futuras, ainda lá não estão; e, se nesse lugar são pretéritas, já lá não estão. Por conseguinte, em qualquer parte onde estiverem, quaisquer que elas sejam, não podem existir senão no presente. Ainda que se narrem os acontecimentos verídicos já passados, a memória relata não os próprios acontecimentos que já decorreram mas sim as palavras concebidas pelas imagens daqueles fatos, os quais, ao passarem pelos sentidos, gravaram no espírito uma espécie de vestígios. Por conseguinte, a minha infância que já não existe presentemente, existe no passado que já não é. Porém a sua imagem quando a evoco e se torna objeto de alguma descrição, vejo-a no tempo presente, porque ainda está na minha memória.
Confesso-Vos, meu Deus, que não sei se a causa pela qual se prediz o futuro equivale ao fenômeno de se apresentarem ao espírito as imagens já existentes das coisas que ainda não existem. Sei com certeza que nós, na maior parte das vezes, premeditamos as nossas ações futuras e essa premeditação é presente, ao passo que a ação premeditada ainda não existe, porque é futura. Quando empreendermos e começarmos a realizar o que premeditamos, então essa ação existirá, porque já não é futura, mas presente. De qualquer modo que suceda este pressentimento oculto das coisas futuras, não podemos ver senão o que possui existência. Ora, o que já existe não é futuro, mas presente. Por conseguinte, quando se diz que se vêem os acontecimentos futuros, não se vêem os próprios acontecimentos ainda inexistentes — isto é, os fatos futuros — mas sim, as suas causas ou talvez os seus prognósticos já dotados de existência. Portanto, com relação aos que os vêem, esses acontecimentos não são futuros, mas sim presentes.
A questão do espaço

Por ter sido antes um materialista, depois de convertido Agostinho se interessou por demonstrar a existência de outra realidade que a realidade material. Penso que ele acreditava dever isso aos amigos, a quem antes tinha atraído ao maniqueísmo, muitos dos quais teve depois a alegria de reencontrar na igreja católica.
Considerando os corpos materiais, Agostinho observou que são sempre divisíveis; por isso um corpo nunca poderia ser realmente um, se não houvesse nele certa propriedade, em algum grau, que lhe conferisse a unidade relativa. Concluiu que a unidade relativa é dada pela semelhança, e que um corpo só é um corpo em razão da homogeneidade de suas partes constitutivas: para que a água seja água é necessário que todas as suas partes sejam de água, e o mesmo se pode dizer de qualquer outro elemento. Para que um corpo seja definido como tal, é necessário, portanto, que se realize numa certa espécie, sendo que a unidade de uma espécie consiste apenas na semelhança dos indivíduos que a compõem. Assim, a noção de árvore ou de animal, por exemplo, não teria nenhum sentido fora da similitude das árvores ou dos animais entre si.
In: "A verdadeira religião" V 34,63
Se a beleza das coisas visíveis nos enganam é porque elas contêm certa unidade, sem contudo a realizar plenamente. Compreendamos, se formos capazes, o que nos leva ao engano: não o que seja o objeto, mas o que ele não é. Todo corpo é verdadeiro corpo, mas com unidade falha. Não é o Uno supremo. Não o reproduz plenamente. E contudo, não seria um corpo se não tivesse essa certa unidade. Finalmente, ele não poderia ter essa unidade, se não a recebesse daquele que é o Uno supremo.
Para entender melhor a questão que se vai colocando, é importante saber que, na linguagem agostiniana e filosófica, corpo é sinônimo de matéria, e isso engloba tanto a matéria constituída quanto os efeitos da matéria (luz, calor, energia etc). Agostinho tratou desses assuntos em várias de suas obras: os corpos, ou matéria, fazem parte do mundo sensível []; é próprio da matéria a mutação []; e toda matéria é sujeita à medida e dimensão:
In: "Da grandeza da alma" 4
Agostinho — A alma parece não ser nada por não ter extensão material?
Evódio — Não posso dizer até agora que a alma não é nada, por não ter dimensões, como comprimento, largura ou volume. Mas você ainda não me explicou como ela é. É possível qie haja muita coisa digna de consideração e que não se limita materialmente. Não sei dizer se a alma pertence ao mesmo gênero destas coisas.
Agostinho — Eu sei que ainda resta esclarecer este assunto, e anteriormente prometi explicar a questão. Na verdade é questão em si muito sutil, e exige olhos mais capazes, os da mente, uma visão muito mais ampla do que a empregada nos olhos corporais, para as coisas de cada dia. Sugiro que, acompanhando a orientação que lhe dou, observe a direção do raciocínio. Não leve a mal que, por vezes, o caminho pareça um tanto cansativo, e se demoram a chegar as conclusões. E se isso decorre de um modo menos rápido que o seu desejo de resposta.
Pergunto inicialmente: Podemos supor a existência de algo corporal e que, de acordo com sua natureza, não tenha longitude, latitude e profundidade?
Evódio — O que deseja significar com profundidade?
Agostinho — Aquilo que nos permite imaginar as dimensões internas de um corpo, ou até perceber visualmente como em transparência. Porque, se retirarmos tal propriedade, não sabemos de sua existência. Quero a sua opinião sobre isso.
Evódio — Não há corpo sem as três dimensões.
Agostinho — E então? É possível admitir que tais dimensões sejam encontradas em algo que não é corporal?
Evódio — Não sei como isso seria possível.
Ao definir a matéria pela propriedade que os corpos têm de ter extensão — as três dimensões —, para provar a existência de uma realidade não-material, Agostinho vai provar a existência de uma substância que não é sujeita às relações de tempo e espaço. Em outras palavras, Agostinho vai provar que a alma não está sujeita às relações de tempo e espaço, mesmo quando o corpo atua no tempo e no espaço.
In: "Da grandeza da alma" 5
Agostinho — Supõe você que sua alma está situada apenas no seu corpo?
Evódio — Assim penso.
Agostinho — Está internamente como líquido que enche o recipiente, ou externamente como um envoltório? Ou ainda, das duas maneiras?
Evódio — Penso que da maneira referida por último. Se não estivesse internamente, meus órgãos internos não teriam vida. Se não estivesse externamente, minha pele não poderia sentir uma picada em qualquer parte do corpo.
Agostinho — Neste caso, para que deseja saber da quantidade da alma, se já admitiu ser tanta quanto permitem as partes do corpo?
Evódio — Se a razão me disser isso já é suficiente.
Agostinho — Faz bem em conceder que não se exija mais do que diz a razão. Entretanto, acha que o acima afirmado é razão suficiente?
Evódio — Sim, até que encontre outra. Em hora oportuna perguntarei ainda se a alma separada do corpo conserva esta mesma forma. (…)
Agostinho — Você está inteiramente errado. Antes, porém, vamos definir bem o que é quanta (aplicado à alma). Pois é este o tema que agora nos preocupa. E também aprenderei com isso, se assim lhe agrada.
Evódio — Pergunte como preferir, pois esta sua fingida dúvida me deixou hesitante sobre o que eu pensava estar resolvido.
Agostinho — Explique, por favor: pensa que a palavra memória é um termo sen sentido?
Evódio — E a quem pode parecer desta forma?
Agostinho — A memória é potência da alma, ou do corpo?
Evódio — A dúvida seria ridícula. Ninguém pode crer ou entender que um corpo morto tenha memória.
Agostinho — Lembra-se da cidade de Milão?
Evódio — Lembro bastante.
Agostinho — E, agora que nos referimos a ela, recorda suas dimensões e sua topografia?
Evódio — Certamente lembro, e nada existe mais completo e recente que tal lembrança.
Agostinho — Portato, agora que não pode ver Milão com os olhos, pode ver com a alma?
Evódio — Assim é.
Agostinho — Penso também que recorda a imensa distância entre nós, aqui em Roma, e a cidade de Milão?
Evódio — Certamente.
Agostinho — Ora, estando a alma aqui onde está seu corpo, e não se estendendo para fora deste corpo, como já foi dito, como pode abranger todas estas coisas, a visão da cidade, e a distância entre dois lugares?
Evódio — Parece que a memória pode fazer isso sem estar naquelas partes.
Agostinho — Logo, a memória conserva a imagem do lugar e do espaço?
Evódio — Penso que sim, porque agora eu não sei o que está acontecendo em Milão, e se minha alma pudesse chegar até lá eu não ignoraria coisa alguma.
Agostinho — Parece-me correto o que você diz. Mas, tais imagens certamente são de coisas corporais.
Evódio — Certamente, cidades e espaços são coisas corpóreas.
Agostinho — Já se olhou num espelho pequeno, ou já viu seu rosto na pupila alheia?
Evódio — Muitas vezes.
Agostinho — E sua imagem não parecia muito menor do que é seu rosto?
Evódio — Claro, queria que fosse maior que o espelho?
Agostinho — É necessário, portanto, que as imagens dos corpos sejam pequenas, quando os corpos que as representam são também pequenos?
Evódio — É de todo necessário.
Agostinho — Como explicar então que a alma, ligada ao pequeno espaço do corpo, é capaz de representar imagens imensas, muito maiores do que o corpo, cidades, campos, distâncias, e tudo mais que deseje, por maiores que sejam os objetos? Quero que reflita amplamente, e por mais tempo, quantas coisas são contidas na memória, e ali podem ser conservadas, e que, por isso mesmo, situam-se na alma. Que imensa profundidade e amplitude. Entretanto, como a razão nos mostra, a alma está ligada ao corpo, e é superior a ele.
Evódio — Já não sei dizer, nem consigo explicar o que tais noções produzem no meu entendimento. Chego a rir de mim mesmo por ter suposto a alma como uma quantidade do tipo corpóreo.
O diálogo é longo e continua de modo curioso. Quem se interessar por lê-lo encontrará Agostinho refutando idéias estranhas como a de que ao crescimento do corpo acompanha o crescimento da alma, ou que a alma tem a forma do corpo. E não pense o leitor que essa discussão é inútil, porque até hoje ainda existe quem creia nesse tipo de coisa. Também são tratados outros assuntos relacionados com as habilidades da alma, como sejam o aprendizado da linguagem e da geometria []. No processo, Agostinho mostrará que sentir é diferente de entender — enquanto o sentir é próprio do corpo, o entender o sentido é próprio da alma —, que quando dizemos que a alma está no corpo o fazemos apenas pela sua atuação, e não por dimensão, e vai concluir que a alma é imaterial, porque sua atividade nunca é limitada em dimensão ou tempo; e assim mostrará que a alma é diferente dos corpos materiais, sempre limitados pela extensão tempo-espaço.
Fico por aqui. Podemos resumir dizendo que o pensamento agostiniano reconhece tempo e espaço, não como idéias abstratas, mas como coisas reais. O tempo é inerente ao ser criado, por isso não há tempo onde não há criatura, assim como também não há criatura sem tempo. A mesma coisa se dá com relação ao espaço, uma vez que este indica a limitação e a localização do ser criado. Apenas uma última curiosidade: a moderna definição de matéria, que foi utilizada por Einstein, de que "matéria é tudo que está sujeito à relação espaço-tempo", coincide com a de Santo Agostinho.
A filosofia não envelhece
O leitor já deve ter notado a semelhança entre a separação que Agostinho fez entre as coisas — entre as coisas materiais, definidas pela extensão, e as coisas não-materiais, percebidas pelo pensamento e ligadas à razão e ao espírito — e a separação feita por Descartes, séculos depois, entre "res extensa" e "res cogitans". Se achou isso curioso, talvez se surpreenderá ainda mais em saber que também os termos latinos utilizados foram os mesmos, isto é, embora seja verdade que Agostinho tratou desses assuntos em várias de suas obras, é possível encontrar em algumas delas os termos latinos posteriormente utilizados por Descartes. Coincidência? Deixo isso para o julgamento do leitor.
O cogito cartesiano apresenta também semelhanças com o cogito agostiniano? Para refutar os questionamentos dos acadêmicos e mostrar o equívoco dos céticos, Agostinho anunciou que existem verdades que são de todo incontestáveis, e afirmou que, ainda que alguém duvide, é verdade que se duvida, existe. Esta afirmação, depois conhecida como cogito agostiniano, pode ser resumida assim: "duvido, logo existo", ou melhor, "se duvido, penso; se penso, existo".
In: "A Cidade de Deus" XI, 26
Tais verdades desafiam todos os argumentos acadêmicos, que dizem: Quê? E se te enganas? Pois, se me engano, existo. Quem não existe não pode enganar-se; por isso, se me engano, existo. Logo, se existo, se me engano, como me engano, crendo que existo, quando é certo que existo, se me engano? Embora me engane, sou eu que me engano e, portanto, no que conheço que existo, não me engano. Como conheço que existo, assim conheço que conheço.
A argumentação reaparece de modo brilhante no livro X de "A Trindade", onde Agostinho afirma: "Quem duvidará que vive, que recorda, que entende, que quer, que pensa, que sabe e que julga? Pois, se duvida, vive; (…) se duvida, sabe que está duvidando; (…) se duvida, pensa; (…) se duvida, julga que não deve assentir temerariamente". E assim conclui que até para duvidar é preciso que a pessoa tenha certeza de alguma coisa. De fato, sempre achei a reflexão agostiniana, nessa questão, mais profunda que a de Descartes, além de guardar maior originalidade. Na passagem abaixo, aparece o termo latino que depois foi utilizado por Descartes:
In: "Solilóquios" II, 1
- Tu, que desejas te conhecer, sabes que existe?
- Eu o sei.
- Sabes se pensas? (Cogitare te scis?)
- Sim, sei.
- Então, é verdade que pensas? (Ergo verum est cogitare te?)
- Por certo.
Não é sem razão que o pensamento de Agostinho moldou todo o ocidente cristão e prevaleceu por mais de mil anos como a referência teológica e filosófica. Suas reflexões se estenderam por diversas áreas do saber, o que espero ter ajudado a mostrar com o muito pouco que apresentei aqui. Num próximo artigo quero abordar o método filosófico agostiniano, mostrando a passagem da reflexão do exterior para o interior e daí para a transcendência. E no momento aproveitarei para tentar resumir a dita "prova da existência de Deus", executada nos moldes agostinianos.
Walace Rodrigues (30-mar-2008)